Arquivo do Autor

Apresentando Teo

 

Lucas Bandeira

Em agosto do ano passado, surgiu aqui em casa um gato. Dei a ele o nome de Teodoro, que ele parece gostar muito. Teo tem hábitos estranhos. Só dorme ouvindo Bartok, ou se leio para ele O gato por dentro. Demonstra especial prazer quando leio para ele que o relacionamento do autor com gatos o livrou de uma ignorância mortal, absoluta. Quando leio essa passagem, ele parece rir, não como o gato da Alice do livro, mas estremece o corpo, como se segurasse uma sonora gargalhada. Entre suas manias encontra-se a de roubar o controle remoto quando o pessoal de casa tenta ligar a televisão e a de dar aquela estranha risada quando vê um passarinho azul na tela do computador em que agora escrevo estas mal traçadas.

Coerente como só os gatos e os alemães podem ser, hoje, talvez cansado de me ver teclando e teclando, ele derrubou um livro que estava há dias aqui na mesinha de cabeceira e abriu na página 19. Colocou sua pata em cima da página, me deixando ler apenas as duas últimas linhas: “Antes, quando ainda havia algo como a difamada e já quase saudosa separação burguesa entre profissão e”, então tirou a pata e me permitiu virar a página: “vida privada, seria visto com desconfiança, como um intruso sem maneiras, quem perseguisse metas na vida privada. Hoje é visto como arrogante, estranho e impertinente aquele que se envolve em coisas privadas sem exibir orientação para uma meta”. Tentei parar de ler para escrever meus 140 caracteres, mas ele insistia, pulando em cima do teclado. Depois de passear por olkjiohyuhgftrdfeszwq\aaXHBJNJNJKLNLK, pisou em ENTER, e lá foi minha mensagem – ou a dele – para o mundo. Então fui obrigado a ler o resto daquele raciocínio, o mais claro que um felino pode ter. Talvez Teo esteja certo, e a meta estaria mais perto se eu escrevesse que ele dorme ouvindo Ivete, assim mesmo, sem o sobrenome, e não Bartok.

13 - abril - 2009 at 23:35 13 comentários

Há 15 anos, o rock perdia um de seus gênios

Lucas Bandeira

Como ninguém se adiantou, publico este post, mais um da série “Há tantos anos morreu fulano de tal”. Há 15 anos, dia 5 de abril de 1994, morreu Kurt Donald Cobain, vocalista da banda Nirvana e último gênio rebelde do rock. (Depois, houve gênio e rebeldes, mas nenhuma pessoa foi as duas coisas ao mesmo tempo.)

Tive dificuldade em escolher o mais representativo, mas acabei por ficar com a última faixa do Unplugged. Não tem a força de Nevermind, mas acho que vocês vão compreender a escolha.

6 - abril - 2009 at 14:04 10 comentários

Fascismo na TV

Lucas Bandeira

Domingo é um dia depressivo para muitos de nós, trabalhadores do meu Brasil. Mas algumas coincidências podem tornar esse dia ainda mais melancólico, como ligar a TV no momento em que um apresentador esquisito começa um quadro chamado “De volta para minha casa”. Para quem não sabe, nesse quadro Gugu Liberato vai à casa de algum “migrante” que “não deu certo” na cidade grande para levar a família dessa pessoa de volta para a região em que nasceu, quase sempre no nordeste. A mensagem é clara: “Nordestinos, voltem para casa, aqui não é o seu lugar, vocês são responsáveis por fazer nossa bela São Paulo ter lixo, congestionamento, desemprego.”

É o mais perto que a TV brasileira chegou até hoje do fascismo, comparável apenas ao pastor Silas Malafaia argumentando (por falta de uma palavra mais apropriada, uso “argumentar”) que o homossexualismo é uma doença.

Segundo o Houaiss, fascismo é:

1 movimento político e filosófico ou regime (como o estabelecido por Benito Mussolini na Itália, em 1922), que faz prevalecer os conceitos de nação e raça sobre os valores individuais e que é representado por um governo autocrático, centralizado na figura de um ditador.

Se acrescentarmos aqui “naturalidade e sexualidade” aos termos “nação e raça” e pensarmos que a TV tem uma penetração no imaginário muito maior que o governo, podemos ver o caráter fascista desse quadro.

Não acho necessário começar a falar de quantos nordestinos que conheço que deram certo aqui (um colega que morou nos primeiros anos num restaurante em que trabalhava e agora tem pós-graduação; um migrante do interior de Minas que veio sem um tostão e conseguiu que todas as suas filhas tivessem faculdade, etc.). Na minha opinião, o mais importante é ver como as redes abertas fazem o que quiserem com o canal que o governo lhes concede, usando o pathos (palavrinha grega para emoção, comoção) do espectador contra o próprio espectador.

Quem quiser, pode buscar “De volta para minha terra SBT” no Youtube para ver belas cenas, como o caminhão do Gugu levando eletrodomésticos (de patrocinadores) para casas de dois cômodos no interior da Paraíba ou de Pernambuco ou do Ceará, em que não temos certeza de que há nem luz elétrica…


30 - março - 2009 at 9:52 43 comentários

Capítulo 26

Lucas Bandeira

Em certo momento a gente sempre se cansa daquele simulacro de bar, com simulacros de cerveja em garrafa, simulacros de garçons, simulacro de comida de boteco. E então a gente chega a um boteco quase fechando, com dois bêbados de botequim em uma mesa, outra, quebrada, esperando a gente. Conseguimos pedir três cervejas, ficamos ali bebendo e falando falando, até que um dos dois que já estavam lá, um negro alto, puxa papo. Ele é de Leopoldina, alguns de nós também somos da região, e ele começa a se emocionar. Diz algo sobre um acidente, mas não entendemos bem e achamos prudente não pedir detalhes. O negro alto nos apresenta o dono do bar, que pergunta se somos cariocas. Não, somos de Minas e do interior do Rio. Ele, cearense, começa um discurso. Se o Rio de Janeiro nos acolheu, se estamos aqui e não em nossa terra natal, se gostamos e vamos viver o resto de nossas vidas aqui, se era no Rio que estávamos ali, todos juntos tomando cerveja às duas da manhã, então éramos cariocas.

Fomos embora, depois de o bêbado emocionado abraçar calorosamente cada um de nós, mais uma vez com lágrimas nos olhos por ter encontrado conterrâneos. Ele estava certo, eu acho, deveríamos estar todos emocionados, mas não estávamos. Ou estávamos apenas um pouco, pois fomos andando mais quietos, felizes, a noite estava valendo a pena, finalmente. E o mendigo deitado na calçada se tornava assunto, a fila na porta duma boate nos fazia virar a cara, tínhamos nos tornado pessoas diferentes daquelas que chegaram ao boteco. Entramos em nosso último destino na noite, reduto alternativo… Naquela noite em que simulávamos alegria, simulávamos bebedeira, aquilo também era um verniz, um ambiente pensado para ser o único em que poderíamos entras quase às três da amanhã, encontrar pessoas de todos os tipos – desde que fossem pessoas que gostassem de rock (mas nada muito radical, entenda-se), desde que tivessem quatro reais para pagar em cada chope –, um lugar para qualquer jovem inglês se sentir em casa, no qual eu fingia me sentir em casa.

E eu, cada vez mais alegre por dividir a noite com todas aquelas pessoas que queriam apenas que a noite existisse, me dei ao luxo de ser moralista, de ter horror de quem fuma, de ter certeza (eu falava falava) de que é o esforço que faz o amor dar prazer, por isso podemos ficar três vidas com a mesma mulher. Claro que eu falava isso para que a noite acabasse, para voltar para uma casa que não era minha e dormir numa cama que não era minha, mas com um corpo que me esperava, dentro de outro corpo que me esperava.

29 - março - 2009 at 17:22 2 comentários

Há 170 anos, nascia o maior compositor de Pskov

Mussorgsky por Ilya Repin (1881)

Lucas Bandeira

Estava na cabeça com certa citação do Nietzsche para começar este post, mas achei esta, que talvez funcione ainda melhor. Escreveu Frederico Guilherme em Ecce Homo: “Direi ainda uma palavra para os ouvidos mais atentos: o que espero realmente da música. Que seja alegre e profunda como uma tarde de outubro. Que seja singular, travessa, terna, uma doce mulherzinha de baixeza e encanto…” Acho que isso tem a ver com o sujeito de quem vou falar.

Amanhã, completam 170 anos do nascimento, em Pskov (googlem onde é isso), de Mussorgsky (Modestinho para os íntimos), que viria a ser um dos mais instigantes compositores de música erutida (ou clássica, como queiram) do século retrasado. Por algum motivo, tenho obsessão por alguns trabalhos seus. As peças de Quadros em uma exposição estão no meu panteão de obras perfeitas e concisas (ao lado do diário Incidentes, do Barthes, de alguns contos de Cortázar da fase cronópica, de fotos de Man Ray). Cada quadro proporciona no ouvinte – em mim, pelo menos – um sentimento diferente, e os “caminhos” até o quadro seguinte (pois o que ele propõe é uma caminhada por uma exposição, claro) são variações de um mesmo tema, que preparam para a passagem para outro sentimento. Muito perto daquilo que entendo por perfeição. (Baixem aqui a versão para piano, ao mesmo tempo muito mais forte e mais singela do que a orquestrada por Maurice Ravel. Para não falar do soporífero que é a adaptação para rock progressivo de Emerson, Lake & Palmer.) Há também aquela que é consederada sua obra-prima, a ópera Boris Godunov.

Se algum dia for à Rússia, lugar obrigatório de turismo

Este post não parte da importância da efeméride (para quem gosta de dados, ele morreu uma semana depois de completar 42 anos, em 28 de março de 1881, mas não creio que isso seja matéria para os jornais), e sim pela relação afetiva que tenho com Modest. E também porque ela me lembra que a intenção do autor não serve para (quase) nada quando estamos em contato com sua obra. Posteriormente, pode servir para a análise, mas só depois que entramos em contato direto com a música (ou o romance, ou o quadro, etc.).

Modest fez parte do nacionalismo musical do Grupo dos Cinco, que pretendia fazer uma música russa, a partir de elementos do folclore. Entres seus companheiros estavam Borodin e Rimsky-Korsakov. Mas a obra de Murrorgsky ultrapassa muito sua intenção nacionalista. Um exemplo: Sheherazade, de Rimsky-Korsakov, é o contrário dos Quadros. Você permanece o tempo inteiro no mesmo sentimento, até que se cansa. Já Mussorgsky podia falar da exposição de um amigo ou narrar lendas de seu país em Uma noite no Monte Calvo que obtinha aquele efeito inexplicável da música: falar sem palavras, alcançar um lugar que não conhecemos muito bem em nós mesmos.

Para completar, Mussorgsky foi um personagem interessantísimo, como dá para imaginar por esse quadro que ilustra o post. Autodidata, não dominava por completo as técnicas de composição, e apesar isso (ou por isso?) conseguia ir além das formas estabelecidas – ele se dizia contra “os sinfonistas, esses inveterados guardas de museus”. Essa liberdade seria aproveitada pelos renovadores da música francesa (Debussy, Ravel) e por compositores russos como Shostakovski. Alcóolatra, contestador embora nacionalista, muitas das composições de Mussorgsky só vieram a público depois de editadas ou orquestradas por outros compositores. Morreu na miséria, em um hospital de São Petesburgo. Para usar um lugar-comum, um personagem dostoievskiano.

Hoje e amanhã serão para mim dias Mussorgsky. Abaixo, uma amostra de como se vai do alto de uma montanha até o interior de uma sala Luís XVI em poucos compassos. E felicidade para todos, pois nesse momento é o que sinto, repetindo e repetindo a suíte no Media Player.

20 - março - 2009 at 12:10 13 comentários

Duas perguntas a Felipe Schuery

Lucas Bandeira

Duas perguntinhas por email para Felipe Schuery, já que falei abaixo do álbum Data Crônica, lançado apenas na internet.

1 – Como foi a idéia do Data Crônica?

Eu comecei a entrar em parafuso com essa história de overdose de informação e tecnologia quando me toquei que meus amigos tinham parado de comprar CD, os CDs estavam caros e eu não estava familiarizado com download de música. Isso foi em 2004, acho. Fiquei congelado, não comprava mais nada, mas também não baixava. Apareciam duzentas bandas novas por semana e eu lia sobre todas mas não ouvia nenhuma. Comecei a fazer música a partir dessa angústia, mas aos poucos fui aprendendo a curtir esse excesso e a lidar com a ressaca e as sequelas dele. As 14 músicas do disco vão por aí, são croniquetas de uma época regada a informação.

2 – No Lasciva, vocês já usavam MySpace e site, mas agora você decidiu partir para as outras redes sociais (como Twitter, além do blog, que parece a versão prática do que você quis dizer no álbum). Como você vê daqui para a frente a relação entre essa “blogosfera” (na falta de uma palavra melhor) e a produção cultural? Para você, disponibilizar as músicas na internet (que é o outro lado da moeda da pirataria) atrapalha ou ajuda as pessoas que estão começando a fazer música?

É ótimo poder contar com ferramentas que te ligam diretamente ao público. O mesmo no caminho inverso: quem curte acompanha, escolhe que notícias e de quem quer receber, sem intermediários. Consumir o processo (não só o fim) já é fato na geração que nasceu teclando. Ainda não temos um modelo definido de comercialização de música na era digital, mas disponibilizar na internet é tranquilamente a melhor forma para um artista independente divulgar seu trabalho. Você tem o foco, sabe aonde ir, a quem procurar, e acaba atingindo um leque imenso e diversificado de pessoas, o que não aconteceria de forma tão prática e rápida no modelo físico de distribuição. As consequências (shows, merchandising, convite para outros projetos, etc.) da formação desse público e da exposição da obra é que me parece trazer a remuneração financeira pelo trabalho. Não a sua venda em si. Estamos na correnteza, e vamos nessa.

9 - março - 2009 at 13:39 Deixe um comentário

O excesso de informação, por Felipe Schuery

Lucas Bandeira

A egotrip na capa

A egotrip na capa

Acabo de receber pelo Twitter, no meio de dezenas de “what they are doing’s”, a informação de que, depois do fim da banda Lasciva Lula (com uma década de estrada) e de virar um estrangeiro em Londres, Felipe Schuery volta com um novo álbum, Data Crônica (as músicas estão disponíveis aqui). É um disco (será que essa palavra ainda serve?) conceitual. As letras refletem sobre algo que todos nós hoje vivemos, ainda mais nós que navegamos pela blogosfera: o excesso de informação e a necessidade de encontrar meios de filtrar tudo isso e produzir algo pessoal. Prestem atenção e com certeza vocês vão se reconhecer em muitos momentos desse personagem afogado (e apaixonado) pela informação, que diz “Por favor, encurta o romance, quero séries não quero  filmes, bastam as manchetes dos jornais” em “Pílulas, drágeas e comprimidos”. Uma egotrip como toda a net (em que até o jornalismo se tornou extremamente pessoal): a minha angústia é a angústia de todos.

Quem conhece o som do Lasciva vai notar bastante semelhança na sonoridade, mas Schuery está pegando mais leve no vocal e ele incluiu algumas influências que não cabiam na banda (como a declarada de João Bosco na primeira faixa, “Pico intranet”, com certeza o destaque do álbum, ao lado da última, “Cem/sem”, quase-libelo contra a obrigação de sempre “estar antenado”).

Data Crônica mostra os dois lados desse mundo em que a informação virou o pão nosso de cada dia: a indigestão, mas também a libertade de transitar entre Londres e Rio de Janeiro numa simples tecla de “update”.

Atualização: O MySpace do cara, em que ele colocou seis músicas: http://www.myspace.com/felipeschuery

9 - março - 2009 at 10:39 2 comentários

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