O que pretende Manoel Carlos?
28 - Setembro - 2009
Leo Cosendey
Semana passada, assisti a três capítulos da nova novela das oito nove, a tal de Viver a Vida. A impressão que tive é que os diretores do folhetim querem transformá-lo na primeira novela em tempo real da história, algo no estilo de 24 Horas, já que, ao longo desses três capítulos, apenas uma cena se desenrolou: o casamento da Taís Araújo com o José Mayer, coitada dela. Ou talvez seja questão de estilo: assim como a anterior tinha influência hindu, esta tem influência iraniana, pelo menos no andar (ou melhor, rastejar) da história.
Ao longo daqueles três sofridos capítulos, fiquei pensando em que mundo vivem os personagens da novela. Uma top model internacional, cuja mãe é dona de uma pousada em Búzios, arranja um coroa que aluga um iate com tripulação completa apenas pra dar uma cavucada, como diria o Mussum. A filha deste coroa é outra top model internacional, que mora com a mãe num apartamento de cinco quartos no Leblon e tem umas três empregadas, todas uniformizadas. O coroa e a gatinha vão passar uma lua de mel de uns quatro meses de duração em Paris. Algum personagem, agora não me lembro quem, cansado dos enooooormes engarrafamentos até Búzios, resolve passar a ir pra lá de helicóptero.
Certo, certo. Não é de hoje que as novelas globais têm pobres limpos, cheirosos, que fazem três refeições por dia e moram numa casa de quatro cômodos sem goteiras e com todas as paredes pintadas. No entanto, um detalhe ao fim de todos os capítulos me chamou a atenção: o momento mundo-cão.
Ao final de cada capítulo, um desgraçado qualquer aparece para contar suas misérias: num dia, foi uma mulher que contraiu Aids em sua primeira transa; em outro, um rapaz que não tinha braços nem pernas; no terceiro, outra mulher que apanhava desde criança, primeiro do pai, depois do marido.
Enfim, o que pretende Manoel Carlos? Mostrar aos pobres mortais que o mundo de verdade é bem diferente do conto de fadas em que vivem seus personagens? Qual é o sentido, afinal, de mostrar histórias de pessoas que, pra não desperdiçar o clichê, “venceram na vida”, se na meia hora anterior o que se vê é só luxo e luxúria?
Juntas, a ficção e a realidade parecem dizer apenas: “este mundo não é seu, campeão. Mas não fique triste. Tem gente que está pior do que você.” Fala sério.
Entry Filed under: Comportamento, Cultura, Mídia. Tags: Manoel Carlos, novela, sarcasmo, tv, Viver a Vida.
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1.
Cláudia | 28 - Setembro - 2009 at 20:50
Eu sou suspeita, porque gosto das novelas do Manoel Carlos. E tenho a impressão que as pessoas gostam desses núcleos ricos das novelas. E esses personagens realmente existem, pelo menos no Leblon da vida real.
2.
Olívia Bandeira | 28 - Setembro - 2009 at 22:16
Muito boa sua análise, Leo.
Caminho das índias está até parecendo uma obra prima diante da nova novela.
3.
Gisele Maia | 12 - Outubro - 2009 at 11:43
Nunca assisti a essa novela, mas sabia que se tratava de um mundo de Helena no Leblon. A romaria dos mutilados no final é que me é novidade. Gostei muito da sua análise, me parece pra lá de pertinente.