Posts tagged ‘crônica’

Apresentando Teo

 

Lucas Bandeira

Em agosto do ano passado, surgiu aqui em casa um gato. Dei a ele o nome de Teodoro, que ele parece gostar muito. Teo tem hábitos estranhos. Só dorme ouvindo Bartok, ou se leio para ele O gato por dentro. Demonstra especial prazer quando leio para ele que o relacionamento do autor com gatos o livrou de uma ignorância mortal, absoluta. Quando leio essa passagem, ele parece rir, não como o gato da Alice do livro, mas estremece o corpo, como se segurasse uma sonora gargalhada. Entre suas manias encontra-se a de roubar o controle remoto quando o pessoal de casa tenta ligar a televisão e a de dar aquela estranha risada quando vê um passarinho azul na tela do computador em que agora escrevo estas mal traçadas.

Coerente como só os gatos e os alemães podem ser, hoje, talvez cansado de me ver teclando e teclando, ele derrubou um livro que estava há dias aqui na mesinha de cabeceira e abriu na página 19. Colocou sua pata em cima da página, me deixando ler apenas as duas últimas linhas: “Antes, quando ainda havia algo como a difamada e já quase saudosa separação burguesa entre profissão e”, então tirou a pata e me permitiu virar a página: “vida privada, seria visto com desconfiança, como um intruso sem maneiras, quem perseguisse metas na vida privada. Hoje é visto como arrogante, estranho e impertinente aquele que se envolve em coisas privadas sem exibir orientação para uma meta”. Tentei parar de ler para escrever meus 140 caracteres, mas ele insistia, pulando em cima do teclado. Depois de passear por olkjiohyuhgftrdfeszwq\aaXHBJNJNJKLNLK, pisou em ENTER, e lá foi minha mensagem – ou a dele – para o mundo. Então fui obrigado a ler o resto daquele raciocínio, o mais claro que um felino pode ter. Talvez Teo esteja certo, e a meta estaria mais perto se eu escrevesse que ele dorme ouvindo Ivete, assim mesmo, sem o sobrenome, e não Bartok.

13 - abril - 2009 at 23:35 13 comentários

Capítulo 26

Lucas Bandeira

Em certo momento a gente sempre se cansa daquele simulacro de bar, com simulacros de cerveja em garrafa, simulacros de garçons, simulacro de comida de boteco. E então a gente chega a um boteco quase fechando, com dois bêbados de botequim em uma mesa, outra, quebrada, esperando a gente. Conseguimos pedir três cervejas, ficamos ali bebendo e falando falando, até que um dos dois que já estavam lá, um negro alto, puxa papo. Ele é de Leopoldina, alguns de nós também somos da região, e ele começa a se emocionar. Diz algo sobre um acidente, mas não entendemos bem e achamos prudente não pedir detalhes. O negro alto nos apresenta o dono do bar, que pergunta se somos cariocas. Não, somos de Minas e do interior do Rio. Ele, cearense, começa um discurso. Se o Rio de Janeiro nos acolheu, se estamos aqui e não em nossa terra natal, se gostamos e vamos viver o resto de nossas vidas aqui, se era no Rio que estávamos ali, todos juntos tomando cerveja às duas da manhã, então éramos cariocas.

Fomos embora, depois de o bêbado emocionado abraçar calorosamente cada um de nós, mais uma vez com lágrimas nos olhos por ter encontrado conterrâneos. Ele estava certo, eu acho, deveríamos estar todos emocionados, mas não estávamos. Ou estávamos apenas um pouco, pois fomos andando mais quietos, felizes, a noite estava valendo a pena, finalmente. E o mendigo deitado na calçada se tornava assunto, a fila na porta duma boate nos fazia virar a cara, tínhamos nos tornado pessoas diferentes daquelas que chegaram ao boteco. Entramos em nosso último destino na noite, reduto alternativo… Naquela noite em que simulávamos alegria, simulávamos bebedeira, aquilo também era um verniz, um ambiente pensado para ser o único em que poderíamos entras quase às três da amanhã, encontrar pessoas de todos os tipos – desde que fossem pessoas que gostassem de rock (mas nada muito radical, entenda-se), desde que tivessem quatro reais para pagar em cada chope –, um lugar para qualquer jovem inglês se sentir em casa, no qual eu fingia me sentir em casa.

E eu, cada vez mais alegre por dividir a noite com todas aquelas pessoas que queriam apenas que a noite existisse, me dei ao luxo de ser moralista, de ter horror de quem fuma, de ter certeza (eu falava falava) de que é o esforço que faz o amor dar prazer, por isso podemos ficar três vidas com a mesma mulher. Claro que eu falava isso para que a noite acabasse, para voltar para uma casa que não era minha e dormir numa cama que não era minha, mas com um corpo que me esperava, dentro de outro corpo que me esperava.

29 - março - 2009 at 17:22 2 comentários

Reticências

Gustavo Monteiro

Começou a escrever um texto sem sentido achando que seria o máximo publicá-lo, que as pessoas achariam o máximo e descolado e inteligente, algo assim inusitado, diferente do que a gente está acostumado a ver, algo que fosse inovador até nos meios eletrônicos, teria reconhecimento, elogios, recados de admiradores, começaria um movimento literário ou algo assim do tipo e teria seguidores ou apenas leitores entusiasmados mesmo, mas diminuiu o ritmo do texto ao imaginar que isso poderia ser uma grande besteira, que sua vida estava um tédio e por isso precisava fazer algo inovador, um texto sem pontuação e cheio de vírgulas, que não acabaria nunca, não teria fim até que alguém pusesse um ponto final, algo escrito por várias mãos, ininterruptamente, em vários locais do planeta, sim, seria um sonho, um texto coletivo e sem pontuação, onde cada um pudesse exprimir o que está sentindo, sem pensar em palavras de efeito, danem-se as palavras repetidas, dane-se a ortografia, o que valeria seria a vontade de se expressar, e assim os minutos foram passando e ele digitando sem parar, começou a perceber que era tudo uma grande besteira, uma bosta, de quem não tem nada mais nobre ou altruísta ou construtivo para fazer, e resolveu que era hora de começar a pensar em colocar o ponto final

29 - março - 2009 at 12:05 3 comentários

Alamedas

Leo Cosendey

Uma vez por ano, sempre naquele dia, ela vinha visitá-lo. Fazia tempo que não estavam mais juntos, mas ambos sentiam dever tanto um ao outro que era necessário, nem que fosse por um dia apenas, que se reencontrassem.

Sentado, sem se importar com os outros passantes, ele a esperava chegar. Viu quando ela apareceu ao longe, vindo devagar pelas alamedas cobertas de folhas secas, trazendo flores nas mãos. Ela gostava de manter aquela formalidade, o que fazia com que ele se sentisse tanto lisonjeado quanto incomodado; jamais se lembrava de dar alguma coisa a ela.

Sorriu quando percebeu que ela continuava linda, tanto quanto na época em que se apaixonaram, mais de vinte anos antes. Ela também sorriu ao vê-lo, iluminando seu rosto antes tenso — parecia não ter se acostumado a encontrar-se com ele depois de terminado o casamento. Podia sentir o incômodo que a tomava.

Afinal, encontraram-se. Ela lhe entregou as flores e o encarou por um longo tempo. Sabiam que não havia nada a ser dito. Ela havia casado novamente, tido outra filha e arranjado um emprego melhor. Já ele permanecia na mesma situação desde a separação, tantos anos antes, mas nenhum dos dois se importava com isso. Reviam-se, e isso bastava.

Ele percebeu os olhos dela ficarem úmidos e sabia que ela pensava “e se ainda estivéssemos juntos?” Lamentava. Estava tudo acabado, não havia jeito — quantos mais anos separados seriam necessários para que ela se convencesse? Ele não conseguia entender a razão de tal apego ao passado, de pensar em como seria se tivesse sido, de entristecer-se sem motivo desejando o impossível.

Uma lufada de vento fez com que ela se lembrasse de que devia ir. Fitou-o uma última vez, enxugando os olhos com as costas das mãos, sorriu incerta e se despediu com uma tristeza resignada na voz. Ele, por sua vez, não se mexeu; apenas acompanhava-a com os olhos, vendo-a se afastar com seus passos elegantes sobre as folhas secas caídas nas estreitas alamedas. Ela voltaria, ele sabia. Estaria lá novamente no ano seguinte, no mesmo dia de Finados, trazendo-lhe suas flores. E ambos, mais uma vez, lembrariam do tempo em que haviam estado juntos — como se, por um só momento, pudessem esquecê-lo.

6 - outubro - 2008 at 15:37 6 comentários


Feeds

Enquete

O que já contamos

Contador

  • 122,970 acessos

Mais caroço

Agenda

julho 2017
S T Q Q S S D
« fev    
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31