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O que pretende Manoel Carlos?

Leo Cosendey

Semana passada, assisti a três capítulos da nova novela das oito nove, a tal de Viver a Vida. A impressão que tive é que os diretores do folhetim querem transformá-lo na primeira novela em tempo real da história, algo no estilo de 24 Horas, já que, ao longo desses três capítulos, apenas uma cena se desenrolou: o casamento da Taís Araújo com o José Mayer, coitada dela. Ou talvez seja questão de estilo: assim como a anterior tinha influência hindu, esta tem influência iraniana, pelo menos no andar (ou melhor, rastejar) da história.

Ao longo daqueles três sofridos capítulos, fiquei pensando em que mundo vivem os personagens da novela. Uma top model internacional, cuja mãe é dona de uma pousada em Búzios, arranja um coroa que aluga um iate com tripulação completa apenas pra dar uma cavucada, como diria o Mussum. A filha deste coroa é outra top model internacional, que mora com a mãe num apartamento de cinco quartos no Leblon e tem umas três empregadas, todas uniformizadas. O coroa e a gatinha vão passar uma lua de mel de uns quatro meses de duração em Paris. Algum personagem, agora não me lembro quem, cansado dos enooooormes engarrafamentos até Búzios, resolve passar a ir pra lá de helicóptero.

Certo, certo. Não é de hoje que as novelas globais têm pobres limpos, cheirosos, que fazem três refeições por dia e moram numa casa de quatro cômodos sem goteiras e com todas as paredes pintadas. No entanto, um detalhe ao fim de todos os capítulos me chamou a atenção: o momento mundo-cão.

Ao final de cada capítulo, um desgraçado qualquer aparece para contar suas misérias: num dia, foi uma mulher que contraiu Aids em sua primeira transa; em outro, um rapaz que não tinha braços nem pernas; no terceiro, outra mulher que apanhava desde criança, primeiro do pai, depois do marido.

Enfim, o que pretende Manoel Carlos? Mostrar aos pobres mortais que o mundo de verdade é bem diferente do conto de fadas em que vivem seus personagens? Qual é o sentido, afinal, de mostrar histórias de pessoas que, pra não desperdiçar o clichê, “venceram na vida”, se na meia hora anterior o que se vê é só luxo e luxúria?

Juntas, a ficção e a realidade parecem dizer apenas: “este mundo não é seu, campeão. Mas não fique triste. Tem gente que está pior do que você.” Fala sério.

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28 - setembro - 2009 at 18:38 3 comentários

A eterna busca pelo duplo sentido

Leo Cosendey

Saiu ontem no Grobo:

itagiba

Título infeliz. A primeira coisa que me passou pela cabeça foi algo assim:

itagibade4

Só depois, ao ler a matéria, fui ver que não era. Mais atenção, galera.

7 - maio - 2009 at 13:18 6 comentários

We’re a Happy Family

Leo Cosendey


Semana passada, de forma completamente inesperada, trombei com um novo lançamento póstumo de uma de minhas bandas favoritas, os Ramones, que participaram do surgimento do punk e o mantiveram por 22 anos, até o fim da banda em 1996. Desde essa debandada, diversos tributos e bootlegs oportunistas foram lançados, todos (ao menos os que tive chance de ouvir) com baixa qualidade técnica e/ou artística. A maioria, portanto, um caça-níqueis justificado pela fama da banda.

Não é o caso deste lançamento. The Family Tree é um lançamento da gravadora argentina independente Music Brokers, especializada na distribuição de músicas obscuras ou não lançadas por preços populares. Com isso concordo: trata-se de um CD duplo, com estojo de papel e encarte com informações sobre datas, locais e músicos participantes das gravações — coisa fina, portanto — que me custou R$ 47,90, o que se torna ainda mais notável em tempos de crise mundial.

O cuidado com a embalagem, no entanto, não se repete na qualidade do som; muitas faixas não foram remasterizadas (não sei se por desinteresse ou impossibilidade técnica), tornando às vezes difícil diferenciar instrumentos ou mesmo entender o que está sendo cantado. Mesmo assim, o álbum vale pela proposta de criar uma “árvore genealógica” para a banda, reunindo trabalhos dos integrantes contemporâneos ou posteriores à carreira nos Ramones.

Assim, há gravações históricas (como a participação do recém-falecido Lux Interior, líder do The Cramps, no álbum solo do baixista Dee Dee Ramone, ou a participação do vocalista Joey Ramone num show do Die Toten Hosen, a mais importante banda punk alemã da história) e outras que valem pelo inusitado, como a música de inspiração tibetana cantada pelo mesmo Joey, já depois do fim dos Ramones, ou uma versão punk para “Nowhere Man”, dos Beatles.

É impossível encaixar o álbum num subgênero do rock; apesar de a maioria da músicas ter o estilo rápido e simples que caracterizou a banda, várias outras demonstram a diversidade musical de que seus integrantes eram capazes. Recomendado, portanto, não só para quem curte o que se convencionou chamar de punk, como também para ouvintes de um rock clássico num lançamento honesto — coisa rara hoje em dia.

22 - abril - 2009 at 14:52 Deixe um comentário

Dando trabalho para todos

Leo Cosendey

favelamurocompleto

15 - abril - 2009 at 13:18 3 comentários

Alegria de pobre dura pouco

Leo Cosendey

Amigos leitores,

Como um dos administradores deste blog, cumpro com o difícil dever de informá-los de que ele está com seus dias contados. Eu e a Deia, minha companheira na função, recebemos, na manhã de hoje, um e-mail do WordPress (que hospeda O CAROÇO) informando que, a partir da próxima semana, o serviço deixará de ser gratuito, passando a custar US$ 29,99 por mês, mais US$ 1,99 por post publicado — já que é um blog, segundo eles, “de baixa circulação”. É claro que eles prometem mil melhoras no serviço, mas será que vale a pena? Achamos que não. Por isso, aproveitamos esta última semana grátis para anunciar a nossos leitores que, em breve, mudaremos mais uma vez de endereço. Ainda não sabemos para onde iremos, mas tenham certeza de que iremos. Não vai ser a tal crise mundial que vai nos abater.

1 - abril - 2009 at 14:38 15 comentários

Reverberação

Leo Cosendey

Estava numa daquelas sensações em que o peito explode de nervoso e dá para se ouvir o coração batendo como se fosse a polícia pondo abaixo a porta da sua sala para o achaque da semana. Suava um suor pastoso e sombrio, suor salgado e pesado, suor melado de medos passados. Tremia de medo, um medo primal primata primitivo, sozinho no escuro escondido com a faca na mão. A arma improvisada não sabia se lhe seria algo útil, mas atrás da cama, com poucas horas à frente e os malditos passos em redor, não havia muito o que pensar.

Súbito, um rangido.

Ficou sem saber de onde vinha o som, era uma estereodemência que o cercava e o sufocava num calor de sauna, umidade quente que subia pelas narinas e descia pela garganta queimando o ar que inflamava mas não podia deixar de respirar. Inspirava fogo, expirava medo, e o maldito suor pastoso pingava e empapava sua testa sua roupa sua alma. Os cabelos teimavam em cobrir-lhe a testa; tirava-os, obstinado, para enxergar o quê?, à espera, sempre à espera, dos passos que haviam se tornado vozes que haviam de tornar-se gritos que haviam de tornar-se pó. Sorriu nervoso, um esgar rancoroso que projetou-se luminoso em sua própria escuridão.

Então, o ar novo. Aberta a porta certa, a porta do quarto onde por quatro horas se escondia, o sorriso nervoso tornou-se rosto furioso e com a faca na mão fechada apertou os olhos. Eram três, dois que acompanhavam um que dizia:

— E este é o quarto principal. Tenho certeza que vocês vão adorar. É o

Um grito de pânico irrompeu no quarto silente antes que a frase pudesse acabar. Um salto silente irrompeu no quarto em pânico antes que alguém pudesse fugir. Facadas ligeiras, certeiras, inteiras, três corpos sem vida no chão empapado de sangue e suor, ecos de gritos de morte pelas paredes, reverberação. Pilhou carteiras, cartões e o que mais pôde, saiu depressa sem ter para onde, largando para trás o que já chamara lar. Filhos da puta, trio de filhos da puta, querendo comprar a casa abandonada que tanto lhe agradara ocupar.

26 - março - 2009 at 12:02 11 comentários

Bailão do Alemão

Leo Cosendey

Na sexta-feira passada, fui ao minifestival Just a Fest, na Praça da Apoteose, que reuniu Kraftwerk, Los Hermanos, Radiohead e uns tais DJs convidados. Por sorte, moro longe e quando cheguei o show do Los Hermanos já havia terminado, o que me poupou o incômodo de passar hora e meia procurando um lugar para dormir e ainda fez com que eu chegasse bem a tempo de ver o que realmente queria: o Kraftwerk.

Como já esperava, a apresentação deles foi extremamente burocrática, com efeitos de luz e som de 40 anos atrás — nenhum problema, afinal essa é a proposta dos caras (basta ver o site deles). Mas as músicas que eu conhecia, clássicos como Autobahn, Pocket Calculator, Radioactivity e The Robots, estiveram todas presentes.

Hütter durante apresentação na Filarmônica de BerlimDepois do show, quando uma banda mais inexpressiva tocava, fui ao bar comprar uma cerveja, que custava abusivos R$5 a lata — e estudantes não tinham direito a meia — e me surpreendi ao encontrar lá um dos integrantes fundadores do Kraftwerk, o Ralf Hütter. Ele estava tendo muita dificuldade em fazer a moça do bar entender que ele queria uma cerveja quente (os alemães e suas manias) e resolvi ajudá-lo. Ele me agradeceu e eu aproveitei para emendar numa pequena entrevista, que reproduzo abaixo:

O CAROÇO: Sr. Hütter, qual é sua sensação de tocar aqui no Rio esta noite?
Ralf Hütter: Indiferente. Já tinha vindo aqui antes. (toma um gole da cerveja — Hütter se refere ao Free Jazz de 1998 e ao Tim Festival em 2004)

OC: O que você acha de sua banda ter sido escalada para tocar entre dois conjuntos de rock?
RH: Rock? Isso é um conceito muito vago. Aqueles que tocaram antes de nós pareciam mendigos tentando ganhar uns trocados. E esses que estão aí agora (aponta para o palco, onde o líder do Radiohead, Thom Yorke, geme e pula) estão ocupados demais lançando conceitos para se preocupar com música.

OC: Mas não é exatamente isso que o Kraftwerk faz?
RH: É. (toma outro gole)

OC: Com tantos avanços na música eletrônica, por que vocês mantém os mesmos sintetizadores há décadas?
RH: Porque é nosso estilo. Se começarmos a soar como os músicos eletrônicos atuais, vamos ser convidados para tocar em raves. E nós não vamos a raves, lá tem muita droga. Drogas prejudicam nosso sistema operacional, digo, nosso organismo.

OC: Por que essa fixação com robôs?
RH: Nós somos robôs.

OC: (rindo) Não, sério.
RH: Eu estou falando sério. (dá um gole prolongado, que quase acaba com a lata)

OC: Certo. Uma última pergunta: Tendo influenciado tanta gente, quem você diria que realmente pegou o espírito da coisa?
RH: O que o povo carioca chama de funk. Esses são os que chegaram mais perto da nossa proposta. Na última vez em que estive aqui, conheci o MC Sapão. O uso dele de samplers e baterias eletrônicas é simplesmente sensacional. Já combinei com ele de fazer uma nova visita amanhã. (abre a jaqueta, mostrando uma camiseta do funkeiro)

Como a cerveja já havia acabado e o show do Radiohead continuava rolando, resolvi encerrar a entrevista. Hütter ofereceu-se para transmitir nossa entrevista para meu computador pela internet, que ele consegue acessar telepaticamente por meio de suas ondas mentais cibernéticas. “Não, obrigado”, agradeci, tímido, e voltei para a multidão.

23 - março - 2009 at 16:40 7 comentários

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