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Nota triste

Cláudia Lamego

Há cerca de dois meses, uma notícia agitou o mundo das grávidas: uma moça rica e bonita, de pouco mais de 30 anos, tinha morrido no pós-parto, numa das clínicas mais prestigiadas da cidade. Naquela semana, o obituário do jornal em que trabalho deu uma página inteira de anúncios fúnebres para a missa de sétimo dia da moça. Aquela morte chamou a atenção de todos, e a notícia não tardou a sair no jornal, com o advogado contratado pela família dizendo que processaria o médico e a tal clínica. Foram dias e dias em que as gestantes não falavam de outra coisa. Os obstetras passaram dias tentando tranqüilizar aquelas que ligaram, num misto de medo e curiosidade, querendo saber o que tinha acontecido e quais os riscos que todas correriam dali para a frente. 
 
O susto foi maior porque grávida carente de recursos e cidadania morrer em hospital público, sem atendimento, no Brasil, não seria surpreendente, embora triste. Mas moça com recursos, com um bom médico e direito a atendimento num dos melhores hospitais da cidade é que parecia nota de um enredo inacreditável. Mas, uma hora o assunto deixou de ser notícia. Menos para mim. Eu passo quase sempre em frente ao restaurante que era da família da moça, que, saiu no jornal ontem, foi vendido. De vez em quando pensava na recém-nascida que ficou, e no seu irmão mais velho, de um casamento anterior da moça. Os dois órfãos. Que tragédia para a família.
 
Mas, eis que recebo a Revista Piauí, com um certo atraso, e leio, estarrecida, que a tragédia que perpassa a vida desta família é ainda maior. No número que está nas bancas e pode ser acessado pela internet, a jornalista Dorrit Harazim conta a história do pai americano do primeiro filho da moça. É um rapaz simples, de classe média, que trabalha para pagar a hipoteca de sua casa e que viveu uma história de amor na Itália, quando era modelo e a moça, estudante de moda. Eles se apaixonaram, foram viver nos Estados Unidos e tiveram um filho. Depois de anos de relacionamento, a moça resolve passar férias no Brasil com o filho (o que era comum na história do casal). Os pais dela, que tinham casa no mesmo bairro americano, viajam junto. Do país de origem, a moça liga e termina o relacionamento, ameaçando o pai de nunca mais deixá-lo ver o filho, caso ele insistisse em processá-la por “seqüestro” da criança. Isso tudo na versão do pai americano, ouvido pela revista.
 
Segundo a reportagem, a moça então se casa com um advogado carioca, desses que carregam o prestígio profissional da família no sobrenome, e começa a briga judicial pela guarda do menino americano. Desde 2004, o pai não consegue ver o filho. É uma intrincada rede em que mistura-se poder, sobrenomes, processos intermináveis e uma dose de angústia que só um pai ou uma mãe (ou futura, como eu) pode entender. O pai americano esteve no Brasil várias vezes, mas sempre voltava para os Estados Unidos sem o encontro. A família do padrasto, que, pasmem, conseguiu a guarda do garoto na Justiça, impede a imprensa de noticiar a história, alegando segredo de Justiça no processo. Nem a família do padrastro nem a da moça, que morreu, falam com a imprensa.

A avó das crianças disse ter vendido o famoso e bem-sucedido restaurante para cuidar dos netos. A vida continua no Rio, enquanto um pai sofre, em algum ponto dos Estados Unidos, de saudade do seu filho. Coisa de apertar o coração.
 
P.S.: Quem quiser ler a matéria, segue o link. A Piauí resolveu publicar, mesmo com uma possível ameaça de processo que poderá sofrer, dadas as ações contra outros órgãos de imprensa que noticiaram o fato, como a Folha de São Paulo e o Correio Braziliense.

P.S.II: A história faz lembrar a de um conhecido nosso, que resolveu criar o blog A vida do meu filho para dividir a sua saudade e dor.

3 comments 19 - Novembro - 2008

Ouvido por aí, em época de campanha (repostagem)

Cláudia Lamego

_ Tenho vontade de dar uma coça em quem inventou o horário de verão.
_ …
_ É mesmo. Se eu fosse autoridade, mas dessas autoridades que podem fazer qualquer coisa, e descobrisse quem inventou, mandava dar uma coça. Meu filho acorda às 4h pra trabalhar. No horário de verão, é 3h. Não pode.

Segue o papo, mas agora sobre política.
_ Ah, eu não anulo meu voto não. Não vou votar no Crivella, vou de Eduardo Paes, esse aí apoiado pelo governador. Porque eu sou democrata! _ diz a senhora que falava há cinco minutos em bater em quem inventou o horário de verão.
_ Eu vou votar em branco. Não acredito em ninguém.
_ Ah, não pode fazer isso não. O povo tem que ser inteligente: votar no candidato de quem já está no governo. Porque aí, eles não vão poder brigar e depois dar desculpa de que não fizeram nada por causa disso. Aliás, eu não votei nesse Sérgio Cabral não.
_ Esse Sérgio Cabral só tá na política por causa do pai dele, né? O pai dele é político.
_ Nada, o pai dele é jornalista. Nunca soube que ele se candidatou antes. Ele é jornalista político, escreve muito bem. Eu gosto de política, sabe? Gosto muito. Minha antiga patroa era casada com o prefeito da cidade, lá no interior. Essa de agora, não é dona Maria, me deu um livro sobre o Juscelino. Sei tudo sobre o Juscelino. Só não virei professora porque não tenho paciência com marmanjo. Mas sou muito inteligente. “Catuco” muito a vida deles. Já votei muito naquele Nelson Carneiro, o que inventou o divórcio.

Add comment 13 - Novembro - 2008

O domingo de Hamilton

Cláudia Lamego

No ano em que se comemora 20 anos do primeiro título de Ayrton Senna, conquistado na histórica corrida do Japão, em 1988, Lewis Hamilton sai de Interlagos como o campeão mais jovem da Fórmula-1.

O que os dois têm em comum? Ayrton é o grande ídolo do inglês, que um dia pediu a Ron Dennis, da McLaren: “Deixa eu correr pela equipe do Senna?” Na Fórmula 1 de hoje, Hamilton é o fã número 1 do brasileiro que deixou as pistas em 1994.
Por essa razão, a comemoração aqui em casa (do lado direito da cama, o esquerdo torcia pelo Massa e sua Ferrari trapalhona) é dupla.

p.s.: Para aqueles que tentaram azarar o campeão com a camisa do Vasco, valeu o ditado do feitiço contra o feiticeiro. Caidíssimo no Brasileirão, o time da Colina derrotou o Fluminense ontem no Maracanã. Da próxima vez, sei não, é melhor arranjarem outro amuleto pro Massinha.

5 comments 3 - Novembro - 2008

Lembranças de Glauber

Cláudia Lamego

Em 2001, quando comecei a pesquisar sobre a trajetória de Glauber Rocha como jornalista na Bahia, nos anos 50 e início dos 60, procurei o Tempo Glauber. Já tinha ido à Biblioteca Nacional e aos arquivos da Cinemateca do MAM, mas, nesses lugares, não achei os textos raros do cineasta, dos quais sabia da existência por meio da biografia escrita pelo jornalista João Carlos Teixeira Gomes. No templo, que já tinha visitado para entrevistar Lúcia Rocha (para o Caroço!!!), estava quase indo embora, certa de que não teria acesso a nada, quando a mãe de Glauber, de repente, me deu um voto de confiança – não sem antes perguntar se eu não tinha “interesses comerciais” na obra dele. Não, eu só queria fazer uma monografia bem feita para a faculdade.

Na verdade, ela passou a confiar em mim depois que eu citei vários textos de Glauber que tinha encontrado na Biblioteca Nacional, mostrando que havia copiado tudo à mão e que seria um trabalho descomunal continuar utilizando esse método braçal de pesquisa. Também contei a ela que tinha uma cópia de um livro raríssimo de Glauber, que nem mesmo ela tinha mais, dado que não era editado há anos e anos. (A minha cópia era da biblioteca da UFF e ela me agradeceu muito quando levei uma para ela. Hoje, o livro “Revisão crítica do cinema brasileiro” já tem uma edição digna de sua importância)

Aí, Lúcia Rocha me levou numa espécie de subsolo do casarão, abriu uma porta e, em seguida, vários armários. “Está tudo aí”, me disse com o olhar ainda desconfiado. O “tudo” eram os textos que Glauber tinha escrito na imprensa baiana, inclusive em jornais alternativos da capital, incluindo aquele que ela considera seu segundo texto, publicado quando ele ainda era um menino de calças curtas – mas com idéias já em ebulição.

Abri os armários e o que encontrei foi um arquivo minuciosamente organizado (“eu trabalhei como arquivista no MIS”), com o carinho da mãe que catava desenhos e manuscritos no lixo, antevendo a importância de guardar a memória daquele que se tornaria um dos mais influentes cineastas do país nos anos seguintes. Fiquei horas lá (naquele tempo, tinha saído do estágio e me dedicava à pesquisa, tempo bom), impressionada e até com um tico de medo de não dar conta de ler tudo. Mas, tia Lúcia foi generosa: me confiou os textos originais e me indicou uma papelaria na Voluntários da Pátria que tirava cópias. Atravessei a Sorocaba com o tesouro nas mãos, morrendo de medo de, sei lá, bater um vento e ver ir embora pelo ar.

Voltei no Tempo Glauber muitas outras vezes. Numa delas, tia Lúcia me vendeu um exemplar do livro “Riverão Sussuarana” com dedicatória do próprio Glauber para ela. Liguei para dizer do engano e ela respondeu: “Está em boas mãos”.

Naquela época, o casarão vivia a duras penas, apenas com a força da mãe, já octogenária, que administrava tudo a mão de ferro. Mas, desde então, livros e filmes de Glauber foram reeditados. O acervo do cineasta, digitalizado. O Tempo Glauber tem pesquisadores, cursos, produtos à venda. Não vou lá há muito tempo, não sei se as dificuldades financeiras se mantêm. Mas, uma boa notícia chegou essa semana: o site está atualizadíssimo, com fotos, documentos históricos e vídeos (tem trechos do famoso programa “Abertura”).

É uma felicidade testemunhar esse avanço. Fica a dica para uma visita.

P.S.: Outro dia, estava na portaria do meu prédio e vejo sair uma moça com o rosto muito conhecido. Olhei tanto que ela deve até ter se assustado. Quando passou, fui até o porteiro e perguntei: “Essa moça que saiu agora mora aqui no prédio”? “Mora”, confirmou. “O nome dela, por acaso, é Paloma?”. “É, sim”. Nesse dia, descobri que era vizinha da filha de Glauber, Paloma Rocha. E saí cantarolando: “Se entrega Corisco, eu não me entrego não!”

2 comments 25 - Outubro - 2008

Brincando com Machado

Cláudia Lamego

Um trecho do livro que estou relendo, em edição nova, do grande Machado de Assis, para entrar no clima da homenagem ao centenário do escritor. A propósito, acho que há livros escritos e para serem lidos na maturidade. É o caso desse “Memórias póstumas de Brás Cubas”.

Isto dizendo, arrebatou-me ao alto de uma montanha. Inclinei os olhos a uma das vertentes, e contemplei, durante um tempo largo, ao longe, através de um nevoeiro, uma coisa única. Imagina tu, leitor, uma redução dos séculos, e um desfilar de todos eles, as raças todas, todas as paixões, o tumulto dos impérios, a guerra dos apetites e dos ódios, a destruição recíproca dos seres e das coisas. Tal era o espetáculo, acerto e curioso espetáculo. A história do homem e da Terra tinha assim uma intensidade que lhe não podiam dar nem a imaginação nem a ciência, porque a ciência é mais lenta e a imaginação mais vaga, enquanto que o que eu ali via era a condensação viva de todos os tempos. Para descrevê-la seria preciso fixar o relâmpago. Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo o que passava diante de mim – flagelos e delícias -, desde essa coisa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo. Eram as formas várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da espécie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das coisas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com a agulha da imaginação; e essa figura – nada menos que a quimera da felicidade -, ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão.

Add comment 14 - Outubro - 2008

Diálogos de campanha (ainda no 1º turno) – e uma pergunta

Cláudia Lamego

No sacolão volante, estacionado na Pacheco Leão, Horto.

_ Esse Crivella não pode ganhar.
_ Ah, não mesmo. Não voto nele de jeito nenhum, aquele povo evangélico…
_ Você vai votar em quem, então?
_ Ah, eu voto naquele menino, ele é muito bom, honesto.
_ Quem, o Eduardo Paes?
_ Não, no Gabeira, ué.

Numa janela da São Clemente. Uma carreata do Molon passava na rua, com quase ninguém atrás. E a menina Sofia, de 2 anos e 10 meses, pergunta:

_ Mamãe, o que aquele moço tá fazendo em pé no carro, dando tchau?

*****

A pergunta: vocês acham que as fotos do “menino” Gabeira de sunga podem tirar votos do candidato verde?

4 comments 8 - Outubro - 2008

Que mistérios tem Clarice?

Cláudia Lamego

“E um dos indiretos modos de entender é achar bonito.”

Tinha acabado de entrar na exposição sobre Clarice Lispector no Centro Cultural Banco do Brasil e pensava justamente na dificuldade que sempre tive de “entender” a escritora. Tenho vários livros, tentei ler alguns deles, mas sempre fui abandonando a leitura pelo caminho, um a um. No entanto, ao entrar na primeira sala e me deparar com as fotos e algumas de suas frases era como se aquilo que estava lendo e admirando fizesse todo o sentido para mim, desde sempre.

Foi quando me deparei com a frase lá em cima.

Estive lá no domingo, mais um dia chuvoso no Rio e, pelo que eu tinha lido, o último para se conferir a exposição, que já tinha feito o maior sucesso em São Paulo. Foi uma surpresa atrás da outra. Além de achar as soluções cenográficas perfeitas para se ler Clarice, gostei muito de entrar em contato com o universo mulher da escritora. Numa entrevista, que assisti sentada no sofá, ao lado da máquina de escrever usada por Clarice, ela explica que “é muito maternal” e que, portanto, tem muito mais facilidade e gosto para lidar com crianças que com adultos.

Nessa linha feminina, um dos documentos expostos que mais me chamou a atenção foi uma listinha de afazeres domésticos de Clarice:
1) Viver melhor as 24 horas do dia (ter mais tempo)
2) Tinturaria cabelo
3) Luvas
4) Café turco
5) Ginástica

1) …
2) Morangos pessoas de idade
3) … o menu
4) Vestido preto
5) Dar paz ao rosto (telefonar Wilma)

Desde que casei, as listas com afazeres tornaram-se um hábito indispensável. A gente vai andando pela casa e vê que a pasta de dente está acabando, que o leite só dá para hoje, que o pão está vencido, etc. Se não anotamos nada, corremos o risco de voltar do supermercado sem os itens básicos para a casa funcionar. Clarice, mãe de dois filhos, mulher de diplomata, escritora famosa, não era diferente.

Em outro trecho da tal entrevista, ela fala também de seus livros e do rótulo de “hermética”. E conta, deliciosamente, que um professor de literatura de um colégio famoso no Rio disse que não conseguiu entender um de seus livros. Emenda revelando que o mesmo era o livro de cabeceira de uma moça de 17 anos, que a abordou para contar a história.

Saí da sala de exposição, depois de me deliciar com as cartas enviadas por e para Clarice, de gente como Rubem Braga, Lúcio Cardoso, Paulo Mendes Campos, Érico Veríssimo, direto para a livraria da Travessa do CCBB. Se a menina de 17 anos compreendia, já era a minha hora de comprar e tentar ler “A paixão segundo G.H. Para minha surpresa, o livro citado por Clarice no vídeo estava esgotado ali. Sinal de que muitos leitores, como eu, já estavam tentando penetrar ainda mais no reino das palavras da autora de “A hora da estrela”.

OBS: Esse texto também foi publicado no meu novo blog. Tentei escrever algo que valesse para os dois lugares, com o objetivo mesmo de linkar aqui no Caroço o meu novo endereço no mundo blogueiro. O Lameblogadas II ainda está em fase de arrumação e faxina geral, mas acho que já posso fazer o open house.

1 comment 3 - Outubro - 2008

Ary e o Maracanã

Cláudia Lamego

O Gustavo escreveu sobre a Cidade da Música e a Monique lembrou, em comentário, a polêmica sobre a construção do Maracanã, no Rio. Então, aproveito a oportunidade para publicar um texto que tinha escrito para o jornal, mas que não foi publicado, numa série sobre os vereadores do país. Nele, está citada a briga sobre o Mário Filho, defendido na Câmara por ninguém menos que o nosso ilustre Ary Barroso, e atacada pelo controverso Carlos Lacerda. No livro do Sérgio Cabral, há mais detalhes sobre o debate. Aliás, o capítulo que trata de Ary como vereador é o mais saboroso da biografia escrita pelo primeiro-pai do estado sobre o compositor. Segue o texto:

Em tempos de mensaleiros, sanguessugas e fichas-sujas, é curioso lembrar que, no passado, os políticos ofendiam uns aos outros com xingamentos mais, digamos, ideológicos, do tipo “integralista”, “comunista” e até “sambista”. Esse último é o caso do compositor Ary Barroso, que, na legislatura de 1947/1951 na Câmara de Vereadores do Rio, foi “acusado” por um colega de não ter experiência como funcionário público, mas viver de tocar e cantar — como conta o jornalista Sérgio Cabral na biografia “No tempo de Ari Barroso”.

“Sr. Presidente, qual o defeito, qual a culpa, qual o erro, qual o castigo que mereço pelo simples fato de ser sambista? (…) Ser sambista, sr. Presidente, é muito difícil. Nunca pertenci ao quadro de funcionários (da prefeitura) e, se pertencesse e conseguisse chegar ao mais alto grau da carreira, nunca viria à tribuna do Legislativo com a pretensão de atirar contra um colega a pecha ‘infamante’ de sambista. Conclamo os sambistas a prestarem atenção nestas palavras: fui apontado, em tom pejorativo, nesta Casa, como sambista.”

Na época em que Ary ocupou uma das cadeiras da Câmara Municipal do Rio, a ideologia ainda definia posições e projetos. Polêmico, o compositor de “Aquarela do Brasil” foi um vereador atuante, se envolveu em várias discussões e dividiu a tribuna com nomes como Carlos Lacerda, seu colega de UDN. O estilo irreverente e irônico que trouxe de seus programas de rádio, entre eles o “Calouros em desfile”, e da narração de jogos de futebol foi uma de suas marcas na Casa.

Na briga pela aprovação da construção do Maracanã, Ary Barroso defendia que grande parte das despesas seria paga com a venda de cadeiras cativas. Lacerda era contra o estádio, preferia que ele fosse construído num terreno em Jacarepaguá. Tito Lívio, outro udenista, defendia que a prioridade do Rio era a saúde pública. Numa resposta ao colega Tito, Ary usou do deboche:

“Vossa Excelência, que combate com tanta veemência a aquisição de ‘cadeiras cativas’ nos estádios de futebol e que defende com tanto ardor os hospitais, deveria propor a compra de ‘leitos cativos’ para os doentes, já que eles se acham tão necessitados de morar dentro dos hospitais” (“Risos”, registrou a taquigrafia).

Ainda na polêmica sobre o estádio, Lacerda, um dos grandes oradores da casa, respondeu à altura. Uma de suas justificativas era de que o Brasil não tinha cimento suficiente para a construção.

“O Brasil vai importar cimento da Inglaterra para que o nosso colega, o sr. vereador Ary Bar-roso, possa irradiar jogos de futebol”, acusou o futuro go-vernador da Guanabara.

Na Câmara, Ary defendeu os interesses de seu bairro, apresentando projetos para melhorar a ladeira do Leme, onde morava, e os dos compositores brasileiros. Democrata, discursou contra a cassação do mandato dos vereadores do Partido Comunista. Conservador, reclamou da autorização para que banhistas circulassem nos bondes da Light:

“O Rio de Janeiro está se transformando numa cidade de homens seminus, uma vez que os banhistas se intrometem nas ruas distantes da praia, em trajes, positivamente, atentatórios à moral. (…) Assistimos ao desfile crítico e inédito de bondes, em plena Capital da República, carregados de banhistas em trajes menores e atitudes imorais, num desrespeito integral à família carioca, em gestos e esgares que depõem sensivelmente contra os nossos foros de civilização”.

Ao mesmo tempo, ao criticar um projeto que isentava o Clube Militar de impostos, Ary usou argumentos nada conservadores para defender que o teatro é que merecia tal benefício. Num aparte no plenário, defendeu o Teatro Recreio, acusado de imoralidade:

“V. Excia. acha que exibir ao público mulher de corpo bonito é deseducar o povo? V. Excia. desejaria talvez que, pela platéia do Teatro Recreio, desfilassem aleijões e monstruosidades físicas? (…) A pornografia bem disfarçada deixa de ser pornografia. (…) A malícia transforma-se em pornografia desde que o espectador seja pornográfico”.

Em tempos de gastos escandalosos nas câmaras e no Congresso Nacional, Ary Barroso, que já tinha o seu carro importado, foi contra um movimento para que a Câmara importasse automóveis para servir aos vereadores.

“Não vejo, sr. presidente, que, pelo simples fato de me transformar em representante do povo, valha-me dessa prerrogativa para superar o próprio povo, que está enfileirado, esperando a vez de comprar o seu carro. Seria preferível, sr. presidente, abandonar tais questiúnculas de privilégio, de prioridades e defendermos, exclusivamente, os reais interesses do povo.”

3 comments 25 - Setembro - 2008

O Caroço

Cláudia Lamego

Dizem por aí que o CAROÇO brotou do nada, que antes dele havia apenas o Coisa Nenhuma. Mas é difícil, já que ele surgiu já metido, cheio de idéias, botando as manguinhas de fora, todo saliente, irreverente, inconseqüente. Havia algo antes do CAROÇO, mesmo no fundo das entranhas das quais ele adveio. Havia vontade? Havia. Havia necessidade? Havia. Havia mais, havia, como dizem as fofoletes de Icaraí, uma daquelas coisas loucas assim, sabe, que vão tipo assim subindo pela garganta e te deixam com uma vontade muito louca de gritar.

O CAROÇO veio de uma vontade, de uma súbita ânsia de fazer alguma coisa. De sacudir a poeira. De meter dedo no olho e morder nariz. Algo inexplicável, um transe coletivo surgido numa noite de poesia com cachaça e que não foi levado pelas ondas da ressaca. Mesmo às vezes meio frígido, o CAROÇO virou uma tara coletiva, que brotou, esfriou e vem maturando. O CAROÇO, sim. Ele é. Ele não precisa de. O CAROÇO, simplesmente. O CAROÇO e ponto.

O CAROÇO, até agora, apresenta poucas realizações. Mas projetar é o que importa, como diria Le Corbusier.

O Caroço – É a menina dos olhos da Caroço Produções. Enfrenta enormes problemas desde seu nascimento (quando era apenas o “Jornalão”), como má-vontade na gráfica, críticas generalizadas, crises de preguiça e um mau agouro constante. Mas assim mesmo, embora aos trancos e barrancos, já emplacou algumas edições.

Quando o texto acima foi escrito, se não me engano, pelo Leo, o CAROÇO eram quatro edições toscas de um jornal impresso na gráfica da UFF. A apresentação estava num endereço que se pretendia a nossa casa na internet (coisa muito feia, mas possível naquela época com poucos recursos e pré-blogs). Desde então, amigos se foram e voltaram, filho nasceu (outro está por vir), amigos novos surgiram, até que a correspondente em Londres decidiu parar de ouvir as idéias e lamentações por falta de um novo lugar para escrever e criou este blog coletivo, onde CAROÇOS voltaram a dividir textos no mesmo espaço. Cônjuges viraram colaboradores, CAROÇOS perdidos voltaram e eis que a equipe se completa novamente, com a chegada do nosso querido Leo Cosendey, da equipe original que um dia, no anfiteatro que virou praia, decidiu que teria um nome só: CAROÇO. Um ciclo se fecha para surgir, quem sabe, outro.

8 comments 4 - Setembro - 2008

“O samba está esperando/esperando pra te ver”

Cláudia Lamego

A música me uniu ao meu marido. Nos vimos a primeira vez durante uma roda de samba no Bip, em Copacabana. Fomos apresentados duas semanas depois, no Centro Cultural Carioca, depois de um show da Teresa Cristina. Voltamos ao Bip para dar o primeiro beijo e, ao longo desses cinco anos, foram inúmeros os momentos de comunhão ao som de Chico Buarque (ele jura que não escolheu dar ao filho o nome de Francisco em homenagem ao nosso ídolo), Dorival Caymmi, Noel Rosa, Clara Nunes, Paulinho da Viola e tantos outros. Não à toa, eu (que não tive uma formação musical, digamos, adequada) e ele temos a expectativa de compartilhar com o nosso filho essa grande paixão.

Há duas semanas, ao ouvir pela milésima vez o CD dos Saltimbancos Trapalhões, as músicas adquiriram outra dimensão para mim. Chorei, segurando a barriga, e conversando com o neném: “Francisco, eu sonhei muito com o dia em que ia poder dividir a alegria de ouvir essas músicas com um filho e poder ensiná-las a ele”.

Em alguns momentos, eu fico pensando se, quando crescer, Francisco vai achar tudo muito chato o que a gente ouve e o que tentou ensiná-lo a gostar também. Imagino às vezes ele gostando de música eletrônica (nada contra, mas não é nossa praia), e achando esse tal de Chico Buarque um ultrapassado. Claro que, se depender de nós, ele vai adorar ir ao Choro na Feira, às rodas no Bip, na Portela, na Folha Seca, ao Bandão da Escola Portátil, aos blocos de carnaval com marchinhas e frevos…

No domingo passado, fomos ao Teatro Municipal ouvir, pela primeira vez ao vivo, aquele que também foi a trilha sonora de muitos de nossos encontros: João Gilberto. A noite é o momento em que nosso filho mais gosta de dar as caras. É chute daqui, mexe-mexe dali. Mas, talvez já conectado com os sentimentos dos pais, ele se comportou como a platéia apaixonada do mestre do samba e da bossa nova: ficou quietinho o tempo inteiro. Acho que gostou. Foi uma boa estréia!

P.S.: O texto acima foi publicado hoje em http://oglobo.globo.com/blogs/mae/

3 comments 27 - Agosto - 2008

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