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Pra não deixar esquecer…
Marcelo Valle
No dia 17 de Abril de 1996 cerca de 1500 trabalhadores rurais sem terra ocuparam a rodovia PA-150, próximo ao vilarejo de Eldorado dos Carajás no Pará. A ocupação era um protesto contra a demora do governo federal no processo de assentamento das famílias na Fazenda Macaxeira. Nesse mesmo dia, por volta das 15h30 um grupo de 96 policias liderados pelo major Oliveira posicionou-se em um dos lados da estrada, uma hora depois, chegou mais um grupo de 85 homens, liderados pelo coronel Pantoja, posicionando-se do outro lado da estrada, encurralando os manifestantes. Passado algum tempo começa um tiroteio onde morreram “oficialmente” 19 trabalhadores.
“O massacre, segundo várias testemunhas, começou com a execução do deficiente mental José Amâncio Rodrigues dos Santos, o primeiro sem terra a tombar. Amâncio era surdo e mudo, ao ver a formação do coronel Pantoja à sua frente – e por ser incapaz de ouvir os tiros que os militares já disparavam para o alto – investiu contra alguns policiais e foi derrubado a golpes de cassetetes e coronhadas. Caído, recebeu três tiros. O laudo necróspsico de Amâncio, realizado pelo Instituto Médico Legal Renato Chaves, de Marabá, revela três cortes de aproximadamente 8 centímetros cada um na cabeça, resultantes dos golpes que recebeu, e um projétil alojado no cérebro, causa da morte. Ao ver o companheiro morto pela tropa do coronel Pantoja, os sem terra avançam sobre os militares com paus e pedras. Alguns policiais são atingidos e recua uma dezena de metros, para logo avançarem novamente, dessa vez disparando rajadas de metralhadora.
Do outro extremo da pista, ao comando do major Oliveira, os policiais disparam à vontade. Em pânico, encurralados, os sem terra correm para os lados, procurando se refugiar às margens da rodovia”
O trecho acima foi retirado da Revista “Caros Amigos, Especial Número 5″ , lançada em novembro de 1999. O texto que segue abaixo foi retirado do “Caroço”, uma velha publicação produzida por alunos de jornalismo da UFF no final dos anos 90:
Uma estrada estreita de chão batido, antes margeada pelo imenso canavial, agora corta o acampamento Oziel Alves, em que hoje vivem cerca de 240 famílias do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, MST. Por essa estrada circulam crianças que brincam de pião , bolinha de gude e bambolê; circulam trabalhadores da terra, homens e mulheres; circulam velhos que ainda buscam seu pedaço de chão. Quem passa por ali avista ao longe as três chaminés da falida Usina Cambaíba, um complexo de sete fazendas, todas voltadas exclusivamente para plantio de cana de açúcar. A monocultura que se estendia por uma área total de 3500 hectares começa a ceder espaço aos pequenos roçados de caráter provisório onde se plantam milho, feijão, abóbora, mandioca, quiabo, tomate, beringela, alface, cenoura, couve, repolho, beterraba, e belos girassóis.
A maioria das barracas se concentra na Fazenda Nossa Senhora das Dores as margens da rodovia…
2 comments 17 - Abril - 2009
É para sua proteção
Fernando Miragaya
Eldorado dos Carajás teve o mesmo triste fim que milhares de crimes que assolam diariamente esse país sob diversas formas. E o mesmo desenrolar. Uma polícia despreparada atirou à queima roupa contra Sem Terras no Sul do Pará, que os atacavam com facões e foices. Saldo: 19 mortes, sendo 10 com requintes de execução – segundo o laudo da época – e até hoje nenhum condenado. Nesses 13 anos, as autoridades continuam atirando à queima roupa no cidadão. Seja através da polícia que entra metralhando uma favela, seja através de uma política agrária inerte, seja através de um programa habitacional pífio, seja através de vigilantes dando açoitadas com apitos em trabalhadores esmagados em um trem.
Há pouco tempo, correu um e-mail em power point com um filho questionando o pai sobre uma manifestação do MST. Além de só faltar uma suástica no fim da apresentação do arquivo, o e-mail evidencia como parte da sociedade brasileira é preconceituosa, mesquinha e egocêntrica. Preocupa-se com o rádio do carro que lhe foi roubado e afirma que o governo cede rádios, comida e outros favores para uma turma que mora em barracas e não teve a metade das oportunidades que seus filhos tiveram devido às desigualdades milenares de nossa sociedade. Ao mesmo tempo, trata movimentos sociais sob os estereótipos de baderna e vandalismo, estigma propagandeado de forma eficaz pela turma de generais aventureiros que dominou esse país por mais de duas décadas.
É esse tipo de postura que aplaude o Capitão Nascimento, a política de enfrentamento do Beltrame e o genocídio em Eldorado dos Carajás. É esse tipo de postura que expande o Appertheid social do país. Um abismo que dificilmente vai trazer a paz sonhada pelos seus medíocres espectadores.
4 comments 17 - Abril - 2009
CIRCO PALOMA 1: ALAKAZAN!
Marcelo Valle
Dizem que a magia do circo morreu. É mentira. Quem morreu foi o mágico, atropelado por um jegue que fugia do dono, que queria trocá-lo por uma moto velha. Jegue odeia moto! O mágico também fugia. Corria feito louco sem conseguir “desaparecer”, atrás dele , três jagunços mandando bala. Quem desaparecera foi o dinheiro dos jagunços, o mágico era bom. O dinheiro apareceu no dia seguinte na mão das putas. Depois de morto, um anão deu a idéia de embalsamá-lo, mas ninguém sabia fazer isso. Resolveram salgá-lo e deixá-lo ao calor do sertão, feito carne de sol. Foi defumado , enrolado em uns trapos velhos e exibido como uma legítima múmia do “Vale dos Reis”. Os mesmos jagunços pagaram pra ver a nova atração do circo Paloma. Alakazan era o nome do Jegue, o mágico era Juvenal.
O Jegue seguiu seu caminho, foi parar em Alagoas. Arrumou dono novo e uma namorada. Apaixonou-se por uma moto. Parece mágica! O trabalho dele era puxar carroça com galões de água para abastecer um assentamento do MST. No assentamento viviam 23 famílias, entre elas, a de João Magro, vaqueiro velho e aboiador. Numa estrada de pó João conduz uma junta de bois, arrastando lembranças e palavras :
_ A alegria do carreiro é ouvir o carro cantar…
Foto:Marcelo Valle

Circo Paloma
5 comments 23 - Março - 2009
