Posts TaggedAcontecimentos reais
Acontecimentos reais.5
Olívia Bandeira de Melo
Meus três homens chegaram ao mesmo tempo.
Para um, ofereci o suco mais doce. Para outro, um vinho encorpado e na temperatura certa. Pro terceiro, dei um café tão amargo que foi impossível engolir.
De modo que, ao fim daquela noite, eu havia dado o melhor de mim.
2 comments 20 - Fevereiro - 2009
Celebra o novo ano
Luciana Gondim
A cabeça pesa como se os neurônios guerrilhassem entre si. Israel invadiu Gaza. Amor, um café duplo e duas neosaldinas. Os ataques até agora já provocaram ao menos 320 mortes e deixaram 1.420 feridos. Sobreviveram ainda duas rabanadas, querida. Desligue a TV, por favor. Por que é que já não fazem rabanadas redondinhas? Agora são assim, cortadas de qualquer jeito, tortas, pendentes. O número de mortes nas estradas cariocas no Natal aumentou 200% em comparação com 2007. Ei, desliga a TV. A TV. Falta açúcar. As rabanadas não vêm mais molhadinhas. É essa merda de país de aproveitadores: economizam no asfalto da estrada e no açúcar da rabanada, e embolsam o lucro. Sociedade capitalista de merda. Desliga a TV. Esse país vai acabar, esse mundo vai acabar. Se idiotisse matasse, Israel já estaria extinta. Meu café, por favor. Duplo, sem açúcar. Quantas colheres de açúcar? Nenhuma, zero, nada. O telefone está tocando. Desliga a TV. Porra, não paguei a conta de telefone. Depois que privatizaram, o serviço ficou ainda pior e mais caro. Agora só dia 5. Merda começar o ano desse jeito: duro, pra variar. O telefone. Amor, Francisco nasceu! Nasceu! Posso desligar a TV?
1 comment 29 - Dezembro - 2008
Acontecimentos reais.4

Olívia Bandeira
Foto: Marcelo Valle
Da janela de sua casa, no centro da cidade, ela olhava o rio. A chuva caía fina e constante, desenhando no leito desassoreado e turvo os acontecimentos das próximas horas. Separou todos os sapatos da casa, os seus e aqueles que pertenceram aos que já não estavam mais ali, a não ser como retratos na parede. Colocou-os a salvo em cima do armário do quarto, protegidos das águas que em breve manchariam para sempre os colchões, os lençóis, as panelas, as cartas guardadas por décadas e os álbuns de família.
Para si, reservou o par de botas que usava nas ocasiões especiais e que estava guardado há mais de vinte anos. Separou também os panos e baldes com os quais lavaria, assim que as águas baixassem e antes que as lágrimas secassem, os pés de seus vizinhos. Aprendera que a melhor maneira de consolar os desabrigados depois das enchentes era lavando seus pés, como fizera sua mãe em históricas ocasiões, e distribuindo calçados.
A janela, não sabia por que, era um alívio, com o qual ela se protegia apesar das tragédias que via lá fora, enquanto sentia o cheio da água podre que invadia sua própria casa. Não ligava o rádio, que contaria os dramas pessoais e contabilizaria o número de mortos e desabrigados. Registrava todas as cenas com seus próprios olhos, projetados para além da janela.
Do outro lado da ponte nova, viu um homem com cerca de 35 anos, com um enorme sorriso nos lábios, carregando algum aparato tecnológico. Alguns pensariam que era o engenheiro da prefeitura, feliz ao constatar que a ponte sobreviveria à força das águas. Outros diriam que era um fotógrafo que acabara de fazer a imagem de capa do jornal da cidade, sem conseguir conter a satisfação ao imaginar os elogios que receberia: “Que imagem terrível!”.
Mas ela sabia que aquele homem que expressava uma felicidade incontrolável era dono de outra história. Policial rodoviário, já havia presenciado inúmeros acidentes e acompanhado o resgate de muitas vítimas de desabamento desde que a chuva começara, há cerca de uma semana. Naquele momento, no entanto, o sorriso era inevitável. Seu celular tocou e a enfermeira do hospital deu a notícia de que seu primerio filho havia nascido, era um menino, pesava quase três quilos e em breve estaria em casa.
1 comment 29 - Dezembro - 2008
Acontecimentos reais.3
Olívia Bandeira de Melo

Há muito tempo não contemplava uma folha em branco. Nem sequer reparara que ratos haviam roído os papéis para rascunho e as cadernetas coloridas guardadas na gaveta de cima da escrivaninha. Listas de compras, listas de tarefas e resumos de reuniões podiam ser feitos com facilidade nos novos e portáteis aparelhos eletrônicos.
Por coincidência, há muito tempo não abria a janela do quarto dos fundos, pela qual o vento indicava as estações do ano, o passar dos meses e os momentos certos para mudanças. Ela sabia que não havia ali qualquer misticismo, e com a ciência mostrava que o tipo de vento, a temperatura do ar e as cores refletidas no armário de madeira escura indicavam as boas – e necessárias – conjunturas para se manter, desviar ou inverter uma trajetória.
Naquele dia, por causa de uma cena que vira na rua – um velhinho voava lentamente, tomando sorvete e comemorando sua dentadura nova – resolveu abrir a janela dos fundos. Sentou-se na cadeira estrategicamente enraizada ao lado do armário de madeira escura, de frente pro mundo lá fora. Coluna ereta, as mãos espalmadas sobre as coxas. Fechou os olhos para sentir a brisa.
O vento depositou sobre suas mãos uma folha de papel em branco.
O susto a fez abrir os olhos com um tremer do corpo. Suas mãos sangravam e ela pode se lembrar da última vez em que abrira a gaveta de papéis para rascunho e caderninhos coloridos. A família de ratos brancos já estava lá, três gerações de roedores vivendo felizes e seguros de sua condição de ratos.
Ela pegou o papel trazido pelo vento (em cada canto do mundo há uma caneta) e começou a escrever:
Há muito tempo não contemplava uma folha em branco.
Então, picou a folha branca em mil pedacinhos vermelhos, jogou os confetes pelo parapeito, fechou a janela e lavou as mãos.
1 comment 10 - Dezembro - 2008
Acontecimentos reais.2
Olívia Bandeira de Melo

Foto: Keryllyn de Souza
4 comments 6 - Junho - 2008
Acontecimentos reais.1
Olívia Bandeira de Melo
10 comments 18 - Abril - 2008