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Vida que segue

Terá cura a ressaca eleitoral?

Pois, além de termos que digerir Eduardo Paes até 2012, ainda tem a constatação de que venceram os panfletos apócrifos, a imundice nas ruas, as pegadinhas nos debates, os “militantes” contratados.

Fica uma sensação de Copa de 82. Do futebol de Sócrates, Zico, Falcão e cia. que não foi páreo para a Itália de Paolo Rossi. Depois daquilo, a eficiência da defesa ganhou importância, ditando o padrão do futebol que passou a ser praticado em todo o mundo. Jogar feio deixou de ser pecado, afinal, poderia render um troféu.

“Que nem nossa seleção de 94”, sublinhou a mãe do Francisco (agora tomando parte das discussões futebolísticas!), ontem à noite, durante minha torcida para que o “modelo Paes” de campanha não vingasse.

Para não dizer que só falei de flores, a campanha de Gabeira também teve seus Chulapas, a começar pela canelada na vereadora Lucinha (que marcou o início da campanha no 2º turno). Aind’assim, é um tanto precipitado atribuir a derrota à frase infeliz do candidato verde, até porque frases infelizes não faltaram ao prefeito eleito…

Alguém aí tem um Engov?


PS: A foto do pôste, de Reginaldo Manente, ilustrou a primeira página da Folha da Tarde em 6 de julho de 1982 – dia seguinte ao Itália 3 x 2 Brasil da Copa de 82. Mais sobre a foto
aqui.
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26 - outubro - 2008 at 20:12 10 comentários

A beleza do samba

Ele não é meu compositor preferido, nem mesmo entre os compositores mangueirenses.

Mas um dos vários méritos de Cartola – centenário hoje – há de ser reconhecido aqui: em todas as suas composições, a beleza é o que há de mais emblemático. Seja quando fala de Deus, da dor-de-cotovelo, do tempo que passou, de sua Estação Primeira ou de uma improvável alegria (“Era o que faltava em mim…”).

Numa dessas metáforas para tentar simplicar as coisas, uma vez um amigo me disse que ele é como Michelangelo (preciso nas proporções e na clareza do que retrata), enquanto Nelson Cavaquinho seria uma espécie de Picasso – buscando outro tipo de beleza, menos clássica, mais “torta” e às vezes até chocante.

Cartola não fez sambinha. Não que este diminutivo tenha qualquer conotação pejorativa: os sambinhas buliçosos – ligeiros, maliciosos e dançantes – têm sua vez em repertórios “acima-de -qualquer-suspeita”, como os de Geraldo Pereira ou Dorival Caymmi.

Entre os sambas grandiosos de Cartola estão algumas composições eternas, como Acontece, Sim, Divina dama e este que, desprovido de meias-palavras, é para mim sua obra-prima. Salve mestre Cartola, salve a Mangueira!

O mundo é um moinho
Cartola

Ainda é cedo , amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo
O rumo que irás tomar
Preste atenção, querida
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a sua vida
E em pouco tempo não serás mais o que és

Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonho tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões a pó
Preste atenção, querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com teus pés

PS: Como Cartola, Nelson Cavaquinho também era de outubro, mas do dia 29. Aliás, Pelé (23) e Garrincha (28) também. Mês danado…!

11 - outubro - 2008 at 9:27 4 comentários

De novo, João Gilberto

Certa vez, um amigo dos tempos de Lance! resmungou comigo: “Não entendo esses fãs de bossa nova. Com um Pelé e um Garrincha do nível de Tom e Vinicius, ficam louvando o João Gilberto.” E me entregou o caderno especial do JB (em homenagem aos 70 anos de JG, em 2001) que tinha guardado pra mim.

João é mesmo difícil de entender. Não tem voz exuberante, veste terno marrom, é careteiro, protagoniza histórias bizarras, volta e meia falta aos shows, reclama do som, reclama do público e não “criou” a bossa nova.

Até porque, convenhamos, gênero musical não se “cria”. Não tem data e local de nascimento, como às vezes tentam nos ensinar historiadores, escritores e jornalistas. “O samba nasceu em 1917, quando Donga blá blá blá…”, “Forró vem de for all, blá blá blá…”, “No fim dos anos 50, os jovens começaram a cantar baixinho para não incomodar os vizinhos, blá blá blá…” Tudo cascata da grossa, pra facilitar a prosa, repetida em filmes, biografias e matérias.

A “voz pequena” existe desde que inventaram o microfone. Antes mesmo de Mario Reis, tantos outros cantores aproveitaram o novo recurso para trocar as notas de peito pela possibilidade de cantar com nuances. Só para ficar nos “professores” de Chet Baker, os EUA já aplaudiam o canto coloquial de Matt Dennis e Jack Smith, este último conhecido como The Whispering Baritone (o Barítono Sussurrante). Ou seja, nada de cantar baixinho por causa de vizinho.

A “batida diferente” também não nasceu com o violão de João. Esteve nas teclas de “pianeiros” como Sinhô e Romualdo Peixoto (Nonô). Ou em violões como os de Laurindo de Almeida e Garoto, que, como o pianista Johnny Alf, já faziam também harmonias “diferentes” antes da bossa nova.

Mas foi João quem juntou tudo. A voz colocada por opção (e não por limitação vocal, como se diz), a divisão à Cyro Monteiro, o violão-tamborim, as harmonias novas. Tudo a serviço de um repertório espetacular: fosse nas composições de Tom e Vinicius, fosse nos boogie-sambas de Janet de Almeida, Haroldo Barbosa e Dênis Brean, fosse na bossa-velha dos geniais Wilson Batista e Geraldo Pereira (os quais ele conheceu na noite do Rio, bem antes de Chega de saudade).

Foi pelas gravações de João, aliás, que ouvi pela primeira vez alguns dos meus compositores preferidos, como Caymmi, Ary, Bide e Marçal – além de todos os citados no parágrafo aí de cima. Ou seja: no meu HD, são dele os primeiros registros de Falsa baiana, Morena boca de ouro ou Rosa morena.

Por essas e outras, não titubeei quando uma repórter me perguntou, já de manhã, por que eu estava naquela fila abissal desde a madruga: “É o maior cantor de samba vivo.” Está certo que ainda estão por aí Paulinho da Viola, Monarco, Roberto Silva e Dorival Caymmi (outros dos meus 10+), mas esses eu já tive a honra de aplaudir.

Pois é por isso que no próximo dia 24 tratarei de vestir boa roupa, apurar os ouvidos e me cercar das melhores companhias para ir feliz da vida ao Theatro Municipal.

Só espero que João também vá.

16 - agosto - 2008 at 1:43 1 comentário

Marchínias no Norte!

Que tucupi que nada… Os patinhos e o jambu são uma beleza, viva eles, mas em Belém do Pará a camisa 10 é dos sorvetes Cairu.

Já tinham me avisado que era isso tudo e um pouco mais e, ainda assim, foi uma grata surpresa. Bacuri, açaí, castanha do Pará, tapioca… Tudo espetacular, além do preço, bem mais camarada que nosso extorsivo mil frutas. Resultado: na volta ao Rio, dezenas de caixas de isopor engrossaram a bagagem da caravana das marchinhas.

Não que o pato ao tucupi não tenha agradado ao povo. Muito pelo contrário: servido do modo tradicional ou como bolinho (na Estação das Docas, acompanhado da ótima Amazon Beer, de fabricação local), foi prato de todas as horas.

Aind’assim, foi caminhando muito (pra variar… e aliviar a culpa) que Belém – que eu só tinha experimentado através da Cerpa e dos sabonetes Phebo – virou minha grande surpresa da turnê.

A começar pelo espetáculo do dilúvio que nos recebeu por lá, digno de arca de Noé, com aqueles pingos de litro. É a famosa chuva que cai toda tarde (mas que não caiu no dia seguinte) e que faz com que as ruas precisem de canaletas – como pistas de boliche (na foto aqui à direita) – para escoar o aguaceiro.
Foi por essas ruas que, caminhando horas a fio, fiquei algumas vezes boquiaberto: com a arquitetura dos prédios remanescentes do ciclo da borracha (a maioria muito bem conservada), com o altar da Basílica de Nazaré (onde termina a famosa procissão do círio, em outubro), com o Museu Emílio Goeldi (parque que concentra espécies da flora e fauna locais).

Pelas mesmas ruas, um mundo de gente aproveitou o sol no domingo de manhã para fazer uma festa de rua das mais bonitas: era o Arraial do Pavulagem, boi das antigas com boa música pro povo dançar e azuis para todos os gostos – até os antagônicos, como torcedores de Paysandu (azul claro) e Remo (mais escuro).
Depois do boi, fui ao mercado Ver-o-Peso pra rir com as vendedoras de garrafada (“Qué spantá uiado? …cabá ca impotença? …prendê dinheiro? Vem aqui que a Tia Sueli resolve!”) e sair meio decepcionado com o resto.

Ali perto, há surpresas melhores no Forte do Presépio e na Casa das Onze Janelas – centros culturais vizinhos que guardam belos acervos.

Mais adiante na mesma beira de rio, chega-se ao Mangal das Garças, parque imperdível que tem viveiros a serem passeados pelo visitante (óia eu aê do lado!), uma vista linda do alto do Farol de Belém e um restaurante espetacular(mais um!) para o cabra repor energia com algum peixe de rio – por exemplo… o filhote grelhado com risoto de jambu!

Fechando a conta, mais um golaço de Belém: para quem for de choro, o Bar do Gilson tem uma roda de primeiríssima na sexta à noite!!!

6 - julho - 2008 at 23:33 9 comentários

Folia às pampas!

Segue o giro das marchinhas pelo Brasil.

Com mais um carnaval e outros tantos lipídios, levamos nossa mycaretha à modda antiga a Porto Alegre, que, assim como Curitiba, se encasacou até onde pôde pra brincar num Theatro São Pedro centenário e muitíssimo bem cuidado.
“O pessoallaqui não costuma abrir este palco para eventos que não sejam de música clássica”, advertiram antes do espetáculo os mesmos foliões que, bufando de tanto pular no bis (Cidade maravilhosa), arremataram assim: “Mas quem disse que esse carnaval não é clássico?”

Isso porque eles provavelmente não provaram da Torta Goya que encontramos no Café do Margs, esta sim uma clássica. Foi criada durante uma exposição de pintores espanhóis (feita de nozes diversas, maçã e licor de amêndoas) e desde então não saiu mais do cardápio.
No affan de emagrecer (pelo menos a consciência), caminhou-se um bocado: primeiro pelos arredores do hotel, muitíssimo bem localizado, perto da Praça da Alfândega. Por ali estão a Rua da Praia (que leva ao Gasômetro, na beira do Guaíba), a Casa de Cultura Mário Quintana, o Santander Cultural e o bom mercado da cidade.

Mercado que tem como carro-chefe artigos de macumba (fortíssima por lá, ao contrário do que muitos pensam), muita erva mate e roupas de gaúcho.
Outra boa caminhada foi a que fizemos até o Brique da Redenção, onde os “bagual” se encontram no domingo de manhã pra tomar chimarrão, fazer resenhas diversas e comprar artesanato (como se percebe, feirinha de artesanato dá em tudo quanto é canto). A novidade de lá foi o quentão que bebemos às pressas pra espantar o frio minuano, além da doceria Maomé, para repor as ener… calorias (numa ambrosia de lamber os beiços).
O curioso é que chegamos ao frio do domingo (10°C de manhã!!!) depois de uma sexta e um sábado ensolarados (por volta dos 25°C). Não fosse o Climatempo, estaríamos numa pior.

…como quase estivemos nas mãos do motorista da van, que, pela forma com que ignorava o sinal vermelho (a 100 por hora!), ou era daltônico ou gremista.
De volta aos assuntos etílicos, encerro o pôste com vivas à churrascaria Na Brasa (“carne de engraxar os bigodes!”, diziam os garçons), onde provei a ótima Serramalte – cerveja preferida do maestro Radamés Gnattali, ilustre filho da terra.

18 - junho - 2008 at 20:38 9 comentários

Cu-curitibando…

Desta vez não teve Durski, olho do Niemeyer e outros passatempos da primeira vez que Sassaricando foi a Curitiba, em março do ano passado.

Mas teve minha irmã, ilustríssima curitibana, pela primeira vez na cidade desde que saiu de lá, cinco dias depois de ter nascido, pra ser o que há de mais carioca na minha família. Muito, muito bacana participar da viagem rebobinada da Aninha.

Por causa dela, do jeitão despachado, das gargalhadas frouxas, do gosto pela Mangueira e pelas lantejoulas, nunca engoli o que se diz do povo curitibano: gente fria, sisuda, séria e outros impropérios.

Pra mim, Curitiba está mais para a paisagem de Carlos Careqa em Não dê pipoca ao turista, nos anos 90, que ele cantava com Arrigo Barnabé:

“Eu gosto de Cu!
…ritiba
Eu quero ir fundo
No meio do mundo
Aqui é o lugar”

Ou para a cena que vi no domingo de manhã, tremendo sol no Batel (bairro fino em que nos hospedaram), com senhorinhas de alta fidúcia saindo da igrejinha presbiteriana do século 19. Todas muito maquiadas, laqueadas, empinadas… E o mendigo de camisa do Coritiba, canequinha não mão, nem aí para a esmola. Ou não estaria berrando: “Paaaaau no cuuuu do Atléticooooo! Cuzão!” Impagável a cara das velhotas quando entendiam (ou não) o moço.

Dali saí pr’uma boa caminhada até a feirinha de artesanato do Centro Histórico, não sem antes fazer uma parada no bom Café Avenida, na Boca Maldita (onde manadas de titios discutem política, futebol, meteorologia e outros temas importantes).

Do Centro Histórico, a lembrança mais feliz é do filé aperitivo do Bar do Alemão (Schwarzwald é o nome oficial), que seria a priori um mero acompanhamento pras canecas de chope que vertíamos, eu, Aninha e Luiz – meu cunhado y companheiro de arquibancada.

O diabo do filé era tão bom (com um molho adocicado) que pedimos que chamassem o cozinheiro, para descobrirmos os ingredientes. “Vai dar não senhor, ele não vai falar”, respondeu o garçom, pro nosso espanto. Insistimos e o cabra foi mais incisivo: “Deixa eu explicar melhor pra vocês: é que o cozinheiro é mudo.” Mais um chope, então.

Outra boa comilança foi no Babilônia, onde conseguimos entrar graças à habilidade de Eduardo Dussek. Não fosse nosso anfitrião em Curitiba (onde tem um apê, família e um fusca) ficaríamos com a estupidez do moço da porta (coisa rara por lá) e no frio do lado de fora.

Frio, aliás, foi o que fez o tempo todo dentro da Ópera de Arame – belo espaço em que nos apresentamos (praticamente um iglu de vidro). Sabe lá o que é cantar marchinha a 10 graus, com vapor saindo da boca…?

Pois funcionou. Tanto que voltaremos em julho, pr’um evento fechado, só que desta vez dentro de um teatro (ufa!).

30 - maio - 2008 at 1:16 8 comentários

Sá-sá-salvador

>> O bambuzal que recebe quem deixa o aeroporto rumo à “cidade” – aquilo é uma viaaaagem! – faz lembrar a voz de Glória Bomfim cantando Paulo César Pinheiro: “Já me disse Mãe Stella / Se tu quer que ela pegue amor por tu / Tu enterra o nome dela / Amarrado no oco do bambu…”
>> Ainda nos afro-assuntos, o Dique do Tororó é outro senhor cartão (postal) de visitas pra quem chega: as imagens dos orixás sobre o espelho d’água são como o nosso Cristo Redentor. Tentei alugar um pedalinho pra ver mais de perto as estátuas de 7m (sábado de sol, fim da manhã…), mas nada do cabra aparecer.

>> Aproveitei para agradecer a honra de cantar no Teatro Castro Alves – o mesmo que eu conhecia de discos ao vivo de Caymmi (1984) e Caetano – solo (1986), com Chico (1972) e Bethânia (1978). Bethânia, aliás, ajudou a encher nossa platéia e foi homenageada no fim.
>> No restaurante Yemanjá, onde fomos sassaricar após o trabalho, as homenagens foram pro quindim servido em tigela com baba de moça (!!!). Antes, provei moqueca de tudo quanto foi jeito – peixe, camarão, siri mole, ostra – para constatar, depois, que o dendê não deixou conseqüências.

>> Ainda nos acepipes: me levaram pro Largo da Mariquita, no Rio Vermelho, e passei a gostar de acarajé – numa barraca de rua, mas com patrocínio da Tim (!!!). Gostei tanto que nem me incomodei de beber Nova Schin (a alternativa era uma tal de Nobel…). As duas cervejas, aliás, mandam nos bares de lá. Além do axé e dos ACMs, é o que a Bahia tem de pior.
>> Já o mar… Ah, o mar. O que é a temperatura nem-quente-nem-fria da água cristalina na Praia do Porto da Barra? Depois de percorrer a pé o Corredor da Vitória e a Sete de Setembro, me caiu como um troféu.
>> Com o saco cheio pro artesanato dos grandes mercados do Nordeste (quase tudo parecido, padronizado e pouco caprichado), costumo gostar mais dos comes e bebes. Só que no Mercado Modelo curti mesmo foi o subsolo – belíssimo ambiente restaurado que, reza a lenda, funcionava como prisão de escravos.

>> Outro subsolo que salvou uma visita turística foi no Solar do Unhão – antiga casa de engenho que virou museu, mas, cheio de áreas interditadas, dá aquela sensação de “que diabos vim fazer aqui”. Vale pela vista do mar (aqui do lado).
>> Ali perto, aliás, o Elevador Lacerda me proporcionou um pôr-do-sol cafona de tão bonito.
>> Foi o desfecho de uma caminhada honesta pelo Pelourinho, onde não consegui o café expresso que procurava (depois do almoço funciono assim), mas encontrei uma loja de belo artesanato e vista idem – onde dançarinos ensaiavam num palco improvisado.

9 - maio - 2008 at 12:03 7 comentários

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