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Contos para o twitter – Experiência literária em até 140 caracteres

Ele era músico. Ela, revolucionária. “Esqueça, amor, são todos violinistas neste governo. Pegaram com a esquerda, dedilham com a direita”.

Tira-teima: http://twitter.com/lucianagondim

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15 - setembro - 2009 at 13:03 1 comentário

O banco de areia

Luciana Gondim

Perdera o emprego, não tinha namorado, as amigas estavam todas ocupadas com suas crianças. Mãe e pai estavam mortos, sem dívidas acumuladas, a casa recém-decorada. Estava perto dos 40, metade da vida ainda por gastar. Deu duas voltas na Avenida Rio Branco, desviando-se dos pedestres e das buzinas. Fincou o banquinho na altura da estação da Carioca. Vendeu os primeiros dez minutos para um operário do metrô que precisava cochilar. Em seguida ofertou meia hora para uma secretária que perdera a hora do almoço discutindo com a operadora de celular. Cinco minutos mais tarde havia uma fila de centenas de trabalhadores: uma hora para ir ao banco, por favor, duas para o dentista, três para ver a liquidação, quatro para o amor clandestino com a colega de trabalho. Alguns barganharam seis horas para ir à praia, outros preferiam adquirir dez dias para brincar com seus filhos ou um mês para dormir sem hora para acordar. Um casal comprou um ano inteirinho para dar a volta ao mundo. Ao final de dois dias, o banquinho amanheceu vazio e em paz.

4 - setembro - 2009 at 1:00 6 comentários

Peixes na janela

Luciana Gondim

Não sei como explicar, muito menos sei como tal coisa pode suceder. Na falta de alguém para me ouvir, na falta de uma idéia melhor, corri para cá para me desafogar do inimaginável. Acontece, meus caros, que agora, agorinha mesmo, exatamente 1h32m da madrugada desta quarta-feira, 2 de setembro de 2009, começou a chover mar aqui na Tijuca, na zona Norte do Rio de Janeiro. É água salgada, tenho como comprovar. Já enchi um balde inteirinho e até bebi um copo para ter certeza. À princípio pensei que pudesse ser chuva ácida, resultado de tanta poluição, mas logo um peixe imenso se chocou contra a janela do quarto e quebrou o vidro. Em seguida vieram as conchas, as estrelas do mar e uma avalanche de areia que cobriu o prédio até o terceiro andar, e parou exatamente no parapeito da minha janela. A essa altura, imagino, o litoral da cidade deve estar coberto de peixes, ostras, caracóis e ouriços do mar. Talvez estejam todos afogados. Talvez haja vida ainda no topo das favelas. Quem sabe os moradores de bairros nobres da zona Sul conseguiram abrigo nos barracos do alto da Rocinha e Vidigal. A essa altura, aqui do terceiro andar do meu prédio na Tijuca, vejo cardumes inteiros flutuando diante dos meus olhos. Há algas enroladas nos sinais de trânsito e dezenas de garças vigilantes sobre os postes. O ar está pesado de areia, salgado. O mundo deve ter virado do avesso e o mar caiu. E lá embaixo agora é o infinito.

2 - setembro - 2009 at 1:37 3 comentários

Bem aqui no quintal

Luciana Gondim

.

Nesta sexta-feira, 28 de agosto, o Golpe de Estado em Honduras completa dois meses. Em protesto, organizações nacionais e internacionais contrárias ao Golpe vão realizar plantões de protestos nas embaixadas estadunidenses em diversos países.
De acordo com comunicado da Frente Nacional contra o Golpe, divulgado na segunda-feira passada (24), os manifestantes exigem: o retorno da democracia no país e de Manuel Zelaya ao poder; uma nova constituição; o castigo aos violadores dos direitos humanos; a posição de Estados Unidos contra o governo golpista “que inclui a interrupção imediata de todo tipo de cooperação militar, diplomática e econômica”.

Mais sobre o Golpe em Honduras: https://ocaroco.wordpress.com/2009/07/13/michael-jackson-esta-em-honduras/#comments

27 - agosto - 2009 at 21:27 Deixe um comentário

Cirurgias gratuitas de lábios fissurados no Rio

Luciana Gondim

A Operação Sorriso do Brasil, instituição sem fins lucrativos que se dedica a transformar a vida de crianças e jovens brasileiros portadores de fissura lábio-palatina, realiza triagem para realização de cirurgias gratuitas em crianças, no Hospital do Fundão (UFRJ), no Rio, nos próximos dias 6 e 7 de agosto.
Mais informações: (21) 7152-3855 / (11) 3443-2710
labios

Saiba mais sobre lábio fissurado e a fenda palatina:
(mais…)

31 - julho - 2009 at 19:49 1 comentário

Vida e morte: Hilda encontra Drummond e João


Luciana Gondim

É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d’água, bebida. A vida é líquida.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
Morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.

*Experimento fruto do encontro de Alcóolicas ( Hilda Hilst), Os Ombros Suportam o Mundo (Carlos Drummond de Andrade) e Morte e Vida Severina (João Cabral de Melo Neto)

29 - julho - 2009 at 15:07 2 comentários

Michael Jackson está em Honduras

Luciana Gondim

zelaya
michael
E quando achamos que golpe de Estado tinha virado coisa démodé, sopraram ventos da América Central anunciando a deposição do presidente de Honduras, José Manuel Zelaya. Foi na madrugada de 28 de junho, quando muitos ainda aguardavam a ressurreição de Michael Jackson.

Zelaya foi parar na Costa Rica, por ter cometido o crime de fazer uma consulta popular sobre a possibilidade de uma Constituinte. Lá em Honduras, quem diria, ouvir o povo é ato de lesa pátria.

A novidade é que Manuel Zelaya está longe de ser um revolucionário de esquerda. Estava no poder desde 2005, pelo Partido Liberal, e ocupou importantes cargos no governo antes de assumir o posto de mandatário hondurenho. Mas em 2006 teve um arranca-rabo com o Tio Sam, quando decidiu reduzir o custo do petróleo.

Para piorar sua situação, Zelaya buscou o apoio de Hugo Chávez, e em janeiro de 2008 Honduras entrou na Petrocaribe, um acordo de cooperação energética. De quebra, Honduras se uniu à ALBA (Alternativa Bolivariana para as Américas), projeto de Chávez em contraposição à ALCA, a menina dos olhos dos Estados Unidos.

O acordo entre Venezuela e Honduras é o seguinte: Chávez prometeu vender petróleo a Honduras, com pagamento de apenas 50%. A outra metade seria paga em 25 anos, com juros muitos baixos. Com esse acordo, o Tio Sam perdeu um forte parceiro para seus lucrativos acordos de livre comércio.

De maneira que quando Zelaya resolveu consultar o povo sobre a possibilidade de uma Assembleia Nacional Constituinte, as forças armadas invadiram sua casa. Na alta cúpula do poder, não houve quem não acusasse o presidente de estar sob influência de Chávez, quando decidiu exonerar o chefe do Estado Maior, general Romeo Vásquez Velásquez, que se recusou a distribuir as cédulas para a votação popular.

Até a Corte Suprema votou contra a consulta popular e exigiu que o presidente reconduzisse o general ao seu posto. Mas ele negou. Como punição, Zelaya foi seqüestrado e lançado nos porões de Costa Rica.

Roberto Micheletti assumiu como presidente da nação hondurenha e suspendeu, logo após sua posse, os sinais de televisão e os telefones. Enquanto isso, as redes internacionais transmitiam ao vivo, para todo o planeta, o show funeral de Michael, no ginásio Staples Center, em Los Angeles.

13 - julho - 2009 at 21:28 5 comentários

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