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Depois de Zé Pequeno…

Leo Cosendey

seguindo idéia dada pelo grande pai do francisco neste comentário:

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4 - setembro - 2008 at 11:31 5 comentários

Leo Cosendey

Eles não são tão fofinhos quanto parecemSe bem me lembro, foi num aniversário que meu pai chegou em casa com um enorme embrulho cor-de-rosa. Fiquei ansioso: o que seria aquele presente tão grande?

— É uma bicicleta, pai?
— Que nada, rapaz, muito melhor.

Entusiasmado, comecei a rasgar o papel sem pena. Pedaços voavam para todo lado. Meus pais me olhavam com um sorriso de dever cumprido.

Quando afinal terminei de rasgar o pacote, estranhei aquele anão de rosto laranja e cabelo verde:

— Que é isso, pai?
— É um Umpa Lumpa, filhão. Vai dizer que você não conhece? Eu sempre quis ter um quando tinha a sua idade!

Olhei para o anão, que me encarava sério. Ele fedia a cigarro e estava mal barbeado — as pontas pretas nojentas surgiam por baixo da maquiagem. Olhei para meus pais, que mantinham uma expressão encorajadora e um pouco ansiosa também.

Não queria desapontá-los, coitados.

* * * * * * * * * *

No meu quarto, o Umpa Lumpa estava olhando pela janela com as mãos pra trás das costas. Depois de um tempo bem longo, virou-se e me encarou.

— O que você tem pra beber aí?
— Aqui? Nada!
— Que merda. Tem um cigarro?
— Não, sou apenas uma singela e meiga criancinha!

O Umpa Lumpa resmungou e cuspiu pro lado. Escuta aqui, ele disse. Vou sair pra comprar uns cigarros e tomar umas cervas. Tu fica quieto aqui e não me enche o saco.

Obedeci.

Em silêncio, o Umpa Lumpa foi até o quarto dos meus pais e pegou a chave do carro. Olhou pra mim com uma cara ameaçadora e saiu.

* * * * * * * * * *

Mais tarde (já era madrugada), meus pais entraram no meu quarto. Minha mãe não chorava, berrava como um bezerro sendo castrado. Acordei assustado:

— Que foi? Que foi?

Minha mãe não conseguia falar. Meu pai ficava quieto, mudo, os olhos bem abertos como se quisesse ver através das cortinas. Então ele falou, sem me olhar nos olhos:

— O Umpa Lumpa, meu filho. Ele morreu.
— Hã?
— Ele morreu, meu filho. Batida de carro. Parece que estava bêbado. Tinha mais alguém com ele. Parece que eram… prostitutas.
— …
— Como você faz isso, garoto? Como você deixou ele sair de carro sozinho, e ainda com vagabundas? Aposto que isso é influência sua!
— Mas eu…
— Seu irresponsável! Agora levanta, seu moleque! Você vai com a gente no IML!

Minha mãe berrava, uivava, gritava, gemia. Meu pai me empurrava pra me vestir. Estava começando a não gostar daquele presente.

* * * * * * * * * *

Chegamos ao IML pra fazer o reconhecimento do corpo. Quando meus pais viram aquela peruca verde começaram a chorar. Minha mãe tremia. Meu pai mantinha a cabeça baixa, as lágrimas rolando por seu rosto em silêncio.

O enterro foi no dia seguinte. Vários outros anões laranja de cabelos verdes foram à cerimônia. Eles cantavam

Umpa
Lumpa
Dumpa-di-du

E a música continuava, mas eu não entendia nada. Quando o caixote foi finalmente enterrado, eles simplesmente sumiram por entre os túmulos. Em seguida, meus pais me arrastaram até o carro. Eles não falavam mais comigo.

O silêncio durou dias, até que resolvi perguntar a meus pais o que eles queriam que eu fizesse. Não disseram nada; simplesmente me deram a peruca verde. Desde então, pelo menos uma vez por semana, tenho que me vestir de Umpa Lumpa pra eles. Minha mãe sempre chora e meu pai, suspirando, diz: “Aquele sim, faz uma falta.”

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agradecido pelo convite, senhoras e senhores. espero poder colaborar no que for possível.

2 - setembro - 2008 at 14:43 6 comentários


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