Posts tagged ‘entrevista’

Bailão do Alemão

Leo Cosendey

Na sexta-feira passada, fui ao minifestival Just a Fest, na Praça da Apoteose, que reuniu Kraftwerk, Los Hermanos, Radiohead e uns tais DJs convidados. Por sorte, moro longe e quando cheguei o show do Los Hermanos já havia terminado, o que me poupou o incômodo de passar hora e meia procurando um lugar para dormir e ainda fez com que eu chegasse bem a tempo de ver o que realmente queria: o Kraftwerk.

Como já esperava, a apresentação deles foi extremamente burocrática, com efeitos de luz e som de 40 anos atrás — nenhum problema, afinal essa é a proposta dos caras (basta ver o site deles). Mas as músicas que eu conhecia, clássicos como Autobahn, Pocket Calculator, Radioactivity e The Robots, estiveram todas presentes.

Hütter durante apresentação na Filarmônica de BerlimDepois do show, quando uma banda mais inexpressiva tocava, fui ao bar comprar uma cerveja, que custava abusivos R$5 a lata — e estudantes não tinham direito a meia — e me surpreendi ao encontrar lá um dos integrantes fundadores do Kraftwerk, o Ralf Hütter. Ele estava tendo muita dificuldade em fazer a moça do bar entender que ele queria uma cerveja quente (os alemães e suas manias) e resolvi ajudá-lo. Ele me agradeceu e eu aproveitei para emendar numa pequena entrevista, que reproduzo abaixo:

O CAROÇO: Sr. Hütter, qual é sua sensação de tocar aqui no Rio esta noite?
Ralf Hütter: Indiferente. Já tinha vindo aqui antes. (toma um gole da cerveja — Hütter se refere ao Free Jazz de 1998 e ao Tim Festival em 2004)

OC: O que você acha de sua banda ter sido escalada para tocar entre dois conjuntos de rock?
RH: Rock? Isso é um conceito muito vago. Aqueles que tocaram antes de nós pareciam mendigos tentando ganhar uns trocados. E esses que estão aí agora (aponta para o palco, onde o líder do Radiohead, Thom Yorke, geme e pula) estão ocupados demais lançando conceitos para se preocupar com música.

OC: Mas não é exatamente isso que o Kraftwerk faz?
RH: É. (toma outro gole)

OC: Com tantos avanços na música eletrônica, por que vocês mantém os mesmos sintetizadores há décadas?
RH: Porque é nosso estilo. Se começarmos a soar como os músicos eletrônicos atuais, vamos ser convidados para tocar em raves. E nós não vamos a raves, lá tem muita droga. Drogas prejudicam nosso sistema operacional, digo, nosso organismo.

OC: Por que essa fixação com robôs?
RH: Nós somos robôs.

OC: (rindo) Não, sério.
RH: Eu estou falando sério. (dá um gole prolongado, que quase acaba com a lata)

OC: Certo. Uma última pergunta: Tendo influenciado tanta gente, quem você diria que realmente pegou o espírito da coisa?
RH: O que o povo carioca chama de funk. Esses são os que chegaram mais perto da nossa proposta. Na última vez em que estive aqui, conheci o MC Sapão. O uso dele de samplers e baterias eletrônicas é simplesmente sensacional. Já combinei com ele de fazer uma nova visita amanhã. (abre a jaqueta, mostrando uma camiseta do funkeiro)

Como a cerveja já havia acabado e o show do Radiohead continuava rolando, resolvi encerrar a entrevista. Hütter ofereceu-se para transmitir nossa entrevista para meu computador pela internet, que ele consegue acessar telepaticamente por meio de suas ondas mentais cibernéticas. “Não, obrigado”, agradeci, tímido, e voltei para a multidão.

23 - março - 2009 at 16:40 7 comentários

Duas perguntas a Felipe Schuery

Lucas Bandeira

Duas perguntinhas por email para Felipe Schuery, já que falei abaixo do álbum Data Crônica, lançado apenas na internet.

1 – Como foi a idéia do Data Crônica?

Eu comecei a entrar em parafuso com essa história de overdose de informação e tecnologia quando me toquei que meus amigos tinham parado de comprar CD, os CDs estavam caros e eu não estava familiarizado com download de música. Isso foi em 2004, acho. Fiquei congelado, não comprava mais nada, mas também não baixava. Apareciam duzentas bandas novas por semana e eu lia sobre todas mas não ouvia nenhuma. Comecei a fazer música a partir dessa angústia, mas aos poucos fui aprendendo a curtir esse excesso e a lidar com a ressaca e as sequelas dele. As 14 músicas do disco vão por aí, são croniquetas de uma época regada a informação.

2 – No Lasciva, vocês já usavam MySpace e site, mas agora você decidiu partir para as outras redes sociais (como Twitter, além do blog, que parece a versão prática do que você quis dizer no álbum). Como você vê daqui para a frente a relação entre essa “blogosfera” (na falta de uma palavra melhor) e a produção cultural? Para você, disponibilizar as músicas na internet (que é o outro lado da moeda da pirataria) atrapalha ou ajuda as pessoas que estão começando a fazer música?

É ótimo poder contar com ferramentas que te ligam diretamente ao público. O mesmo no caminho inverso: quem curte acompanha, escolhe que notícias e de quem quer receber, sem intermediários. Consumir o processo (não só o fim) já é fato na geração que nasceu teclando. Ainda não temos um modelo definido de comercialização de música na era digital, mas disponibilizar na internet é tranquilamente a melhor forma para um artista independente divulgar seu trabalho. Você tem o foco, sabe aonde ir, a quem procurar, e acaba atingindo um leque imenso e diversificado de pessoas, o que não aconteceria de forma tão prática e rápida no modelo físico de distribuição. As consequências (shows, merchandising, convite para outros projetos, etc.) da formação desse público e da exposição da obra é que me parece trazer a remuneração financeira pelo trabalho. Não a sua venda em si. Estamos na correnteza, e vamos nessa.

9 - março - 2009 at 13:39 Deixe um comentário

A dieta do palhaço nas ruas

Luciana Gondim

mc31

Diante da possibilidade de proibição definitiva da venda casada de brinquedos e comida gordurosa, realizada pelas redes de fast food McDonalds, Burger King e Bobs, noticiada dois posts abaixo, O Caroço foi às ruas para ouvir as principais vítimas / beneficiários dessa decisão do Ministério Público Federal de São Paulo: as crianças.

Nossa reportagem ouviu três consumidores infantis, nascidos no ano de 2002, de diferentes áreas da pirâmide social e da cidade do Rio. Incomodamos nossos pequenos entrevistados com a pergunta: “O que você faria se não tivesse mais brinquedo no McDonalds?”.

Chyntia Camilo, carioca, filha de Marcos e Sandra Camilo, estudante da segunda série do ensino fundamental, moradora de um apartamento em área nobre no Leblon, respondeu:

“Nem no Mc Donalds da Disney ia ter mais brinquedo? É que se tiver lá, meu pai compra quando voltar do trabalho, ou espero chegar as férias e compro tudo de uma vez. Lá os brindes são mais legais”.

Emendamos a pergunta: “E para comer? Você não gosta dos hambúrgueres e da batata-frita do McDonalds?”.

“Prefiro comer cone. Japonês é muito mais gostoso”.

Matheus Paiva, carioca, filho de Paulo e Tatiana Paiva, estudante da segunda série do ensino fundamental, morador de um apartamento de classe média na Tijuca, foi o nosso segundo entrevistado. Diante da mesma pergunta, Matheus ficou na dúvida:

“Se não tiver brinquedo, vai ter o que? Nem a caixinha do Mc Lanche Feliz vai ter mais? Por quê?”.

Bruno Santos, carioca, filho de Roberto e Bete Santos, estudante da primeira série do ensino fundamental, morador de um apartamento na Cruzada São Sebastião, não hesitou diante da pergunta:

“Ué, aí eu comia hambúrguer, batata-frita, sorvete…”.

6 - março - 2009 at 21:15 4 comentários

CAROÇO entrevista: Lynn Lund

Leo Cosendey

Semanas atrás, comentei aqui sobre o filme interativo online The Outbreak, meio que numa piada sobre ele ser um guia de sobrevivência visual no caso de um ataque de zumbis real. No entanto, achei a idéia muito interessante: agora que se discutem as possibilidades de interatividade pela TV digital e como a internet pode auxiliar na distribuição de produtos culturais, seria este um passo natural na evolução do entretenimento?

Fiz, por e-mail, uma entrevista com Lynn Lund, produtora do filme (na foto ao lado, com Chris Lund, diretor do filme e seu marido). Ambos trabalham na agência de publicidade Silk Tricky, em Portland, Oregon, EUA, especializada em comerciais online interativos. Segundo ela, o mercado para filmes interativos é bastante promissor.

Quando o filme foi feito?
Ele foi rodado em abril de 2008 e a versão final e o site lançados em 20 de setembro.

Quem participou da realização?
Contratamos equipe e elenco locais de Portland, Oregon. A lista completa de créditos pode ser acessada pelo link “credits” em www.survivetheoutbreak.com.

Existem outros projetos semelhantes em desenvolvimento?
Temos algumas idéias sobre como levar este conceito a um nível adiante de interatividade, mas nada está sendo desenvolvido no momento. Estamos de volta a nossos “trabalhos oficiais” como designers de web e interatividade até terminar de planejar o próximo filme. Tomara que desta vez consigamos alguma espécie de financiamento e não tenhamos que fazê-lo do nosso bolso.

Qual seria esse “outro nível de interatividade”?
É segredo! Não podemos deixar ninguém nos passar a perna. 🙂 Você vai ter que ficar de olho.

De onde vocês tiraram a idéia de fazer um filme interativo?
Já havíamos feito diversos projetos interativos para nossos clientes envolvendo vídeo e web mas nunca neste nível. Então pensamos, por que não fazer um projeto para nós mesmos que casasse nossas duas paixões, filme e web?

Por que um filme de zumbis?
Optamos pelo terror porque achamos que é um gênero que se presta perfeitamente para este tipo de filme interativo. Quando sua vida está em jogo, como num filme de terror, os riscos não poderiam ser mais altos. Queríamos que as pessoas realmente se sentissem imersas e “vivessem” um cenário com o qual nunca estiveram cara-a-cara.

Você acha que filmes assim podem ainda ser assustadores (como Renascer dos Mortos e A Noite dos Mortos-Vivos já foram) ou os espectadores de hoje os acham muito bobos?
Acho que filmes assim podem ainda ser assustadores, porque você não estaria apenas assistindo da segurança do seu sofá ou do cinema — suas ações afetam diretamente o que acontece com os personagens na tela, então você é responsável por suas ações.

Você acha que existe um mercado para este tipo de filme?
Sem dúvida. Recebemos muito retorno de espectadores que disseram esperar por filmes assim tem tempo, e que estão ansiosos por mais. Espero que consigamos dar conta disso.

Então esta idéia poderia ser usada pela indústria do entretenimento em sua guerra contra a pirataria?
Penso que se houvesse uma forma de ganhar dinheiro com esse tipo de filmes e todos ganhassem sua quantia justa, não haveria esse tipo de problema. É necessário se pensar num novo modelo, destinado à distribuição online, para que este tipo de filme seja acessível ao grande público e que seus desenvolvedores ainda consigam retorno com seu investimento.

Você tem idéia de como isso pode ser feito? Acha que espectadores pagariam para ver um filme interativo?
Eu gostaria de ter alguma idéia brilhante sobre como as pessoas podem ganhar dinheiro com filmes na internet, mas não tenho certeza. Existem meios óbvios, como anúncios online e inserção de produtos, mas não são muito lucrativos pelo que ouvi dizer… pelo menos, não o bastante para cobrir muito além dos seus gastos. Com relação a espectadores pagarem para assistir a um vídeo interativo, acho que, conforme os valores de produção aumentam e há mais conteúdo interessante sendo criado especificamente para a web, existe um potencial para que as pessoas estejam dispostas a pagar. No momento, há por aí muito conteúdo gerado por usuários, de orçamento muito baixo (apesar de às vezes isso não importar, se a história for interessante e bem realizada) e/ou não muito bom. Há algumas jóias no meio, mas é difícil saber pelo que vale a pena pagar, ou mesmo assistir, nesse mar de vídeos disponíveis na web.

É possível que a indústria cinematográfica comece a investir nesta área?
Acho que Hollywood percebeu o fato de que a internet não é uma moda. Existem conteúdos incríveis exclusivamente online, e eles sabem o tamanho do público online. Seria estúpido ignorar o potencial desta área.

Você acha que seria capaz de sobreviver se uma “revolta” (tradução aproximada de “Outbreak”) realmente acontecesse?
Não sei se conseguiria. Até certo ponto, pode-se tomar decisões racionais e seguir linhas gerais de sobrevivência. Mas penso que muito da sobrevivência em um evento apocalíptico está fora do seu controle. Situações surgem mesmo se você não estiver preparado para elas e as conseqüências são imprevisíveis.

Você acha que o filme pode ser visto como um guia de sobrevivência no caso de um ataque real de zumbis?
Nossa teoria é a de que não existe uma maneira clara e certa de sobreviver a um ataque de zumbis. Como a vida, às vezes as decisões mais racionais podem ter os resultados mais inesperados. Assim, se houvesse uma revolta, eu definitivamente começaria atirando no cérebro deles. Se não funcionasse, aí estaríamos num grande problema…

20 - outubro - 2008 at 13:18 3 comentários


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