Sobre o diploma que eu tenho…

19 - junho - 2009 at 20:14 2 comentários

Lúcio Mello

Tinha eu 14 anos de idade
Quando meu pai me chamou (quando meu pai me chamou)
Perguntou se eu não queria
Estudar filosofia
Medicina ou engenharia
Tinha eu que ser doutor

(Paulinho da Viola)

Bom,

Não tinha 14, tinha 16 anos quando escolhi o jornalismo. Sobre a polêmica do diploma, uma manifestação da minha parte, mesmo correndo o risco de ser apedrejado.

1 -Sobre o ponto de vista mais teórico e utópico

Sempre fui a favor do jornalismo como uma área transdisciplinar sim. Se é uma graduação, um curso técnico, um pós graduação..sinceramente.. isso não me importa nada! Portanto, na teoria eu sou mesmo a favor do fim do diploma de jornalismo. Podem tacar pedra.

O jornalismo é uma ciência? É um saber? O que é o que é meu irmão ? Aliás todas estas discussões sobre áreas do conhecimentos são brochantes e interessam aos epistemólogos, aos engavetadores, aos classificadores, taxionomistas e os neuróticos com obsessão e ascendente em signos que gostam de separar meias brancas de vermelhas, bibliotecônomos, enfim, aristotélicos de plantão.

Agora, o pau que bate em Pedro bate em Chico! Se é assim, sou a favor do fim do diploma pra medicina, pra direito, pra.. com licença dos pudicos, da porra toda! Quer liberar? então libera… mas sem hipocrisia. Inclusive a maconha. Olho por olho, caros juristas?

Sou um utópico sim. Sinceramente ter um diploma encheu mais de orgulho a minha mãe que a mim, como na música do Paulinho da Viola acima. Afinal, a minha coroa, filha de enfermeira e professora sabe bem o que é não ter curso superior nesta terra de dotô.

2 – Do ponto de vista da contradição capital trabalho (ou seja , a vida vivida, o ganha pão, a vida como ela é, etc)

É, seu dotô, minha mãe tinha razão. Apesar de ser utópico, eu não sou idiota. O mundo ideal está muito longe do mundo real. Aqui nesta polêmica do diploma utopia e realidade se chocam.. e com força. Fico com a realidade. E agora?

A terra é de doutor? Então eu vou ter canudo para ter direito a prisão individual, para ascender socialmente. É simples assim! E quanto ao meu filho que um dia hei de ter…. Se ele quiser pode não ser doutor, mas vou alertá-lo, como minha mãe fez (e talvez induzi-lo a ser doutor). É fogo como na prática somos escravocratas e coronelistas né? É duro ver como a coisa funciona na sociedade do “sabe com quem você está falando” da carteirada dos privilégios né?

A ascensão via a educação é, sem dúvida o caminho de muitos. E não acho errado.. é melhor que por vias mais espúrias. Aqui chegamos a um ponto bem voltado para a organização dos indivíduos na sociedade
As grandes empresas, como a Organizações Globo estão com um discurso hipócrita de que vão aproveitar só formados. Mas o exercito de reserva aumenta.. e aí .. já sabe né? Lei de oferta e da procura.. aumenta o número de “empregáveis” diminui o valor do salário”

Quem tá mais preocupado do ponto de vista da reserva? Os jornalistas que escrevem. Os fotógrafos vão sacanear muito eles na redação.. é como perder num clássico… Do ponto de vista do fotógrafo os canetinhas (como os fotógrafos chama os repórteres )perderam a aura de chic. Agora virou tudo proletário agora, como os diagramadores e outras figuras das redações são reles mortais.
Proletarização, caros esnobes escribas do quarto poder. Pro-le-ta-ri-za-ção.!

3 -O ponto de vista corporativo

Organização dos indivíduos na sociedade, em bom português significa capacidade de organização. Existe sim o conflito de interesses entre diversas pessoas e como sabemos as pessoas se organizam em grupos de afetividade e, sobretudo, de poder… Existem classes fortes e fracas, categorias fortes e organizadas e categorias fracas.

E sabe porque somos (me incluo nisso) corporativos? Porque o mundo é cruel, isso não quer dizer que concorde com os argumentos do boçal do Gilmar Mendes. Sei bem quem ele representa. e a quem interessa este tipo de parecer.. aos donos dos grandes jornais, que pelo placar de 8 a 1 mostra o medo dos Togados à mídia.

Desculpe a crueldade, mas nossa categoria é bem fraca.. agora querem organizar manifestações… é… o leite já foi derramado.. É melhor mudar de profissão e fazer faculdade de direito, onde o risco de se perder o diploma é menor.. mas enfim.. ninguém fez jornalismo pra ser doutor, né?

Do ponto de vista ético e moral

Pratico o jornalismo no serviço público. Gosto do meu trabalho. Quando me formei brincava com a situação: “agora posso virar nome de rua, como jornalista Roberto Marinho”. Diploma pra mim é besteira. De verdade.

O que entristece é o preconceito introjetado de alguns colegas. Vejo uma série de comentários preconceituosos e desrespeitosos (e é no calor da discussão que eles aparecem, os mais reconditos e ocultos) sobre faxineiros, pedreiros e tudo mais.

“Agora somos como faxineiros, agora temos nível médio” , etc.. e por aí vai. Contra estes argumentos acho tudo muito lamentável e corporativo. Parece que vem de gente que gosta de ser chamada de “seu dotô” e de “excelença” . Lamentável e triste o desespero destas pessoas que investiram no diploma de jornalista como uma forma de ascensão social no país do “seu dotô”.

Obvio que tem muita gente séria, de respeito profissional. É dureza ouvir lição de moral do Gilmar Mendes. Mas, como nem tudo é ruim (meu lado Polyana), pode ser que ao menos agora arrivistas e vigaristas que querem ser seguradores de microfones e genéricos de Wiliam Bonner já sacaram que não vai ser mais necessário ter que “aturar aquela aula chata de ética” e outras coisas que já ouvi sobre a faculdade como as aulas de filosofia, as aulas de psicologia social e a aula Realidade Socio Polítca Brasileira.

Talvez entre pessoas menos individualistas e mais interessadas com o jornalismo de fato e menos com um emprego dourado com jabás e áreas vips e privilégios de uma grande emissora, onde para se manter no quadro funcional as vezes é necessário esquecer a ética de forma incrível (as vezes, nem sempre todos, mas muito os fazem! -mais uma vez.. atirem a primeira pedra!)

Meus achismos

Bom como diria a música de Gilberto Gil e Caetano Veloso :

E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba

Vou dar minha opinião inteligente sobre a polêmica do diploma, meu palpite classe média.

As empresas de jornalismo, a exemplo ds gravadoras, estão mudando. Muitas vão acabar, outras vão surgir. O processo é estrutural como bem percebeu Nelson Werneck Sodre, em História da Imprensa do Brasil, em palavras minhas, a história da imprensa (mídia seria o termo nos dias de hoje), a história da imprensa tem a ver com a história do capitalismo, no mundo e no Brasil

A precarização não é de hoje. Assim como a União Soviética não acabou com o muro de Berlim. Talvez esta presepada do STF pra agradar a grande mídia possa ser uma oportunidade para muitos que querem fazer jornalismo de bairro, rádio comunitárias. Pode não ser também….

Acho que muitas faculdades particulares de jornalismo vão fechar…

Acho que muita gente que não tem nada a ver com jornalismo vai virar jornalista e entrar no serviço público.

A coisa vai ficar feia.. muito feia….. salve-se quem puder? Não ..internet.. é o horizonte… ou a tábua de salvação…
jornalista tem que saber html, tem que sabe rbanco de dados hoje em dia. Tem que saber também mexer com rádio, vídeo, impresso

O saber não está no diploma… está nas pessoas… existem as pessoas que aprendem, estudam e as que não .. a formação informal vai aumentar…

Boa sorte a todos no Deplorável Mundo Novo do Jornalismo Brasileiro. Hoje é o adeus ano velho. Bem-vindos ao ano zero!

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Entry filed under: Direito, Educação.

Pai, afasta de mim este Cale-se Direitos iguais

2 Comentários Add your own

  • 1. Deia Vazquez  |  20 - junho - 2009 às 5:47

    Lucio,

    a sua analise foi a melhor que li ate agora – a verdade eh que nao li tantas porque o tema nao muito me interessa, hehe.

    Portamos o mesmo diploma e eu penso muito parecido. Primeiro que acho que faculdade de jornalismo eh faculdade de nada com coisa nenhuma e sou a favor de uma formacao transdisciplinar tambem.

    Etica se aprende nas escolas de comunicacao? Nao sei nao…pelo que vemos por ai…No mais, etica nao se aprende em 4 anos.

    E sem hipocrisia, sabemos que o tanto de faculdades de jornalismo de fundo de quintal nao formam ninguem. Que acabem mesmo, e que o mercado se encarregue de filtrar quem ta dentro e quem ta fora. Tendo a achar que quem tem medo dessa lei se apoia mais num pedaco de papel (que pra mim nunca valeu de nada) que na sua capacidade profissional.

    Quanto ao “enfraquecimento da classe”, da mesmo pra enfraquecer mais? Ou sera que agora jornalistas vao aceitar trabalhar por menos do que ja trabalham?

    Acho apenas lamentavel ler uns comentarios do tipo “perdi meu tempo e dinheiro estudando jornalismo”. Bem, independentemente de qualquer lei, eu sei que nao perdi o meu. E nesse sentido acho que falo por nosso coletivo carocal 😉

  • 2. Luciana Gondim  |  20 - junho - 2009 às 14:28

    Sensacional, menino Lu, sensacional!

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