Desemprego, jornais e telemarketing

8 - junho - 2009 at 19:56 3 comentários

Olívia Bandeira de Melo

images O Brasil possui cerca de 2 milhões de desempregados, segundo dados do IBGE de abril de 2009. Pesquisa realizada pelo Datafolha com jovens entre 16 e 25 anos de todo o país mostra que a principal preocupação de 33% dos pesquisados é com trabalho e realização profissional. O percentual sobre para 55% entre os jovens com 16 ou 17 anos. Ou seja, o assunto trabalho interessa a amplos setores da sociedade. Por isso, lamento que uma boa discussão sobre o tema promovida pelo jornal O Globo se limite ao seu suplemento literário Prosa & Verso, publicado no último sábado (acesso aqui, para assinantes).
O caderno traz depoimentos, entre outros, do economista Marcio Pochmann, do pensador britânico Richard Sennet, do professor do departamento de Sociologia da USP Ruy Braga, e do presidente do sindicato dos metalúrgicos do ABC, Sérgio Nobre. Os entrevistados discutem as mudanças no que se entende por trabalho diante da crise do capitalismo e das novas tecnologias de produção e de informação; falam da renovação do debate sobre proteção social e dos desafios postos ao movimento sindical que, segundo Sérgio Nobre, precisa se internacionalizar.
Não entendo por que o debate mais aprofundado se restringe a um caderno sobre livros, voltado para um público específico e de fim de semana, em vez de ser debatido nos cadernos diários, que se limitam a noticiar fatos isolados e a publicar estatísticas acompanhadas de personagens ilustrativos. Além do mais, as notícias são fragmentadas em seções que separam economia de política, o local do nacional e do mundial, a tecnologia da cultura, como se essas questões não estivessem relacionadas.
No Prosa & Verso do Globo, o professor Ruy Braga nos ajuda a refletir sobre a necessidade de fortalecimento do movimento sindical, no ano em que o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, para o qual Lula muito contribuiu, faz 50 anos: “(…) o governo petista imobilizou os movimentos sociais por meio do ‘transformismo’ de parte expressiva de suas lideranças, colaborando ativamente com o desmanche da classe mobilizada. E por isso talvez a imagem capaz de captar com nitidez o especial significado das transformações do mundo do trabalho no Brasil contemporâneo seja a da ocupação que mais cresceu em termos numéricos sob o lulismo: os operadores de telemarketing. Amalgamado pelos investimentos no setor de serviços, pelas privatizações, pelas terceirizações, pela rotatividade, pela informatização e pela financeirização das empresas, esse ‘infoproletariado’ superexplorado, carente de tradições organizativas e, portanto, despolitizado, é a verdadeira antítese da classe mobilizada das greves de 1978”.
Enquanto isso, o jornal Extra, também da Infoglobo e “o jornal mais lido do Brasil”, como anuncia a capa, aumenta suas vendagens com mais uma super promoção, anunciada em horário nobre na TV: Curso de Qualificação Profissional de Telemarkting. São 9 aulas em forma de apostila, ao preço de um jornal de domingo + R$ 5,90 cada, que, segundo o jornal “capacitam tecnicamente o aluno, e um certificado reconhecido pelo MEC com validade em todo o Brasil, que o qualifica para o mercado de trabalho”. Ah, o aluno aprovado na avaliação realizada ao final do curso, além de certificado, recebe 50% de desconto em cursos da Unicarioca, desde que passem no processo seletivo da instituição. Imperdível, não

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3 Comentários Add your own

  • 1. Gustavo Monteiro  |  9 - junho - 2009 às 12:31

    Bem oportuna a discussão. Acho desumano o que se faz com os operadores de telemarketing, que são obrigados a ficar horas em atendimento com apenas algns minutos para comer e ir ao banheiro. E submetidos à pressão constante de metas e humilhações de chefia. Mas tem uma outra classe igualmente explorada: a de vendedores de loja. Além de uma jornada exaustiva e sem direito a feriados, precisam bater metas irreais para ganhar mais que um salário mínimo. Não sei por que essas pessoas não se mobilizam, mas tenho uma pista: pelo simples fato de que é melhor um emprego desses do que emprego nenhum. Lamentável.

  • 2. JH  |  12 - junho - 2009 às 10:16

    “…as notícias são fragmentadas em seções que separam economia de política, o local do nacional e do mundial, a tecnologia da cultura, como se essas questões não estivessem relacionadas.”

    Pois é… Fragmentar é melhor para alienar.

  • 3. Luzinete de Melo  |  12 - junho - 2009 às 17:25

    Boa tarde
    Preciso de ajuda não consegui ,comprar a aula 5 de telemarketing
    já havia esgotado,sou assinante do Globo.e já entrei em contato com a Univir, pois não tive progresso
    Desde já grata!!

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