O ramo de almeirão
8 - Setembro - 2008
Leo Cosendey
Se beber não dirija, dizia a lei, e eu, como cidadão respeitável que tem medo de pau de arara, obedecia. Foi por isso que, depois daquele porre, resolvi voltar de táxi.
– Pra onde? — perguntou o taxista.
– Ah, sei lá — respondi. — Pra qualquer lugar. Nada mais me importa. Minha mulher me trocou por um ramo de almeirão, aquela vaca.
– Sei bem como isso é. Aconteceu comigo também. Mas sei o que pode te deixar bem melhor.
– O quê?
– Vou te levar num lugar mágico, cheio de cor e música, onde todos voltam a ser crianças e sorriem, cheios de esperância e inocença — o taxista não se dava muito bem com sufixos.
Não respondi. O taxista tinha um brilho cativante no olhar, mas eu estava enjoado demais, então só me recostei. As casas passavam. Os postes piscavam. As putas me mostravam os peitos. Um duende apareceu do meu lado.
– E aí, campeão?
– Sai daqui, coisa do capeta.
– Epa, epa, epa! — o duende era o Juvenal Antena. — Eu justamente vim aqui te avisar de uma situação muito perigosa!
– Que que é?
– Esse lugar pra onde vocês estão indo… é melhor tomar cuidado! É um lugar do barulho, cheio de aventura e confusão, onde tem uma turminha da pesada que vai aprontar todas! — agora o duende era o Narrador da Sessão da Tarde.
– Ah, vai se foder, seu duende.
Aí ele se ofendeu. “Duende é o cacete. Sou um Leprechaun, porra. Da Irlanda. Legítimo.”
– Sério mesmo? — eu perguntei.
– Com certeza. Olha aqui, ó — e ele mostrou, no braço, um autêntico selo de procedência irlandesa.
Na mesma hora, pedi para o taxista parar o carro. Meio a contragosto, já que a corrida seria menor, ele encostou no meio-fio. Paguei e descemos, eu e o duende leprechaun, e fomos para um bar beber e falar da vida. Sentamos no balcão, mas ele desistiu bem depressa, assim que viu que não serviam Guinness.
“Brahma me dá dor de cabeça”, foram suas últimas palavras antes de desaparecer numa nuvem de fumaça amarela. Merda de vida, pensei, sempre me tomando meus amigos. Então olhei pro lado e vi, no banco à direita, um saci que tomava uma dose de pinga.
Cheguei mais perto.
– E aí, amigão. Quer conversar? — perguntei.
– Minha vida é uma merda — ele disse. — Todo dia acordo com o pé esquerdo. É por isso que eu bebo.
Juntei-me a ele. Aquela noite foi folclórica.
Entry Filed under: Contos & Crônicas. Tags: bebedeiras, histórias singelas, humor.
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1.
Gugu | 8 - Setembro - 2008 at 18:31
Mais uma das suas, Léo. Alegrou meu dia. Obrigado. Abraço.
2.
Cláudia Lamego | 8 - Setembro - 2008 at 20:03
ahaha, ótimo!
Confesso que esperava ler mais sobre o Almeirão.
Léo, esse conto precisa ter continuidade!
A Lu poderia escrever, né? Aí, vocês reeditariam a dupla dos textos do tédio.
Beijos
3.
l.c | 9 - Setembro - 2008 at 11:50
Eu tb acordo todo dia com pé esquerdo, até pq nao me lembro de tê-lo amputado. Taí uma excelente desculpa por beber tanto.
E esse leprechaun é realmente um filho da puta, já me colocou em muitas furadas.