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Colômbia sem estereótipos – Parte zero

Bogotá

Bogotá

Fernando Miragaya

* enviado especial

Foram quase 3 mil km rodados pelas estradas de pista simples colombianas, com motoristas, motociclistas e caminhoneiros sem qualquer apego à vida no trânsito. Sem estereótipos, durante 13 dias eu e Luciana nos deparamos com um país muito, mas muito parecido com o Brasil

As estradas são margeadas por cidadezinhas, chamados de pueblos, algumas muito miseráveis. Miséria que o Uribe faz questão de esconder. No entanto, o fato de ter colocado as Farcs, Paramilitares e traficantes para se pegarem no sul do país (onde não existem indicações sobre estradas ou detalhes de cidades nos mapas), fazem dele um presidente admirável. O curioso é o discurso, principalmente de quem mora na cosmopolita Bogotá, de que Uribe é Deus e Hugo Chávez e Rafael Correa são os capetas.
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28 - maio - 2009 at 13:28 2 comentários

Os muros

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Fernando Miragaya

Aproveito como gancho a análise da minha escritora predileta abaixo para tratar de outros filmes que me chamaram muito a atenção esses dias. Ambos os longas metragens não são novos, tampouco tenho qualquer talento para ser crítico de cinema. Mas Adeus Lenin! e Machuca me mostraram, no meu singelo, resumido e tosco conhecimento cinematográfico, que é possível fazer um filme de cunho social e político com sensibilidade. E o melhor, sem ser piegas, forçar qualquer patrulhamento ideológico ou mesmo ser panfletário.

Adeus Lenin!, do alemão Wolfgang Becker, conta a história de um alemão oriental cuja mãe, uma idealista e ferrenha defensora dos
ideais socialistas da RDA, entra em coma. A mulher só acorda meses depois da queda do Muro de Berlim e da “reunificação” do país. O rapaz, então, lança mão de uma série de situações inusitadas para que a progenitora não descubra que uma Alemanha socialista não existe mais.

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Machuca, de Andrés Wood, por sua vez, se passa no Chile da Era Allende às vésperas da crise política que serviu de pretexto para o generaleco tomar o poder. Relata a tentativa do governo de socializar de forma prática e democrática a educação, colocando meninos de comunidades paupérrimas em uma escola cristã burguesa. A amizade entre dois meninos é até clichê: o rico e o pobre. Mas a relação é abordada sem sentimentalismo barato.

O bacana é que as duas produções evidenciam os muros sociais que se perpetuam na nossa vidinha fútil e neoliberal. Na Alemanha de Adeus Lenin!, ao tentar “poupar” a mãe, o jovem alemão oriental tenta, na verdade, resgatar o melhor que havia de seu antigo
país e, desta forma, minimizar a existência do muro que ainda persiste em Berlim. O lado oriental paga menos por habitação. Mas também tem mais dificuldades de conseguir emprego e ganha menos que os ocidentais.

É igual ao muro que existe entre o garoto rico e o garoto pobre de Machuca. Igual ao muro que separa o México dos Estados Unidos, que separa a Rocinha do Leblon. E que não caem com os finais felizes hollywoodianos.

9 - fevereiro - 2009 at 14:59 2 comentários

Cartão mágico

Fernando Miragaya

Litoral pernambucano, sol escaldante de maio em alguma cidadezinha perdida entre o sul de Pernambuco e o norte de Alagoas. Como insisto em sair dos roteiros estabelecidos pelos eventos, pego uma estradinha de terra e paro em uma birosca para beber uma água. E na minha mania quase compulsiva de “forasteiro curioso” de puxar conversa com os “nativos”, tento entender o que se passa naquele lugarejo para lá de humilde.

Confesso que nem me lembro o nome do lugar. Mas recordo muito bem a expressão enrugada de Arnaldo, o dono da birosca. Do tipo caladão, só consegui arrancar conversa daquele senhor com aparência cansada e a pele bronzeada por anos exposta ao sol graças, é claro, ao futebol. Ao avistar uma flâmula do Fluminense ao lado da do Náutico na parede verde, não pensei duas vezes e emendei minha paixão tricolor carregada no sotaque chiado carioca.

Com o rosto entediado ainda de frente para o nada, Arnaldo apenas virou os olhos até me encontrar encostado no balcão e desandou a falar da Máquina Tricolor. Foi a deixa para começarmos uma longa conversa, que, rapidamente, saiu do futebol. Em poucos minutos, Arnaldo fez um resumo de sua vida, mostrou fotos da família, trouxe uma camisa tricolor desbotada e me mostrou o seu “negócio”.

Foi aí que observei que nos fundos da birosca havia uma espécie de mercearia. “Foi presente do Inácio”, disse ele, enquanto eu observava a pequena lojnha com uma meia dúzia de variedades de frutas, algumas diversidades de verduras e sacos de arroz, feijão e farinha, todos da mesma marca.

Quando idealizava o tal Inácio como uma pessoa generosa e mais “abastada” no meio daquela simplicidade pungente, surge o sorriso vazio de “Tia” Maria das Dores. Odeio colocar “seu” e “dona” para me referir a pessoas, mas tomei a liberdade de chamar a velha senhora de uns 50 anos de “tia” devido à quantidade de crianças que a saudavam desta forma.

Falante, Tia Maria pegava os sacos de arroz, feijão e uma lata de óleo com o entusiasmo de um consumista fútil na Daslu. Me ofereci para ajudar a carregar algumas das compras enquanto ela se dirigia ao Arnaldo. Desenrolou a sacola plástica azul e no meio de um porta-documentos de algum candidato a vereador com sua identidade lavada pelo tempo e com fotos amareladas do que deveriam ser seus netos, pegou cuidadosamente o cartão dentro de um outro plástico como se estivesse retirando a farpa do pé de um daqueles moleques descalços que a chamavam de Tia.

Com o sorriso ainda mais vazio, sussurrou com ironia que aquele cartão era “mágico”. “Fez comida aparecer lá em casa”, brincou. A comida, na verdade, era a palavra mágica na boca ressecada daquela senhora, que me contava as agruras que passou desde a infância. “Por muito tempo, foi sopa de nada e farinha com água”, confidenciou, enquanto eu interrompia um gole de água com culpa pela minha barriga protuberante de tanto comer porcaria.

O marido vivia de poucos bicos em lavouras de latifúndios de cidades vizinhas que mal davam para chegar a três dígitos de renda mensal. Seis filhos ainda vivos e os 13 netos (“eu acho que são 13…”) foram tentar a sorte nas redondezas, enquanto sobraram mais três bocas para alimentar em sua casa. Bocas que depois de muito tempo conheceram o arroz e o feijão da Tia Maria.

“De vez em quando vem a molecada da vizinhança comer também”, fez questão de ressaltar a orgulhosa senhora. Arnaldo, embrulhava os mantimentos tão animado quanto a freguesa e lhe devolvia o cartão mágico. “Vem almoçar também meu filho. Tem lugar para mais um”. Confesso que fiquei com água na boca para provar o arroz e feijão da Tia Maria. Mas o impiedoso ponteiro no meu pulso me alertou que estava atrasado, muito atrasado. Me despedi de Arnaldo, de Tia Maria, dos “sobrinhos” da Tia Maria, do presente do Inácio, das flâmulas do Timbu e do Tricolor com toda a sorte de sentimentos.

Lembrei do episódio para escrever isso tudo apenas para entender a saraivada de críticas nos jornais, na televisão e no rádio ao Governo Federal pela ampliação do Bolsa Família. Também acho que trata-se de programa populista, eleitoreiro e assistencialista. Concordo com isso tudo. Mas é fácil, muito fácil, concordar depois de tomar café da manhã.

29 - janeiro - 2009 at 15:29 4 comentários

Todo menino é um rei

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Fernando Miragaya

Vou puxar sardinha para o meu clube de coração, mas não poderia deixar passar a figura do Thiago Silva nas últimas semanas. Em tempos de jogadores que mudam de time como quem muda de roupa, que não demonstram qualquer apreço pela torcida ou pelos fãs, chama a atenção ver as lágrimas desse jovem zagueiro do Fluminense (quer dizer, agora do Milan).

Como explicar 50 mil torcedores no Maracanã em um jogo domingo à tarde que não valia literalmente nada? Como explicar duas sessões de cinema lotadas para ver um documentário feito em três semanas sobre um jogador com apenas 24 anos de idade? A resposta pode ser: postura. Foram só dois anos no Fluminense, é verdade. Mas nesse período não se teve notícia de uma polêmica séria com Thiago Silva. Uma declaração infeliz, uma atuação displicente, uma discussão idiota, uma provocação fora de propósito, uma arrogância prematura.

Não vou falar das qualidades técnicas dele, pois isso já foi dito à exaustão. O que me chama a atenção é constatar que Thiago foi um jogador compenetrado dentro e fora de campo, obstinado pelo bom futebol, que sempre manteve respeito pela torcida, pelo clube e pelos adversários. E nesse futebol globalizado carente de ídolos, Thiago logo conquistou a torcida do Fluminense, talvez, uma das mais carentes de ídolos recentemente.

Mais do que pelos desarmes precisos, pelos lançamentos meticulosos e pela raça única, Thiago cativou pelo seu jeito simples, sincero e até modesto de ser. Uma simplicidade estampada nas lágrimas de um ainda menino. Seja de chuteiras e camisa tricolor ao ouvir seu nome ovacionado por mais de 50 mil vozes. Seja sentado em uma poltrona de cinema ao lado de centenas de fãs.

Por isso, Thiago, assim como a torcida tricolor canta, eu deixo o meu obrigado. Obrigado por chorar no Maracanã. Obrigado por beijar o escudo tricolor. Obrigado por me fazer ter um ídolo no futebol depois de tanto tempo.

18 - dezembro - 2008 at 14:50 3 comentários

Obituário de um sobrevivente

Fernando Miragaya

Outro dia, em uma conversa com uma amiga minha da mesma faixa etária (quando começamos a usar faixa etária em vez de idade é claro sinal que estamos ficando velhos), começamos a relembrar coisas da infância e da adolescência. E chegamos a uma conclusão: o pessoal da minha geração sobreviveu, literalmente.
Tudo bem gente, confesso que nasci no então Estado da Guanabara, nos Anos de Chumbo e na meia-vida do AI-5. Assisti a Máquina Tricolor em ação e me tornei Fluminense ao ver o Rivelino entortar a zaga do Vasco. No Maraca, a gente bebia Coca-Cola de máquina e Mate Leão naqueles latões, e ainda comia cachorro quente do Genial, cuja salsicha ficava exposta ao calor de 40 graus. Tudo sem qualquer fiscalização da Vigilância Sanitária. Lembro-me de quando Elvis morreu (mas será que ele morreu mesmo?). Lembro-me quando Cartola, Carmem Miranda, Vinícius de Moraes, Elis Regina, Cecília Meirelles e Garrincha morreram…
Vi pela televisão o Brasil ser campeão moral da Copa da Argentina e o ursinho Micha chorar nas Olimpíadas de Moscou. Joguei Telejogo (o primeiro videogame vendido no Brasil, da Telefunken!) e tomei Ki-Suco, um suco em pó mais artificial que Tang. E chupava balas Banda e Soft, que tinha um formato condenado e amaldiçoado por médicos, pois grudava no meio da garganta e fechava a glote. Mesmo assim, era vendida em qualquer cantina de escola ou barraquinha. Acompanhei o noticiário sobre as bombas na OAB e do RioCentro e comecei a achar que o SNI me vigiava e tinha minha ficha completa.

Pulei de alegria ao ganhar meu primeiro Autorama usado e adorava brincar de bolinha de gude no canteiro do Metrô perto de casa, repleto de ratos e sem qualquer fiscalização. Aliás, os brinquedos da nossa época não tinham qualquer selo do Inmetro e a gente se amarrava em beber a água do Aquaplay, que não tinha qualquer vedação. Cantei o hino nacional todos os dias no colégio. Fui advertido e suspenso algumas vezes na escola por desenhar uma foice e um martelo no quadro-negro. Usei Kichute para jogar bola, com aquelas travas de borracha que eram um verdadeiro crime contra os ligamentos do tornozelo. Peguei fila no cinema Carioca para ver ET (duas vezes!). Joguei Atari e entrava em rios já imundos para pegar pipa. Aliás, para fazer cerol, moía vidro na linha do trem, já que os muros eram mal conservados e qualquer um podia entrar na via férrea…

Comia sem medo os quitutes que a gente ganhava de desconhecidos no Dia de Cosme e Damião. Vivi a expectativa de uma Terceira Guerra Mundial e me assustei com o filme “The Day After”. Lembro da inauguração do Sambódromo… Freqüentei o Circo Voador quando ainda era no Arpoador e me amarrava nos shows “fumaçentos” do Celso Blues Boy. Era rato do “original” Noites Cariocas, no Morro da Urca, onde assisti um monte de bandas de BRock começarem e por onde me entranhei na mata para tentar chegar ao morro sem ter de pagar. Assisti ao Bernard dar o saque Jornada nas Estrelas, no Maracanã. Voltei várias vezes a pé para casa sozinho, às três da matina, na maior inocência e tranqüilidade.

Fui aos comícios das Diretas Já! e fiz panelaço na janela da minha casa. Fui escondido ao primeiro Rock in Rio, ao lado do RioCentro. Vi o Tancredo ser eleito pelo Congresso e morrer (ou ser morto) depois. Testemunhei a inflação diária, quando ia ao supermercado e o preço do macarrão estava Cr$ 1,50 (para quem não sabe, isso é cruzeiro) mais caro que no dia anterior e Cr$ 4,00 mais caro que há dois dias. Vi o Sarney baixar o Plano Cruzado e um monte de gente virar “Fiscal” nos supermercados. Vivi a falta de leite e de carne. Aliás, comi carne estragada da Europa e bebi aos montes um leite em pó holandês Vremilk, especialmente importado (as importações não eram liberadas) para suprir a falta de leite, para depois descobrirmos que a região das vaquinhas fornecedoras havia sido contaminada pelo acidente nuclear de Chernobyl.

Passei e levei cristal japonês no olho, que fazia a gente chorar e, por um milagre, ninguém ficou cego. Usei calça amarelo ovo com camisa de manga comprida vinho da OP e dancei new wave peitando os outros na Mamão com Açúcar, Robin Hood Pub, Mistura Fina e Help (antes de virar um puteiro). Vi pessoas dançarem com as paredes no Crepúsculo de Cubatão. Saí na porrada um sem número de vezes no Maracanã, levei bomba de gás lacrimogênio e cacetete da PM. Brinquei com mercúrio puro (que os dentistas davam para a gente brincar!) e essa porra deve estar no meu sangue até hoje. Dei calote em ônibus. Fumei Salem, um cigarro de menta 300 vezes mais cancerígeno que qualquer outro normal, enquanto meus amigos que não tinham dinheiro nem culhão para comprar loló ou maconha, cheiravam benzina e vomitavam depois.

Joguei pedras em ônibus na manifestação popular na Central do Brasil, em 1988. Bebi vodka Natasha, cerveja Malt 90, uísque Passport e caninha Pitu (sim, menor conseguia comprar bebida e cigarros sem problemas). Fui a todos os comícios do Lula no Rio de Janeiro e votei pela primeira vez para presidente, em 1989, sem medo de ser feliz. Chorei com a vitória do déspota de Maceió, com a queda do Muro de Berlim e com a Coca-Cola na China.

Ufa! Sobrevivi…

22 - agosto - 2008 at 14:00 11 comentários

A batalha

Fernando Miragaya

Ninguém mais do que eu gostaria de escrever hoje sobre glórias e vitórias. Sobre conquistas e comemorações. Só que a realidade cruel e injusta do futebol quer me forçar a lamuriar a angústia de uma noite trágica. Mas isso seria injusto. Injusto com os guerreiros do dia 2 de julho. Focar apenas alguns minutos de cobranças infelizes de pênaltis seria desmerecer os bravos tricolores, vivos e mortos, em campo, nas arquibancadas, nos bares e nas casas. Foi uma luta árdua, uma noite mágica para dizer a verdade.
Seria ainda mais injusto esquecer as batalhas vencidas anteriormente e as alegrias proporcionadas. Quando todos nos davam como vencidos e mortos, provamos nosso brio e superamos inimigos considerados imbatíveis pela opinião geral. Calamos os críticos, matamos em campo, avançamos no front.
Veio a noite de 2 de julho. E os guerreiros foram mais guerreiros do que nunca. A torcida foi mais torcida do que nunca. O verde da esperança foi mais verde do que nunca. O destino cruel, que, sabe-se lá quem traça, porém, atravessou o caminho da glória. Pesou nas chuteiras dos melhores lutadores daquela batalha na hora decisiva. Caiu de forma fria nas mãos do arqueiro. Caiu como a água que desceu dos rostos de 80 mil testemunhas vivas de uma batalha épica. Caiu como uma face vermelha em braços confortantes.
A batalha estava perdida, é verdade. Mas lançando mão do lugar-comum mais comum que existe, outras batalhas virão e a guerra perdura. E os guerreiros se postarão novamente para calar adversários e cicatrizar os corações tricolores. É o que movimenta o orgulho e a paixão pelas três cores. É o que torna o sangue mais encarnado, o verde mais esperançoso e o branco mais harmonioso. É o que nos faz ter orgulho de ser tricolor. É o que nos faz amar eternamente esse clube.
Obrigado Fluminense. Obrigado por proporcionar momentos eternos. Momentos que reforçam a nossa paixão e nossa lealdade pelo manto tricolor. Onde buscamos força para superar a dor. Onde buscamos força para as próximas batalhas. Onde buscamos força para as futuras glórias e alegrias. Que venha o próximo…

3 - julho - 2008 at 13:25 8 comentários

Aventuras paternas

Fernando Miragaya

Minha alma boêmia e rueira poderia achar essa cena inimaginável. Noite de domingo, eu e os dois herdeiros refestelados no chão do quarto assistindo televisão. Só falta mesmo minha futura esposa para dividir esse momento dominical familiar e preguiçoso. Tudo bem. Daqui a seis meses o quarteto estará fixo e completo para estes hiatos raros entre saideiras e pé na rua.
“Pai, vamos ver o DVD do ‘George, o Rei da Floresta’?”. Os olhinhos claros e a voz fina interrompem aquele ócio momentâneo e amolecem ainda mais este progenitor já tão vulnerável às investidas melosas daquela menininha. Pronto, estou eu agora refestelado no chão e assistindo ao Brendan Fraser interpretar um Tarzan abobalhado. Rio das risadas da minha filha mais do que das piadas previsíveis do longa-metragem.
Meus olhos vacilam de sono quando sinto aquela pele infantil queimar a minha. “Essa menina está quente demais ou isso é coisa de pai preocupado em excesso?”. Resolvi não me deixar enganar pelas neuroses paternas. Olho para o lado, ela continua a rir do macaco falante que usa óculos, enquanto o irmão mais velho revela todo seu tédio com os olhos perdidos na tela do televisor.
“Tão bem disposta, não está com febre não”, digo isso tentando enganar a mim mesmo. Aquela espoleta em forma de gente brinca com disposição mesmo com 40 graus. Saco o termômetro cor-de-rosa, guardado na necessaire cor-de-rosa, dentro da bolsa cor-de-rosa. “Minha filha é quase uma legalmente loira”, penso eu, em meio a um suspiro de constatação.
O termômetro digital é impiedoso e objetivo. Minhas suspeitas se confirmam e a febre agora é oficial. No relógio, 15 minutos para as 11 da noite. O pai irresponsável que não tem antitérmico em casa nem o remédio de alergia da filha agora vai pagar pela sua displicência. Com muita sorte encontrarei uma farmácia aberta a esta hora pelas redondezas. Arrisco dois telefonemas na esperança forçada de que alguma estar aberta.
Visto a primeira coisa que aparece na minha frente e ganho as ruas já certo da derrota. Olho a primeira farmácia possível de avistar do meu prédio. Obviamente que se estivesse aberta, o letreiro nada discreto chamaria minha atenção. Penso como as drogarias nesse país são espalhafatosas. A ponto de os estabelecimentos mais parecerem lojas de fast-food, vendendo saúde como se fosse um hambúrguer de qualidade e gosto discutíveis.
Arrasto meus chinelos com rapidez até a esquina. Mais uma vez, letreiros escuros. Corro os olhos pelo quarteirão e o panorama é inusitado. Uma churrascaria, duas pizzarias, dois restaurantes, um boteco, um podrão e uma lanchonete abertos. Ou seja, posso comer que nem um porco, beber até cair, mas não conseguirei um Engov.
Bem, pelo menos posso comprar uma flor para minha noiva a qualquer hora do dia, pois constato que o quiosque das plantinhas também não fecha. Curioso. Em um bairro repleto de idosos e cheio de farmácias, não tem um raio de uma drograria 24 horas para eu comprar um simples paracetamol genérico! Tijucano resignado, me dirijo ao ponto de ônibus resmungando toda a sorte de impropérios que me vem à cabeça. Destino: Saes Peña, ou “Praça”, como a raça tijucana costuma generalizar o coração comercial do bairro.
“Pelo menos, qualquer ônibus passa por lá”. Estendo a mão para o primeiro que faz a curva na rua, mas me lembro que não posso embarcar. Só estou com o cartão de débito. Bem que os coletivos poderiam começar a aceitar esse raio de dinheiro de plástico. Mas é por causa desse raio desse cartão que tenho a mania de não andar com dinheiro, sob protestos da minha mãe, que vive dizendo que um dia o ladrão vai me encher de tapa por eu estar sem grana.
Por causa do ladrão, também lembro que não consigo sacar dinheiro. Quer dizer, nenhum cidadão carioca pode tirar dinheiro na rua depois das 22h. Em uma daquelas resoluções em que se tira o sofá da sala, você não é mais assaltado ou seqüestrado entre 22h e 6h da matina. Mas também está fadado a ficar a pé.
Penso em ir a pé até “a Praça”, mas a preguiça me faz voltar para casa. Certo de que vou ter de abrir o cofrinho para juntar os níqueis e pagar a passagem de ida e de volta. O recurso é freqüente. Tanto que o cofrinho não é de porquinho nem tem cadeado. As moedas fazem barulho no bolso conforme os meus passos se apressam. Subo no ônibus com uma sensação de alívio imediato. E curto. Um estrondo sob o assoalho do coletivo provoca um frio na espinha. O ônibus quebrou no meio do caminho.
Esperar outro ônibus da mesma linha depois das 23h na Tijuca é uma tarefa para pessoas pacientes, virtude que jamais me coube. Com o dinheiro contado para a volta, não há outra alternativa senão seguir arrastando meus chinelos. Ainda mais resignado e com o vocabulário de palavrões mais extenso, vislumbro finalmente meu destino. As luzes das farmácias contrastam com as lojas apagadas e os cinemas de outrora, agora dominados pelo comércio e pela religião.
Chego rapidamente a um dos ex-cinemas, onde agora funciona uma farmácia cujo plantão se dá com os funcionários sonolentos atrás de um vidro blindado e um cilindro de ferro para entregar as mercadorias. Com dois sujeitos ainda para serem atendidos, penso na mão-de-obra que é comprar nesse esquema.
Vou até a outra farmácia, essa sim, que fica aberta plenamente 24 horas. Entro, peço os remédios e vou ao caixa já esboçando um sorriso com o dever quase cumprido e antecipando o fim de minha missão paterna. Compro até uma bala para comemorar, já que essas drogarias vendem de tudo mesmo.
Pura ilusão momentânea. O cartão de débito não passa. A máquina impiedosa diz que não há linha disponível para conectar. Lembro logo do comercial da TV do famigerado cartão que expõe uma senhora ao desagravo comercial por preencher um cheque em uma loja de plantas. E estou eu lá há 10 minutos tentando passar o cartão, sem que o cenário fique preto-e-branco de repente.
“Jorge, tem alguém usando a linha?”, pergunta a caixa da farmácia pela terceira vez ao atrapalhado companheiro de trabalho. Minha cara de irritado ganha contornos ainda mais agressivos quando um táxi estaciona na porta do estabelecimento com o rádio na estratosfera ao som de “Créu”. Juro que nunca tinha ouvido a música inteira. Agora, sou forçado a constatar o quanto a canção é idiota.
Nada de linha, nada de cartão, logo se forma uma fila e a caixa passa a atender os seguintes enquanto o Jorge tenta resolver o imbróglio do cartão. Um playboy ansioso paga uma caixa de camisinhas. Em seguida, um companheiro com a bela camisa tricolor paga o mesmo produto. Não tenho como não pensar na minha noiva e no pouco tempo que nós acabaríamos com aquela caixa de preservativos. “Todo mundo vai foder, enquanto essa porra desse cartão fode com a minha paciência ao som do Créu”.
Finalmente, consigo pagar os remédios. Agora, a missão é voltar. Os ônibus por aqui ficam mais raros conforme o passar das horas. Mas eis que surge rapidamente um 415. Entre vans e Kombis paradas no ponto para suprirem a carência dos coletivos oficiais, estico o braço. O insensível ônibus passa direto. Antes mesmo que eu soltasse o xingamento, o veículo pára 200 metros adiante. “Valeu motorista”. E saio arrastando os chinelos de forma mais rápida, pois me nego a correr atrás de ônibus (ainda mais de chinelos).
Quase alcançando o coletivo, eis que desembarcam três adolescentes para quem a noite, pelo visto, ainda vai começar. A luz de freio do ônibus se apaga e o motorista começa a arrancar para eu perceber que ele não tinha parado para mim. Antes que ele se vá totalmente, abro a mão e desfiro um golpe perfeito sobre a lataria oca da parte de trás do veículo. O estrondo não só atrai os olhares do vendedor de balas, que cochilava sob a marquise, mas serve também para o motorista frear.
A irritação é tanta que enquanto ando em direção à porta do ônibus penso nos pedidos da minha amada para relaxar. Minha fisionomia e o vigor do tapa na carroceria, porém, já denunciavam meu grau de irritação. Entro no coletivo e me deparo com uma motorista com um semblante de espanto. Viro os olhos e encontro o trocador igualmente assustado e levantando rapidamente para pegar meu dinheiro. Todos os passageiros me encaram com silêncio.
Calado e com cara de poucos amigos, me jogo no banco do ônibus e penso que realmente devo estar assustador. Gordo, cara de sono, cabelos desgrenhados, uma camisa preta com um Garfield fazendo careta e com as mangas rasgadas, a imagem de um ser estranho tatuada no braço esquerdo, short azul todo ferrado e havaianas. “Saudade da minha noiva. Com certeza ela estaria aqui rindo disso tudo e me fazendo rir”.
Exausto moralmente e fisicamente, abro a porta de casa e a pequena febril abre os braços e o sorriso em minha direção. Não está mais quente como antes. Saco o termômetro cor-de-rosa novamente. Não confio no resultado e apelo para outro termômetro, sem grandes tecnologias e mais convencional. A febre baixou.
“Pai, vamos ver o George novamente?”. As palavras em meio às gargalhadas do irmão adolescente e os olhinhos pidões da caçula me fazem achar graça da saga notívaga a qual tinha acabado de me submeter. Me fazem lembrar de outras aventuras de madrugada por conta do primogênito. E me fez ter certeza que faria tudo novamente. Inclusive, ver mais uma vez o Brendan Fraser se espatifar contra uma árvore.

22 - abril - 2008 at 17:06 5 comentários


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