A Lapa e o caos

23 - dezembro - 2008 at 13:10 7 comentários

Gustavo Monteiro

Prestes a ser inaugurado, o Cores da Lapa, condomínio com 12 mil metros quadrados e 688 apartamentos, localizado na rua Riachuelo, nº 92, na Lapa, contribuirá para a valorização da região. O mercado imobiliário tem muito a ganhar, mas será que a infra-estrutura local será capaz de assegurar a tranqüilidade dos moradores e visitantes do bairro?

Certamente um empreendimento desse porte acarretará no surgimento de novas opções de lazer, compras e entretenimento. Mensalmente, por exemplo, abre as portas um novo bar ou restaurante nas ruas que circundam o condomínio. Assim a Lapa vai se consolidando como um bairro turístico. E vêm junto a poluição sonora, ocupação irregular de calçadas, sujeira, engarrafamentos, assaltos, proliferação descontrolada de ambulantes e mendigos entre outros problemas.

Ninguém duvida de que o progresso é inevitável. E que as cidades crescem. Mas é preciso planejamento. Para os moradores da região, pairam algumas questões no ar: o sistema viário comportará esse acréscimo repentino do número de veículos? A oferta de transporte público atenderá aos antigos e novos moradores? O comércio conseguirá suprir as necessidades de todos os habitantes? As filas dos supermercados ficarão ainda maiores?

O Armazém de Dados da Prefeitura do Rio revela que o Centro tem cerca de 40 mil moradores (dado de 2000). Com o Cores da Lapa, serão mais quase 3 mil circulando todos os dias. Centenas de veículos a mais. É como se houvesse um show musical diário no Circo Voador. E nos finais de semana, a coisa complica. Segundo o Tenente Coronel Antônio Henrique da Silva Oliveira, comandante do 13º Batalhão de Polícia Militar (Centro), a Lapa recebe 30 mil visitantes de sexta a domingo, ou seja, a número de pessoas quase dobra.

Apenas na avenida Mém de Sá, que corta toda a Lapa, passam diariamente 28 mil veículos. Nos dias mais movimentados os engarrafamentos são certos. Paralela a essa via, a rua Riachuelo, que vai no sentido Zona Sul, também é movimentada, especialmente pela manhã. Sua revitalização, que começou em 2004 e durou quase dois anos, teve, para alguns, um erro grave: as calçadas foram alargadas, passando a ter de 1,5m a 3m. Com a rua mais estreita, o trânsito piorou.

Os índices de criminalidade também desanimam. Conforme mostram os números da Secretaria de Estado de Segurança do Rio, de janeiro a setembro desse ano foram registrados 472 furtos de veículos, contra 301 no mesmo período do ano passado. Houve 3.589 roubos a transeuntes de janeiro a setembro de 2008 (ante 3.352 de 2007) e 1.093 lesões culposas de trânsito, mais que as 1.050 do ano anterior.

O Cores da Lapa, que está em fase final de acabamento, se encaixa no conceito de “condomínio-clube”, com diversas opções de lazer, entre elas churrasqueiras, espaço gourmet, lounge, atelier, pista de boliche, salão de jogos, pista de skate, cyber café, spa, quadra poliesportiva. Foram construídos seis blocos e há apartamentos de 1, 2 e 3 quartos. O valor da taxa condominial deverá custar entre R$ 300 e R$ 400.

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7 Comentários Add your own

  • 1. Luciana Gondim  |  23 - dezembro - 2008 às 16:42

    Gu, já estava com saudades dos seus textos jornalísticos, que têm esse incrível dom da leveza, apesar da dureza do tema. Eu mesma quis comprar um desses, mas as vendas duraram menos de uma semana – foi recorde nacional, se me lembro bem. Pena que o apelo marketeiro da “revitalização” de um bairro seja utilizado apenas como argumento para vender. Quem se importa com o caos urbano ou em como será a vida daqueles que assumiram 15 anos de financiamento para viver em um local sem infra-estrutura e sem segurança? Qual prefeito honrará o compromisso assumido com a construtora de direcionar mais investimentos para esta área, depois de permutas feitas por cima e por debaixo dos panos?

  • 2. leoc.  |  24 - dezembro - 2008 às 8:48

    é estranho como apenas o apelo fashion de um lugar sirva como estratégia de venda de apartamentos top de linha. mas talvez uma massa de moradores de poder aquisitivo mais razoável consiga pressionar a prefeitura a dar uma garibada no bairro.

  • 3. gumonteiro  |  24 - dezembro - 2008 às 9:47

    Léo, teoricamente a garibada já aconteceu, em 2004 e 2005, quando a Prefeitura passou sua varinha mágica por ali. Foram meses e meses de caos no meio do caos, obras que precisavam ser refeitas, e outros transtornos. No geral, a cara do Bairro de Fátima melhorou bastante, mas falta educação do povo para que as coisas sejam mantidas em ordem. Agora, a Lapa propriamente dita, ali próximo aos Arcos, precisa sim, urgentemente, de um help. Em época de chuva, por exemplo, você não consegue voltar para casa. Fora que os bares – apesar de legais pra caramba – acabam sendo um transtorno para quem mora ali. Ou seja: como morador local me vejo às vezes numa situação de angústia profunda. Tenho medo de que o lugar se transforme no caos e a Lapa exploda em merda. Vai feder pra caralho.

  • 4. Gisele Maia  |  24 - dezembro - 2008 às 11:12

    Morei um ano e meio em Santa Teresa e confesso que depois de poucos meses, passada a euforia de morar pertinho da Lapa, eu me irritava bastante de ter que passar por lá. Descia pelo Rio Comprido, pelo Catumbi, pelo Cosme Velho, Laranjeiras, mas a Lapa mesmo me desanimava. Em pouco tempo passei a fazer minhas compras no mercado de Santa, mesmo que fosse significativamente mais caro. Pra mim, eu tava pagando pelo meu sossego e isso não tinha preço.

  • 5. Olívia Bandeira  |  29 - dezembro - 2008 às 15:21

    Tem uma questão complementar ao que o Gustavo disse no post que pode ser examinada: me disseram que grande parte das pessoas que compram apartamentos (financiados) nesses prédios com tudo dentro, nova moda a inchar nossas cidades, não conseguem depois quitar as mensalidades, por causa dos preços altíssimos dos condomínios.
    Gu, você tem alguma notícia sobre isso?

  • 6. gumonteiro  |  30 - dezembro - 2008 às 8:50

    Lili, isso é uma verdade sim. Mas no caso do Cores da Lapa eles estão prometendo manter a taxa de condomínio fixa durante o primeiro ano. O grande problema nesses “condomínios-clube” é que é preciso verba para manter funcionando esse monte de espaços. Acho difícil que o condomínio de lá permaneça R$ 300 por muito tempo. Só para você ter uma idéia, no meu prédio, que oferece garagem (eu não tenho carro) e um playground mixuruca, o valor da taxa é de R$ 450…

  • 7. carlos  |  27 - agosto - 2009 às 11:54

    Eu estou interessado em comprar um apt lá. Moro no Flamengo num quarto e sala sem garagem, tenho que ficar alugando, pago condominio de 430 sem nenhum serviço. Lá vou ter tudo dentro do condominio por quase o mesmo valor, visitei o cond. semana passada, um amigo meu está morando lá. Fiquei de boca aberta, mas algumas coisas me preocupam:

    – quem fará a manutenção e manterá tudo ok?
    – quem será o xerife daquilo tudo, pois terá muita gente mal-educada fazendo besteira?
    – o apt se valorizará ou o contrário(o meu do Flamengo só valorizou, mas o que adianta se não tenho muito conforto)?
    – A tendência e ter mais prédios assim ou ele será somente o Oasis de lá….

    Dúvidas que passam pela minha cabeça…

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