Cinema nacional e a síndrome da primeira semana

20 - novembro - 2008 at 17:45 4 comentários

Monique Cardoso

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Em julho ganhou notoriedade em jornais do país inteiro o apelo público que o cineasta Murilo Salles fez, pedindo as pessoas que assistissem ao seu último filme, Nome próprio.  Era um filme feito com pouca grana, com Leandra Leal no elenco e história inspirada num romance de Clara Averbuck. Na semana seguinte, Breno Silveira, que lançava Era uma vez, que custou 10 milhões de reais, também fez o mesmo apelo.

No cinema é assim: se o filme não vai bem na primeira semana, sai de cartaz. Não há segunda chance. Ele perde o espaço nas salas e as distribuidoras colocam logo outro no lugar.

É por isso que se formam mil filas na rede Estação, por exemplo. As pessoas sabem que, um filme que não é de massa, que não tem propaganda na televisão, ou que não tem diretor famoso, mesmo sendo um bom filme, pode não ter a chance de ser visto por mais de quatro dias. Por isso, se você quer ver um filme, e ele não for um blockbuster, melhor ir na estréia. Mesmo que ele não saia de cartaz, terá o número de salas e horários diminuído se não for bem como as distribuidoras esperam.

Recentemente, Bezerra de menezes, um filme sobre o médico espírita, passou pelo processo inverso. Caiu no gosto do povo, e os produtores viram o número de salas aumentar a cada semana. Foi o boca-a-boca e a certeza de que aquele poderia ser um filme popular que levou o público ao cinema. Não foi ator da Globo, nem propaganda na TV.

Nesta sexta-feira, 21/11, estréia Vingança, do gaúcho Paulo Pons. Acho que ele devia ter feito uma campanha como a de Murilo Salles ou a de Breno Silveira. O filme foi feito para o público. A novidade que traz é não explorar pobreza, violência, sensualidade. É um filme comum. Um suspense.  Exibido em Gramado, no Festival do Rio, na Mostra de São Paulo e no FIC Brasília, o longa tem qualidades e defeitos. Muitos filmes têm. Não vou por minha opinião pessoal sobre ele, não é o caso.

É um tanto cruel que a morte de um filme seja decretada, assim. Vingança custou 120 mil reais, um milagre de quem acha que pode se fazer cinema nesse país. Custou dinheiro público. O filme de Murilo Salles e de Breno Silveira também, integral ou parcialmente, uma parte grande ou pequena. As pessoas têm o direito de ver. É uma pena que tenham de correr para isso, e é o que eu espero, para este e para todos os filmes que sofrem da mesma angústia, que elas realmente corram.  É preciso dizer, porém, que o diretor de  A mulher de meu melhor amigo, Claudio Torres, não deve sofrer o mesmo que Paulo Pons nesta noite de quinta-feira. A estréia deste filme, da Conspiração com suporte da Globo, também será amanhã, sexta-feira.

Não importa qual filme é melhor. Ou pior. O que importa é que um tem chances infinitamente maiores pelo fato de ter dinheiro para a propaganda. Muita propaganda. Claudio Torres, assim como Paulo Pons, não é famoso para o grande público. Ele até é filho da Fernanda Montenegro, mas e daí, pouca gente associa os dois. Torres tem uma carreira mais longa que a de Pons, iniciante. E daí? ninguém sabe disso. Não que seu trabalho seja irrelevante. Não é isso. É que as pessoas não sabem mesmo. Mesmo as que vão ao cinema com alguma regularidade. O fato é: a vantagem de Torres sobre Pons é o aparato de marketing e o dinheiro para divulgar seu filme.

Não é algo desanimador saber que o que determina a carreira de um filme é o dinheiro da divulgação?

Link do Omelete, para ser neutra em relação a jornais, com boa matéria sobre Vingança: http://www.omelete.com.br/cine/100016559.aspx

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Nota triste Lan Houses no Central da Periferia

4 Comentários Add your own

  • 1. Gi Maia  |  20 - novembro - 2008 às 20:00

    Nique, sou muito otimista em relação à divulgação de guerrilha. O que o Murilo Salles fez qualquer outro diretor pode fazer. Aliás, o Gabeira mostrou e Rio de Janeiro viu que isso se aplica também para a política, né? Fantástico, não?

    E olha que essa lógica não é nova, está apenas aprimorada em tempos de internet. Nos anos 60, a convocação para assistir “Nome Próprio” seria um happening.

    Acharia mais dramático se as pessoas fossem ao cinema por causa da filiação do diretor.

  • 2. Cláudia Lamego  |  21 - novembro - 2008 às 9:58

    A divulgação de guerrilha adiantou alguma coisa, no caso do filme do Murilo Salles? Não me lembro.
    A situação é triste, sim, mas especialmente para filmes bons. Se o filme é ruim, não há divulgação que resista. O público não é bobo. Nem os exibidores de um grupo como o Estação, que mantém o filme em cartaz quando tem boa aceitação, mesmo sem marketing. Caso de “A culpa é de Fidel”, “Um lugar na platéia”, etc.
    E o novo do Walter Salles? Nem no cinema deles, no IMS, está mais. O que houve?

  • 3. Olívia Bandeira de Melo  |  21 - novembro - 2008 às 12:02

    Acho que o boca a boca e o marketing viral funcionam, assim como novas formas de comercialização de produtos culturais. No caso do cinema, achei super interessante o Moviemobz (site indicado por Pepê a Andrea, inclusive). As pessoas se cadastram no site (www.moviemobz.com), escolhem filmes e agendam um local, data e hora. Se outras pessoas entrarem no site e aderirem à sua mobilização, o filme é exibido. (Que tal agendarmos uma sessão?)

    Outra ótima forma é a pirataria. Caiu na graça do camelô, antes da estréia, é sucesso absoluto.

    Beijos!

  • 4. digestora  |  21 - novembro - 2008 às 15:34

    O LC me falou do Moviemobz há um tempo, um amigo dele participa da comunidade e é fã da iniciativa. Fiquei com muita vontade de experimentar também.

    Clau, fui assistir “Nome próprio” no final de semana da estréia e a fila no Arteplex estava quilométrica.

    No mais, acho que não dá pra ficar dando murro em ponta de faca e choramingar a falta de lugar ao sol no esquemão. Hoje, mais do que nunca, dá pra cavar espaço e cativar público de formas alternativas. E formar público também – que essa é a parte mais delicada pra mim.

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