Nota triste

19 - novembro - 2008 at 20:01 3 comentários

Cláudia Lamego

Há cerca de dois meses, uma notícia agitou o mundo das grávidas: uma moça rica e bonita, de pouco mais de 30 anos, tinha morrido no pós-parto, numa das clínicas mais prestigiadas da cidade. Naquela semana, o obituário do jornal em que trabalho deu uma página inteira de anúncios fúnebres para a missa de sétimo dia da moça. Aquela morte chamou a atenção de todos, e a notícia não tardou a sair no jornal, com o advogado contratado pela família dizendo que processaria o médico e a tal clínica. Foram dias e dias em que as gestantes não falavam de outra coisa. Os obstetras passaram dias tentando tranqüilizar aquelas que ligaram, num misto de medo e curiosidade, querendo saber o que tinha acontecido e quais os riscos que todas correriam dali para a frente. 
 
O susto foi maior porque grávida carente de recursos e cidadania morrer em hospital público, sem atendimento, no Brasil, não seria surpreendente, embora triste. Mas moça com recursos, com um bom médico e direito a atendimento num dos melhores hospitais da cidade é que parecia nota de um enredo inacreditável. Mas, uma hora o assunto deixou de ser notícia. Menos para mim. Eu passo quase sempre em frente ao restaurante que era da família da moça, que, saiu no jornal ontem, foi vendido. De vez em quando pensava na recém-nascida que ficou, e no seu irmão mais velho, de um casamento anterior da moça. Os dois órfãos. Que tragédia para a família.
 
Mas, eis que recebo a Revista Piauí, com um certo atraso, e leio, estarrecida, que a tragédia que perpassa a vida desta família é ainda maior. No número que está nas bancas e pode ser acessado pela internet, a jornalista Dorrit Harazim conta a história do pai americano do primeiro filho da moça. É um rapaz simples, de classe média, que trabalha para pagar a hipoteca de sua casa e que viveu uma história de amor na Itália, quando era modelo e a moça, estudante de moda. Eles se apaixonaram, foram viver nos Estados Unidos e tiveram um filho. Depois de anos de relacionamento, a moça resolve passar férias no Brasil com o filho (o que era comum na história do casal). Os pais dela, que tinham casa no mesmo bairro americano, viajam junto. Do país de origem, a moça liga e termina o relacionamento, ameaçando o pai de nunca mais deixá-lo ver o filho, caso ele insistisse em processá-la por “seqüestro” da criança. Isso tudo na versão do pai americano, ouvido pela revista.
 
Segundo a reportagem, a moça então se casa com um advogado carioca, desses que carregam o prestígio profissional da família no sobrenome, e começa a briga judicial pela guarda do menino americano. Desde 2004, o pai não consegue ver o filho. É uma intrincada rede em que mistura-se poder, sobrenomes, processos intermináveis e uma dose de angústia que só um pai ou uma mãe (ou futura, como eu) pode entender. O pai americano esteve no Brasil várias vezes, mas sempre voltava para os Estados Unidos sem o encontro. A família do padrasto, que, pasmem, conseguiu a guarda do garoto na Justiça, impede a imprensa de noticiar a história, alegando segredo de Justiça no processo. Nem a família do padrastro nem a da moça, que morreu, falam com a imprensa.

A avó das crianças disse ter vendido o famoso e bem-sucedido restaurante para cuidar dos netos. A vida continua no Rio, enquanto um pai sofre, em algum ponto dos Estados Unidos, de saudade do seu filho. Coisa de apertar o coração.
 
P.S.: Quem quiser ler a matéria, segue o link. A Piauí resolveu publicar, mesmo com uma possível ameaça de processo que poderá sofrer, dadas as ações contra outros órgãos de imprensa que noticiaram o fato, como a Folha de São Paulo e o Correio Braziliense.

P.S.II: A história faz lembrar a de um conhecido nosso, que resolveu criar o blog A vida do meu filho para dividir a sua saudade e dor.

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Pra viajar na história Cinema nacional e a síndrome da primeira semana

3 Comentários Add your own

  • 1. Deia Vazquez  |  20 - novembro - 2008 às 9:09

    Esses casos sao tao complexos, ne?
    Sem saber a versao do padrasto e da familia dele – e principalmente da crianca – fica muito dificil opinar. Sera que a mae afastou a crianca do pai inicialmente por algum motivo que ele nao contou na entrevista? E pensando pelo lado das duas criancas que ficaram sem a mae, sera que eh justo que vivam em paises diferentes?

  • 2. Cláudia Lamego  |  20 - novembro - 2008 às 11:40

    Déia, o caso é uma tragédia, independente da versão que se ouça.
    Infelizmente, fazemos escolhas na vida e temos que arcar com elas. No caso de ter um filho, é preciso saber que o pai e a mãe, mesmo se se separarem, ficarão unidos para sempre em nome dessa terceira pessoa.

  • 3. Olívia Bandeira de Melo  |  20 - novembro - 2008 às 13:03

    Muito complicado opinar sobre esse assunto, mas o caso em si é menos importante do que os vários assuntos que suscita. Há casos de brasileiros que tentam voltar dos EUA com seus filhos e não conseguem porque os pais estadunidenses ameaçam com acusação de seqüestro, entre outras coisas. Aliás, é uma boa pauta.

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