Posts Taggedcrônica
Reticências
Gustavo Monteiro
Começou a escrever um texto sem sentido achando que seria o máximo publicá-lo, que as pessoas achariam o máximo e descolado e inteligente, algo assim inusitado, diferente do que a gente está acostumado a ver, algo que fosse inovador até nos meios eletrônicos, teria reconhecimento, elogios, recados de admiradores, começaria um movimento literário ou algo assim do tipo e teria seguidores ou apenas leitores entusiasmados mesmo, mas diminuiu o ritmo do texto ao imaginar que isso poderia ser uma grande besteira, que sua vida estava um tédio e por isso precisava fazer algo inovador, um texto sem pontuação e cheio de vírgulas, que não acabaria nunca, não teria fim até que alguém pusesse um ponto final, algo escrito por várias mãos, ininterruptamente, em vários locais do planeta, sim, seria um sonho, um texto coletivo e sem pontuação, onde cada um pudesse exprimir o que está sentindo, sem pensar em palavras de efeito, danem-se as palavras repetidas, dane-se a ortografia, o que valeria seria a vontade de se expressar, e assim os minutos foram passando e ele digitando sem parar, começou a perceber que era tudo uma grande besteira, uma bosta, de quem não tem nada mais nobre ou altruísta ou construtivo para fazer, e resolveu que era hora de começar a pensar em colocar o ponto final
3 comments 29 - Março - 2009
Alamedas
Leo Cosendey
Uma vez por ano, sempre naquele dia, ela vinha visitá-lo. Fazia tempo que não estavam mais juntos, mas ambos sentiam dever tanto um ao outro que era necessário, nem que fosse por um dia apenas, que se reencontrassem.
Sentado, sem se importar com os outros passantes, ele a esperava chegar. Viu quando ela apareceu ao longe, vindo devagar pelas alamedas cobertas de folhas secas, trazendo flores nas mãos. Ela gostava de manter aquela formalidade, o que fazia com que ele se sentisse tanto lisonjeado quanto incomodado; jamais se lembrava de dar alguma coisa a ela.
Sorriu quando percebeu que ela continuava linda, tanto quanto na época em que se apaixonaram, mais de vinte anos antes. Ela também sorriu ao vê-lo, iluminando seu rosto antes tenso — parecia não ter se acostumado a encontrar-se com ele depois de terminado o casamento. Podia sentir o incômodo que a tomava.
Afinal, encontraram-se. Ela lhe entregou as flores e o encarou por um longo tempo. Sabiam que não havia nada a ser dito. Ela havia casado novamente, tido outra filha e arranjado um emprego melhor. Já ele permanecia na mesma situação desde a separação, tantos anos antes, mas nenhum dos dois se importava com isso. Reviam-se, e isso bastava.
Ele percebeu os olhos dela ficarem úmidos e sabia que ela pensava “e se ainda estivéssemos juntos?” Lamentava. Estava tudo acabado, não havia jeito — quantos mais anos separados seriam necessários para que ela se convencesse? Ele não conseguia entender a razão de tal apego ao passado, de pensar em como seria se tivesse sido, de entristecer-se sem motivo desejando o impossível.
Uma lufada de vento fez com que ela se lembrasse de que devia ir. Fitou-o uma última vez, enxugando os olhos com as costas das mãos, sorriu incerta e se despediu com uma tristeza resignada na voz. Ele, por sua vez, não se mexeu; apenas acompanhava-a com os olhos, vendo-a se afastar com seus passos elegantes sobre as folhas secas caídas nas estreitas alamedas. Ela voltaria, ele sabia. Estaria lá novamente no ano seguinte, no mesmo dia de Finados, trazendo-lhe suas flores. E ambos, mais uma vez, lembrariam do tempo em que haviam estado juntos — como se, por um só momento, pudessem esquecê-lo.
6 comments 6 - Outubro - 2008
