Ó paí, ó (a série)

9 - novembro - 2008 at 19:02 9 comentários

Lucas Bandeira

Na faculdade, um professor – que indicou à turma pela primeira vez a leitura de Mitologias, do Barthes – disse que era o humor que salvava Chaplin de ser apenas mito (quem fez faculdade de jornalismo lembra que “mito”, para os estruturalistas, grossíssimo modo, significava estereótipo). Acho que é uma visão equivocada: o que faz de Chaplin um autor ímpar e complexo é como seu humor é capaz de combinar tantos elementos clássicos e estereotipados para criar uma obra nova, repleta de detalhes, de ironias, de jogos. Ou seja, usar os estereótipos se torna uma maneira de lutar contra os estereótipos, e não que Chaplin é bom apesar dos estereótipos.

Falo nisso porque foi a primeira coisa que lembrei quando comecei a assistir ao episódio desta sexta de Ó pai, ó, na Globo. (Já adianto que não assisti ao filme, mas pretendo me redimir logo.) O filme, dirigido por Monique Goldenberg, baseado em uma peça de Márcio Meirelles, conta a vida em um cortiço em Salvador e tem no elenco, além do Bando de Teatro Olodum, Lázaro Ramos, Stênio Garcia (que também estão na série de TV) e Wagner Moura.

Na série, estão todos ótimos. Valeria a pena escrever apenas sobre os novatos, todos bons atores, para ver se a Globo desiste de tantos modelos que se acham atores/atrizes e outros canastrões consagrados. Assim como valeria a pena escrever sobre a produção musical, muito superior a quase todos os musicais ou quase musicais que o audiovisual brasileiro produz (vide, por exemplo, as cenas com música de Onde andará Dulce Veiga?). Mas para mim a grande qualidade do programa é como ele trata com humor de todos os estereótipos que encontra pelo caminho.

Jogar, ironizar clichês – é o que faz a série. Na primeira cena, um casal – a mulher grávida – discute o relacionamento em termos bastante sexuais e, nas frestas entre as tábuas das paredes, os vizinhos observam, opinam. O exagero da “situação social” dessa cena está aí para fazer rir mesmo, mas também mostra como aquela situação dramática é construída mesmo, e não um retrato objetivo da realidade. Mostra como é incrível que alguém realmente acredite que uma “pobreza feliz” como aquela que vemos na telinha pode ser real. Claro que não, aquilo tudo é ficcional.
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Em outra cena, o personagem de Matheus Nachtergaele arruma um cliente para o protagonista (Roque, interpretado por Lázaro Ramos). Roque tenta se prostituir para ganhar 300 reais por dia e ter dinheiro para pagar uma prostituta por quem se apaixonou, que cobra 300 reais por dia e… é cafetinada pelo personagem de Nachtergaele… Quando entra no hotel, procurando uma mulher, o personagem de Lázaro Ramos se depara com um homem olhando para ele: “Roque?” O michê iniciante sai correndo e discute com o cafetão, que replica: “Que preconceito! Cara, você não é baiano?”

O roteiro nos faz cair na balela do baianismo – alegre, sensual, musical, pobre – para logo depois puxar nosso tapete: viu como a gente (diz a equipe) sabe que você estava caindo direitinho no mundo ficcional, no baiano de mentira.

Você já deve ter notado que essa estrutura que mistura humor, sensualidade, clichês e um universo quase mítico tem parentesco muito próximo com outro baiano. Jorge Amado era adorado e odiado justamente por essas características: fazer literatura para divertir e também para pensar, num universo narrativo em que é difícil identificar até que ponto vai a mitificação da Bahia e até que ponto ele ironiza esses próprios mitos. “O baiano já nasce artista”, diz o lugar-comum, mas, quando comparamos a série com a obra do escritor brasileiro do século XX mais conhecido em todo o mundo, parece que se trata de uma verdade: o artista baiano sabe muito bem que não existe originalidade, que a arte nunca vai chegar à verdade, e por isso mesmo está aqui para confundir, confundir com alegria e beleza.

Escrevo isso tudo após ver apenas um episódio, de meia hora, por aí, o segundo da série. Pode ser que me engane. Mas garanto que foi a única atração inteligente a que assisti – excetuando-se, claro, filmes brasileiros e alguns programas da TV BRASIL – na TV aberta nos últimos meses.

Atualização: Comentaram comigo que eu estaria certo no que escrevi acima, mas que o roteiro compromete o episódio. Sim, as situações são também óbvias, estereotipadas: era óbvio que Roque se apaixonaria pela prostituta e que haveria reciprocidade. Sim, é pastelão a situação do marido malandro que sai correndo de hospital em hospital em busca da mulher que está para parir. Essas tramas também são clichês que a estrutura desfaz, em alguns momentos com maior ou menos eficiência. Uma mostra de como é possível utilizar a tevê para brincar com clichês das telenovelas.

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And I feel fine… Ouvido por aí, em época de campanha (repostagem)

9 Comentários Add your own

  • 1. Percival  |  10 - novembro - 2008 às 11:52

    O único Bart que me remete a humor é Bartolomeu Simpson, conhecido filho de Homer Simpson.
    O resto é tudo falcatrua.

    Não li e não gostei.

  • 2. Lucas Bandeira  |  10 - novembro - 2008 às 12:44

    Como?

  • 3. Deia Vazquez  |  10 - novembro - 2008 às 22:57

    Bart/Barthes. Sacou, Lucas? Foi uma piada, um “trocadalho”. hehehe
    Eu tambem curto mais o Bart.
    Lucas, fui procurar o episodio no youtube e me deparei com o Lazaro Ramos cantando com o elenco no Faustao. Desisti de ver mais.
    Conta pra gente do proximo episodio!

  • 4. Lucas Bandeira  |  11 - novembro - 2008 às 8:41

    É uma questão de “coito interrompido”. Você vê um comentário, aperta o link para ler, com avidez, esperando que neste estranho mundo de seres solitários seja possível um diálogo, pelo menos um, e com o que se depara? Com um “trocadilho”. E dos mais sem graça. E como foi de estupefação.

  • 5. Lucas Bandeira  |  11 - novembro - 2008 às 8:42

    *Esse como foi de estupefação, não de incompreensão.

  • 6. l.c grazinoli  |  11 - novembro - 2008 às 13:09

    Fica chateado nao, os simpsons estao no ar faz mais de 19 anos e a série ai é novinha.

    E convenhamos , sou muito mais o Bart Simpson que o Lázaro Ramos.

    E entre Barthes e Bart simpson , eu fico com o grande goleiro da seleçao francesa de 1998 : BARTHEZ, o careca.

    l.c, o solitário que tem a ele mesmo pra se divertir.

  • 7. Lucas Bandeira  |  11 - novembro - 2008 às 14:07

    l.c., você é que é feliz. tendo a si mesmo para se divertir, não há coito interrompido…

  • 8. l.c grazinoli  |  11 - novembro - 2008 às 15:11

    O legal de ser solitário e ter a mim mesmo é que dobra as minha possibilidade de ser feliz.

    E pra quem nao tem nada metade é dobro.

  • 9. Olívia Bandeira de Melo  |  14 - novembro - 2008 às 15:00

    Ainda não vi nenhum episódio, mas o texto me deixou curiosa. Acho importantíssimo discutirmos a qualidade dos programas da TV aberta, assim como a terrível afirmação, utilizada por muitas emissoras de TV, inclusive pela Rede Globo, de que colocam no ar o que o público gosta. Naturalizam uma idéia que não tem o menor fundamento, uma vez que as opções do público são limitadíssimas. O sucesso de alguns programas de qualidade feitos pelas próprias emissoras já desmente essa afirmação.

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