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Beleza pura

Gustavo Monteiro

Bebeu 3 vodcas e deitou a cabeça no balcão, zonza. Os cabelos louros e melados de suor, sob a fumaça de cigarro que cobria a boate, misturavam-se ao resto de água que os copos largavam no bar. Ainda em dúvida se conseguiria manter-se de pé, optou por não pensar: levantou-se, cambaleante, em direção ao banheiro, machucando os cantos das mesas com os quadris angulosos de 58 centímetros. Alta. Maquiagem escorrendo dos olhos esverdeados com as gotas salgadas até o meio do rosto, já borrado com parte do batom cor de carne que se desprendera. Banheiro errado. Merda. Apoiou-se na parede, difusa sob a luz alaranjada do corredor, até se deparar com o espelho do banheiro certo. Tirou o pouco de pó que ainda tinha de dentro do bolso do jeans número 34, fez força para manter a pouca lucidez que lhe restava, dura para não cair. Cheirou tudo numa carreira só, nariz ardendo gostoso. Os saltos insistiam em não permanecer na vertical. Porra, cadê o Júlio? Foda-se. Olhou os rostos sem forma que passavam pela sua frente, ignorantes do seu estado quase letal. Trincou. A cocaína deu a força de que precisava para escapar dali. Júlio, me tira daqui, porra. Táxi, avenidas, frio, neblina, esquinas, putas, postes, cachorros, escuro escuro escuro. Acordou às 7h, depois de quatro horas de sono e nenhum segundo de sonho. Dirigiu-se para a cozinha, tomou um copo de água gelada e comeu o resto de gelatina diet sabor cereja. Precisava estar magra, tamanho 34. Tomou um banho frio, passou corretivo base pó compacto lápis de olho sombra esfumaçada blush batom clarinho. Secou os cabelos e se penteou longamente. E saiu de casa, apressada, para a sessão de fotos de um editorial de moda da marca de jeans que ela usara na noite anterior.

Add comment 10 - Novembro - 2009

Lei antifumo: no Rio pega?

Gustavo Monteiro

A exemplo de São Paulo, a Assembleia Legislativa do Rio aprovou nesta terça, com 49 votos, o projeto de Lei nº 2.325/09, que proíbe fumo em locais públicos total ou parcialmente fechados em todo o Estado. O texto restringe o consumo de cigarros, cigarrilhas, charutos ou qualquer outro produto fumígeno, derivado ou não do tabaco, aos espaços ao ar livre, residências e locais de culto religioso onde o uso da fumaça faça parte do ritual. O texto, que já recebeu pareceres favoráveis em todas as comissões, está na ordem do dia desta quarta-feira e ainda poderá sofrer alterações por algumas das 28 emendas que recebeu em votação anterior.

Nas tabacarias está liberado o consumo, desde que esse tipo de estabelecimento comprove a sua condição – o negócio deve ter mais de 50% de sua receita advinda da venda desses produtos.

Outra medida proposta pelo Poder Executivo é a penalização dos proprietários ou responsáveis pelos estabelecimentos que infringirem a lei. As multas vão variar de R$ 3 mil a R$ 30 mil.

Caso seja aprovada, ao entrar em vigor a lei tornará proibido o fumo também em ambientes de trabalho, de estudo, de cultura, de culto religioso, de lazer, de esporte ou de entretenimento, áreas comuns de condomínios, casas de espetáculos, teatros, cinemas, bares, lanchonetes, boates, restaurantes, praças de alimentação, hotéis, pousadas, centros comerciais, bancos e similares, supermercados, açougues, padarias, farmácias, drogarias, repartições públicas, instituições de saúde, escolas, museus, bibliotecas, espaços de exposições, veículos públicos ou privados de transporte coletivo, viaturas oficiais de qualquer espécie e táxis.

7 comments 12 - Agosto - 2009

O fim das sacolas plásticas

Gustavo Monteiro

O Caroço está atento ao trabalho do Legislativo, acompanhando as leis municipais e estaduais de perto. Já fizemos aqui algumas brincadeiras com leis inúteis, mas é preciso louvar as boas. A de nº 5.502, de 15 de julho de 2009, publicada ontem no DO do Estado, é uma delas.

De autoria do Poder Executivo (da época em que Minc era o secretário do Meio Ambiente), ela determina que os estabelecimentos comerciais do Estado do Rio terão que substituir e recolher as sacolas plásticas oferecidas aos clientes, colocando-as à disposição da reciclagem. As bolsas entregues ao público deverão ser feitas de material resistente ao uso continuado.

Fora a preocupação ecológica, há um outro ponto interessante: transcorrido o prazo previsto, os estabelecimentos que não tiverem se adaptado ficarão obrigados a “comprar” sacolas dos clientes – independente do estado de conservação e origem dessas –, através de permutas (lojas com mais de 200 metros quadrados) de um quilo de arroz ou feijão a cada 50 sacolas ou sacos plásticos entregues ou dando desconto de no mínimo R$ 0,03 a cada cinco itens comprados (para o cliente que não usar saco ou sacola plástica).

Os estabelecimentos que não comercializam feijão ou arroz poderão efetuar a permuta com 1kg de outro produto que componha a cesta básica. As empresas terão que comprovar a destinação ecologicamente correta para os produtos recolhidos.

As microempresas terão o prazo de três anos – a contar da entrada em vigor da lei – para a substituição das sacolas plásticas pela versão mais durável (as famosas ecobags). Para as de pequeno porte, o prazo é de dois anos. As demais terão menos tempo: apenas um ano. Os que deixarem de cumprir as obrigações serão multados em valores que variam de 100 a 10.000 UFIRs-RJ.

Além dessas obrigações, as lojas precisarão afixar placas informativas junto aos locais de embalagens de produtos e caixas registradoras, na prazo de um ano após a entrada em vigor da lei, com dimensões de 40cm x 40cm, e o seguintes dizeres: “Sacolas plásticas convencionais dispostas inadequadamente no meio ambiente levam mais de 100 anos para se decompor. Colaborem, descartando-as, sempre que necessário, em locais apropriados à coleta seletiva. Traga de casa a sua própria sacola ou use sacolas reutilizáveis.

O objetivo é acabar com o uso de produtos elaborados a partir de resina sintética oriunda do petróleo, como é o caso, por exemplo, do polietileno de baixa densidade (PEBD), utilizado na fabricação das sacolas plásticas, que, além de não serem biodegradáveis, obstruem a passagem da água, acumulando detritos e impedindo a decomposição de outros materiais.

6 comments 17 - Julho - 2009

Parada dura

Gustavo Monteiro

No último domingo, dia 14 de junho, uma bomba de fabricação caseira foi lançada em um bar no Largo do Arouche, após a Parada Gay de São Paulo, ferindo vários frequentadores.

N’O Globo do dia 15 tinha a seguinte declaração: “Não eram só gays que estavam no local. Todos trabalham, alguns têm filhos, são pais de família. Quem fez isso não pensou que eram seres humanos. Esta pessoa não pensou”.

O que me deixa um pouco assustado é que certos discursos, vindos dos próprios homossexuais, colaboram, mesmo que involuntariamente, para reforçar o preconceito. E a mídia, quando os veicula, dá uma forcinha para isso também.

Quer dizer que, se no local houvesse apenas gays, e não pais de família com crianças, não teria havido crime? E por acaso gays não podem ser pais de família? Família já deixou de ser, há muito tempo, o modelo clássico “pai-mãe-filhos”.

É o mesmo que um gay, ao sair do armário, dissesse para a sua mãe: “eu podia estar roubando, cheirando, matando, mas não: sou gay”. Inconscientemente acabamos reforçando o preconceito contra nós mesmos. Não é mole não…

2 comments 16 - Junho - 2009

O infarto da abelha

abelha_colorida

Gustavo Monteiro

Desde pequena me desviei da minha colônia, não queria saber desse lance de casta e muito menos de trabalhar horas a fio para alimentar uma rainha filha da puta e promíscua. Uma desorganização do caralho dentro daquela colmeia, falta de espaço, um calor fodido. Neguinho ralando pra encher o bolso do apicultor de dinheiro. Saí de casa ainda jovem, fugi numa madrugada coberta pelo silêncio enquanto meus 100 mil vizinhos dormiam. A primeira providência foi me livrar do ferrão, aquela porra era um peso inútil que eu não aguentava carregar. Voei até a cidade e descarreguei o veneno no braço de uma gorda que insistia em me perseguir com seu mata-mosquito elétrico. Porra, eu não era um mosquito!

Exausta e faminta, fui procurar o que comer. Margaridas, rosas, orquídeas… Flor é o cacete! Eu era alérgica a pólen e, além do mais, esse negócio de ficar sugando néctar de canudinho é coisa de fresco. Foi então que me senti atraída por um aroma inebriante de açúcar que emanava de um local – cujo nome eu só vim descobrir mais tarde: padaria – onde havia toda sorte de doces.

Comecei com bolo de fubá. Fui me envolvendo com formigas, vespas, moscas varejeiras, gente da pesada mesmo. Parti para os mais calóricos: pães com creme, goiabadas, sonhos, bombas, rosquinhas de chocolate, tortas de morango. Não demorei a cair de boca nos industrializados: biscoitos recheados, waffles, barrinhas de cereais. Me tornei uma abelha viciada, gorda, velha. Fui perdendo a força, as asas já não batiam como antes. Voava devagar, dolorida. E foi num sábado, nas primeiras horas após o nascer do sol, que eu morri: enfartei em cima de um donut coberto de açúcar colorido que acabara de sair do forno.

6 comments 5 - Junho - 2009

On sale

Gustavo Monteiro

Se depender da Prefeitura do Rio, acabou a farra dos estrangeirismos nas peças publicitárias espalhadas pela cidade. Foi publicada ontem, no Diário Oficial do Município, a Lei nº 5033, de autoria do vereador Roberto Monteiro, segundo à qual torna-se obrigatório “que as propagandas expostas em todo o território municipal, que tenham em seu conteúdo palavras em outros idiomas, possuam tradução”. A tradução, de acordo com a lei, deve ter a fonte no mesmo tamanho que as palavras estrangeiras. O descumprimento das normas poderá acarretar em multa de R$ 5 mil.

1 comment 21 - Maio - 2009

Pomada sem preconceito

Gustavo Monteiro

Ao assistir um intervalo comercial ontem à noite algo me chamou a atenção: a propaganda da pomada Nebacetim. Com o slogan “As famílias mudam. O jeito de cuidar não”, os publicitários mostraram várias versões contemporâneas de família, inclusive um casal de homens gays com um bebê. Muito legal a iniciativa, corajosa e tocante. Já está no Youtube, vale a pena conferir.

6 comments 6 - Maio - 2009

Atendimento para surdos

Gustavo Monteiro

Hoje, ao acessar a página do meu plano de saúde, me daparei com algo inusitado (pelo menos para mim): um número de “Central de Atendimento ao Surdo (CAS)”. Achei curioso, afinal, uma pessoa surda não poderia ouvir ninguém do outro lado da linha. Resolvi averiguar. Depois da discagem, você ouve pequenos apitos em intervalos curtos. “Será um infrassom?”, pensei, ignorantemente.

Não era. Descobri, segundo a atendente da central de atendimento para pessoas não-surdas, o seguinte: para usufrir do CAS os usuários precisam ter em casa um aparelhinho que permite o atendimento por meio de digitação. A empresa, por sua vez, também deve possuir tecnologia que permita o contato.

Funciona assim: o(a) cliente surdo(a), através de um TS (Telefone para Surdos) entra em contato com seu call center. O atendente do CAS recebe as mensagens no software de seu posto de atendimento e interage com ele. O contato é finalizado sem a necessidade de um ouvinte para auxiliar o(a) surdo(a).

Conforme Decreto 6.523/2008, que entrou em vigor em 1º de dezembro e anuncia as novas regras para atendimentos dos call centers no Brasil, no Capítulo II, Artigo 6º, o acesso das pessoas com deficiência auditiva ou de fala deverá ser garantido pelo SAC, em caráter preferencial.

2 comments 14 - Abril - 2009

Mc Donald

Gustavo Monteiro

julia-159
McDonald tá com nada
McDonald vai fechar
McDonald tá com nada
McDonald vai fechar
McDonald não tem pamonha
McDonald não tem curau
McDonald não tem cuzcuz
Credo em cruz
Credo em cruz
Credo em cruz
Credo em cruz

Seja bem natural
Desfrutar da poesia
Deleitar nossos valores
Nossa terra tem primores
Dia e noite, noite e dia

E tem tem tem
E se plantando tudo dá
McDonald indo embora
Leva junto a coca cola
E vivam as nossas cajuínas

Vivam as nossas cajuínas
Vivam as nossas cajuínas
Vivam as nossas cajuínas
Vivam as nossas cajuínas

Esse é o Mc Donalds segundo a maravilhosa Cia. Carroça de Mamulengos, que fará sua última apresentação hoje no Teatro Nelson Rodrigues (Caixa Cultural), às 16h. O espetáculo, que é uma grande brincadeira, reúne números de circo e muita música popular, protagonizados pela incrível família Gomide. Segundo eles mesmos se definem, “o grupo trabalha há mais de 30 anos pela preservação dos elementos que caracterizam as festas e folguedos brasileiros, apresentando espetáculos elaborados a partir de vivências profundas com mestres e brincantes tradicionais de diversas regiões do país”. Levem seus filhos. É emocionante.

Serviço
Histórias de Teatro e de Circo
Teatro Nelson Rodrigues – Av. Chile, 230 – Centro (Rio)
Última apresentação: 12/04
Horário: 16h
Ingresso: R$ 10
www.carrocademamulengos.com.br

4 comments 12 - Abril - 2009

Reticências

Gustavo Monteiro

Começou a escrever um texto sem sentido achando que seria o máximo publicá-lo, que as pessoas achariam o máximo e descolado e inteligente, algo assim inusitado, diferente do que a gente está acostumado a ver, algo que fosse inovador até nos meios eletrônicos, teria reconhecimento, elogios, recados de admiradores, começaria um movimento literário ou algo assim do tipo e teria seguidores ou apenas leitores entusiasmados mesmo, mas diminuiu o ritmo do texto ao imaginar que isso poderia ser uma grande besteira, que sua vida estava um tédio e por isso precisava fazer algo inovador, um texto sem pontuação e cheio de vírgulas, que não acabaria nunca, não teria fim até que alguém pusesse um ponto final, algo escrito por várias mãos, ininterruptamente, em vários locais do planeta, sim, seria um sonho, um texto coletivo e sem pontuação, onde cada um pudesse exprimir o que está sentindo, sem pensar em palavras de efeito, danem-se as palavras repetidas, dane-se a ortografia, o que valeria seria a vontade de se expressar, e assim os minutos foram passando e ele digitando sem parar, começou a perceber que era tudo uma grande besteira, uma bosta, de quem não tem nada mais nobre ou altruísta ou construtivo para fazer, e resolveu que era hora de começar a pensar em colocar o ponto final

3 comments 29 - Março - 2009

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