Casa da Cachaça 2: Com classe, sem classe

2 - abril - 2009 at 18:35 3 comentários

Seu Osvaldo

Seu Osvaldo

Marcelo Valle

Beber é, sem a menor sombra de dúvida, uma prática social comum, independente da classe a que se pertença: bebe o pobre e bebe o rico, não necessariamente a mesma coisa. Algumas bebidas são identificadas com certas classes sociais, exigindo hora , ambiente e “etiqueta”, entrando no campo dos atos simbólicos. Uma coisa é certa, é preciso saber beber, um bêbado é sempre um bêbado, e por mais certo que esteja, já está errado por estar embriagado. Quem tem dinheiro pra tomar uísque tem dinheiro pra tomar cachaça, no entanto a recíproca não é verdadeira: quem tem dinheiro pra cachaça, não tem para o uísque. Explico: a cachaça rompeu a barreira do social, o cachaceiro não. A cachaça está na mão do pobre e do rico, embora nem sempre tenha sido assim , não por uma questão financeira, mas por uma questão de status. Durante muito tempo, beber cachaça era mal visto, bebida do negro escravo, “foi quem primeiro usou a cachaça como cataplasma para seus males, não somente do corpo como também do espírito”, escreve Mário Souto Maior. Também conhecida como cobertor de pobre, bebida das camadas populares, trabalhadores do campo e da cidade, barata. Aos poucos foi tornando-se a bebida nacional, deixando a senzala, a cozinha da fazenda, a casa do pobre para virar produto de exportação, e por que não dizer “bem cultural”. Afinal, quem é o cachaceiro? O ato de beber cachaça sempre foi associado à embriaguez e ao vício, à pobreza e às más companhias, no entanto há quem reivindique o título de cachaceiro com muito orgulho, com direito a carteirinha e tudo. A Casa da Cachaça reúne grande variedade de cachaças e cachaceiros. Que tipo de relações se estabelecem ali? Existem regras? Como se consome? O que se consome?
Vale ainda colocar aqui, que mesmo sendo tão popular, a “branquinha” ainda guarda algo de exótico, rica em nomes e variedades, seus rótulos são verdadeiras obras-primas. Trazem ali representados diferentes tipos e aspectos do Brasil, mais do que isso são representantes legítimos do saber e do humor populares. Giram em torno da cachaça milhares de histórias, músicas, poesias… senhora dos mil nomes, rainha dos sinônimos, tem até dicionário próprio e está literalmente na boca do povo.

Dados coletados numa conversa com seu Osvaldo no dia 25 de novembro de 2004, às 17 horas e 28 minutos.

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3 Comentários Add your own

  • 1. Olívia Bandeira  |  2 - abril - 2009 às 21:28

    A frase de que mais gosto é “a cachaça rompeu a barreira do social, o cachaceiro não”. Pra mim, sintetiza muitas das relações sociais no Brasil e em qualquer lugar.

  • 2. Anônimo  |  2 - abril - 2009 às 22:17

    Januária, parati, candibrina!!! Isso é coisa nossa!

  • 3. messias s. cavalcante  |  11 - julho - 2009 às 12:55

    ‘Senhora dos mil nomes’ , gostei e adicionei na lista de apelidos no meu site http://www.pingaiada.alfenas.net.

    Messias s. Cavalcante

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