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Animação zero

Acabo de ler o Segundo Caderno de hoje. A matéria de capa, traduzida do New York Times, trata da corrida pelo próximo Oscar e avisa que os grandes estúdios vêm fazendo campanha pelas indicações de seus filmes mais pops, comerciais, lucrativos. Até aí, nenhuma novidade. Não há dúvidas de que o Oscar é um evento para a indústria, o espetáculo, os efeitos especiais, as estrelas e o mercado. Nunca tive nada contra as superproduções hollywoodianas. Nem poderia, afinal, sou fã do Spielberg. Mas me preocupa a falta de espaço para obras que fogem a esse padrão, para as mais questionadoras, as mais autorais ou, ainda, as independentes. Parece mesmo que o reconhecimento da academia, nos últimos anos, por títulos como “O Segredo de Brokeback Mountain”, “O Jardineiro Fiel”, “Crash”, “Sangue Negro” ou “Pequena Miss Sunshine” foi uma exceção à regra. Poderia ter marcado o início de um processo de diversificação, mas, pelo que diz a matéria, foi só uma fase “inexplicável”. “O afastamento dos filmes populares causou uma enorme queda na audiência do show do Oscar”, afirma o texto.

De tudo, entretanto, o que mais me assusta é o posicionamento dos estúdios Disney em relação ao longa de animação “Wall-E”. Criado em parceria com a Pixar, o desenho fala, para crianças e adultos, do problema da ecologia, do acúmulo de lixo no planeta e da substituição dos relacionamentos pessoais pelas nocivas facilidades do mundo virtual. Poderia, facilmente, alçar a categoria “animação” ao status de “grande gênero”, colocá-la em pé de igualdade com os representantes da categoria “filmes” e estimular outros realizadores do setor. Ao invés disso, para dar a “Wall-E” o rótulo de “super”, de “excepcional”, de “único”, os estúdios abrem campanha para que ele seja indicado por “Melhor Filme”. A atitude só serve para manter como estão todas as regras do jogo. E do mercado.

2 comments 3 - Novembro - 2008

Todo dia, mas nem sempre igual

Delicada e perfeitinha, recém-casada, recém-mudada, recém-dona-de-casa-ultra-super-neurótica, ela foi ao banco pagar a conta da light. Faltavam ainda 10 dias para o vencimento. Se esperasse mais um pouco, entretanto, o dinheiro contado e separado poderia virar um vestido, um sapato, uma bolsa, um casaco.

Empurrou a porta da agência e reclamou do tamanho da fila. Abriu a agenda para pegar o boleto. Teoricamente, ele estaria grampeado três vezes na página com a data do dia. Não estava. Nem na do dia seguinte. Nem no início, nem no fim do ano. Respirou fundo e se prometeu ficar calma. Mas num impulso, virou a agenda de cabeça para baixo e sacudiu tantas vezes que sentiu o braço doer. Xingou a própria sorte, o céu, o inferno, o casamento e o marido (devia ser culpa dele!). Resignada, neurótica amadora, desistiu.

Visualizou o fim do mundo: a casa escura, o banho gelado, os capítulos perdidos da novela, o sorvete derretido no freezer, o silêncio do secador de cabelos. À noite, derrotada, entrou pela portaria do prédio disposta a engolir o orgulho e pedir colo. Ensaiou algo do tipo: “OK, você venceu, batata-frita. Perdi a conta de luz. Sou uma esposa lamentável”.

Em um último e incompreensível ato de esperança, correu até a caixa do correio. E lá estava, iluminada, cor de abóbora, a conta da light. Pensou que, talvez, nunca a tivesse tirado dali. Mas notou que estava aberta e, dentro, encontrou uma carta:

“Cara Amiga, bom dia! Esta conta foi achada dentro do ônibus. Resolvi, como servo do Deus Altíssimo, devolvê-la em vossa residência. Que Deus te abençoe rica e profundamente. (…) Se um dia desejar visitar-nos, estamos na Igreja Batista Nova Filadélfia, em Rocha Miranda. Com a paz do Senhor Jesus, I.L. P.S.: Jesus te ama! Receba-o. Leia a Bíblia”.

Emocionada por constatar que o mundo continuaria o mesmo, sentou para redigir uma resposta. De cara, pensou em algo assim: “Obrigada por sua ajuda, o sr é um homem bom. Mas assuma responsabilidade por seu ato de heroísmo. Tenha orgulho de si nesta vida e nesta terra. A servidão acabou”. Pouco depois, cansada e agradecida às crenças alheias, apagou tudo e recomeçou. Escreveu apenas “Deus te dará em dobro”. E lacrou o envelope.

14 comments 16 - Julho - 2008


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