Posts tagged ‘histórias singelas’

Reverberação

Leo Cosendey

Estava numa daquelas sensações em que o peito explode de nervoso e dá para se ouvir o coração batendo como se fosse a polícia pondo abaixo a porta da sua sala para o achaque da semana. Suava um suor pastoso e sombrio, suor salgado e pesado, suor melado de medos passados. Tremia de medo, um medo primal primata primitivo, sozinho no escuro escondido com a faca na mão. A arma improvisada não sabia se lhe seria algo útil, mas atrás da cama, com poucas horas à frente e os malditos passos em redor, não havia muito o que pensar.

Súbito, um rangido.

Ficou sem saber de onde vinha o som, era uma estereodemência que o cercava e o sufocava num calor de sauna, umidade quente que subia pelas narinas e descia pela garganta queimando o ar que inflamava mas não podia deixar de respirar. Inspirava fogo, expirava medo, e o maldito suor pastoso pingava e empapava sua testa sua roupa sua alma. Os cabelos teimavam em cobrir-lhe a testa; tirava-os, obstinado, para enxergar o quê?, à espera, sempre à espera, dos passos que haviam se tornado vozes que haviam de tornar-se gritos que haviam de tornar-se pó. Sorriu nervoso, um esgar rancoroso que projetou-se luminoso em sua própria escuridão.

Então, o ar novo. Aberta a porta certa, a porta do quarto onde por quatro horas se escondia, o sorriso nervoso tornou-se rosto furioso e com a faca na mão fechada apertou os olhos. Eram três, dois que acompanhavam um que dizia:

— E este é o quarto principal. Tenho certeza que vocês vão adorar. É o

Um grito de pânico irrompeu no quarto silente antes que a frase pudesse acabar. Um salto silente irrompeu no quarto em pânico antes que alguém pudesse fugir. Facadas ligeiras, certeiras, inteiras, três corpos sem vida no chão empapado de sangue e suor, ecos de gritos de morte pelas paredes, reverberação. Pilhou carteiras, cartões e o que mais pôde, saiu depressa sem ter para onde, largando para trás o que já chamara lar. Filhos da puta, trio de filhos da puta, querendo comprar a casa abandonada que tanto lhe agradara ocupar.

26 - março - 2009 at 12:02 11 comentários

Aike Ku e o Sentido da Vida

Leo Cosendey

Tardinha, céu alaranjado do poente, eu bebia vinho gelado à beira da praia. Desocupados jogavam bola nas sujas areias de Charitas, senhoras iam e vinham com suas celulites balouçando ao vento, flanelinhas corriam atrás de carros para extorquir. Era uma tarde perfeita para grandes descobertas filosóficas.

Então Aike Ku apareceu, com passinhos miúdos e o boné bem preso na cabeça para não despentear seu sedoso cabelo de japonesa. Vinha carregando uma bandeja de contrabando, oferecendo-o aos passantes por preços módicos. Uma negativa ali, outra ali, Ku acabou chegando a mim. “Qué dá uma oiadinha?”, perguntou-me com sua voz fina, carregada de sotaque coreano. Olhei para Ku com ar blasê. Já ia dispensá-la quando me deparei, entre os chaveiros que apitavam, os óculos de plástico e os pingentes luminosos, bem reluzente e imponente à minha frente, com o sentido da vida.

— Quanto custa? — perguntei, trêmulo, apontando o objeto.
— É quinze reais.

Vasculhei os bolsos. Não dispunha de tanto (é mentira, dispunha, mas queria gastá-lo em mais vinho) e comecei a regatear. Ofereci dez, ela recusou, ofereci doze, ela ameaçou ir embora, ofereci treze, ela disse que não podia. Fiz então minha última oferta:

— Quinze reais, nada mais que isso.

Ela pensou por um tempo e por fim aceitou. Deu-me o sentido da vida e eu, muito feliz por ter feito um excelente negócio, entreguei-lhe o dinheiro. Sorriu daquele jeito que só as chinesas sabem e afastou-se com seus passos miúdos. Deixei o vinho de lado e fiquei contemplando o objeto. Enfim, em minhas mãos, o sentido da vida! Examinei-o por todos os lados e, por fim, com as mãos tremendo de êxtase, resolvi abri-lo.

E ele quebrou, como toda porcaria que esses malditos taiwaneses vendem na praia.

12 - fevereiro - 2009 at 11:09 5 comentários

Mariana e o senso de ridículo

Leo Cosendey


Mariana parou na frente do espelho para dar uma última ajeitada. As botas de camurça bege que iam até a metade das coxas, o vestido curto de estampa de onça amarrado com um cinto branco de fivela dourada, os cinco cordões empilhados em torno do pescoço, os brincos que esbarravam no ombro e o cabelo cor de casca de ovo estavam em ordem. Tinha certeza de que seria um arraso na naite. Aquela festa prometia.

Pensava nisso quando ouviu batidas. Não eram de carro, nem de frutas; vinham — que medo! — do quarto na área de serviço, transformado em Quarto da Bagunça por necessidade de despejar coisas que haviam se tornado inúteis. Quis ignorar o barulho, mas ele continuava, incessante, insistente e inclemente. Por fim, decidiu ir ver o que era.

Chegando no quarto, percebeu que o ruído vinha de dentro do armário onde deixava as roupas que haviam saído de moda. O que estaria ali? Seriam ratos? baratas? traças? Mariana temia por sua vida, mas sentia que devia abrir a porta. Tomou coragem, respirou fundo e puxou.

No início, só havia escuridão. Ouviu então um som de tosse e do meio das roupas velhas saiu um homem de terno cinza claro, que usava óculos de armação redonda e secava a careca com um lenço de pano escurecido. Apavorada, Mariana gritou e deu um pulo para trás, protegendo-se atrás de um pogobol. Como viu que o estranho ficava apenas ali, parado, olhando em redor, resolveu perguntar-lhe quem ele era.

— Sou seu senso de ridículo. Vim pra te impedir de sair assim.
— Por quê?
— Porque você tá ridícula, porra.
— Mas eu não me sinto ridícula.
— Quem tem que saber disso sou eu. Vai lá preparar uma bebida pra nós que eu te explico melhor.

E ela foi. Preparou duas doses de uísque com gelo no bar e sentou-se no sofá de couro de lhama ao lado do senso de ridículo, que havia posto um CD do Marvin Gaye pra tocar. Conforme iam conversando, Mariana percebia o quanto havia sido motivo de chacota durante toda sua vida por nunca ter respeitado seu senso de ridículo, e o quanto tudo passaria a ser diferente a partir daquele momento. Ele falava mais, ela ouvia mais, Marvin Gaye botava pra quebrar, o uísque rolava solto e logo ambos trepavam no tapete da sala. No fim da noite, fumando um cigarro, o senso de ridículo disse que precisava ir. Iria numa viagem de negócios, mas logo voltaria. E foi entre juras de amor eterno que ambos se despediram, ele levando cinqüentinha para pagar o táxi até a rodoviária.

Dias depois, sem receber notícias de seu senso de ridículo, Mariana soube que a festa à qual não tinha ido era, na verdade, um recrutamento de mulheres interessadas a trabalhar como putas na Holanda, recebendo em euros e tendo a carteira assinada. Havia perdido a grande chance de sua vida! Tornou-se então uma mulher amarga e desiludida, que costumava dizer “Meu senso de ridículo fodeu comigo” mas ninguém entendia por quê.

5 - fevereiro - 2009 at 10:25 4 comentários

Robesval e o Artista Amargurado

Leo Cosendey

— Papai, arranjei um namorado.

O pai, espantado, finge que não ouve. Tremendo, quase derrama a cerveja. Contorce o rosto num sorriso. “Você tem que ser compreensivo, Robesval”, lhe dizia sua mulher. “Os tempos mudaram”. E agora lá estava sua filha de quinze anos recém-completos, lhe dizendo que namorava.

— Que ótimo, filha — mentiu. — Traz ele aí um dia pra gente conhecer.
— Eu já trouxe.

O copo de cerveja caiu no chão na hora do gol do Mengão. O pai não sabia para onde olhar. Então a mãe apareceu, vinda da cozinha. Tinha cara de quem sabia que vinha merda por aí. Grossa, robusta e marrom. Na mesma hora, Robesval percebeu que tinha tomado bola nas costas e era o único a desconhecer a história toda.

— Ah… ah… ah… que… que bom, né… filha? E… cadê ele?
— Ele tá aqui — e ela apontou para a grande caixa que empurrava.
— Aqui onde? Na caixa?
— É.

Então ela tirou a tampa e de dentro dela saiu esse grande ícone da nova geração da MPB, tão talentoso quanto amargurado, que não suportava o peso de sua genialidade e vivia recluso. Isso era o de menos. O pior era que ele tinha uma barba. Uma vasta barba. Aquilo já era sacanagem.

— Que porra é essa, Malu? Quantos anos esse filhadaputa tem? — e falando com o namorado: — Escuta aqui, seu marginal, não sei o que tu tá querendo, mas vou logo te dizendo…
— Calma, Robesval. Meu amigo Robesval. Robesval, genial, sensacional, legal legal legal.

E o Grande Artista começou a fazer rimas do tipo, e no final começou a chorar e a bater com seu violão no chão até quebrá-lo. De joelhos, ele berrava “Eu não suporto! Eu não suporto! O mundo ainda não está preparado pra mim!” Robesval ficou com pena e pediu para Cidinha, sua mulher, pegar duas cervejas.

— Senta aí, rapaz. Vamos conversar.

E conversaram. O barbudo começou a explicar sobre a pureza das respostas das crianças, é a vida etc. O jogo rolava, a cerveja descia agradável, a tarde escorregava pelas paredes tornando-se laranja, depois rosa, depois preta e virou noite. Depois de enxugarem três caixas, pai e genro estavam abraçados, cantando marchinhas de carnaval. Malu, a filha, sorriu.

*   *   *   *   *   *   *   *   *   *

Já fazia bem umas três semanas que Roberval não via o namorado da filha. Assim, numa tarde de jogo, ao vê-la pegar os livros para fazer um trabalho de escola, perguntou: “Não tem mais visto o Camelo, filha?”

— A gente terminou, papai.
— O quê? Como? Mas ele era um rapaz tão bom!
— É, mas ele disse que eu já estava madura demais pra ele. Ele está em busca da pureza perfeita. Já arranjou até outra namorada.
— Sério? Quem?
— A Maisa.

O futuro de Marcelo Camelo

17 - novembro - 2008 at 16:28 9 comentários

História de uma cucaracha no exterior

Leo Cosendey

Sentada num canto escuro, ela meditava sobre sua existência vazia. Já havia chegado à metade de sua vida e, até então, não havia feito nada de muito relevante. Não viajara, não inventara, não descobrira — ocupava seu tempo na luta pela sobrevivência, a cada dia buscando o que comer. Lugar limitado esse, o mundo.

Tinha ouvido falar sobre o exterior, mas não sabia o que esperar dele. Diziam que era um lugar limpo, claro, arrumado — muito diferente da podridão fétida e úmida em que vivia. Tinha sonhos de conhecê-lo, mas conforme o tempo passava, mais convencida ficava de que ele não passava de lenda: já havia andado tanto em sua busca por comida que achava impossível haver algum lugar que não conhecesse.

Pensando nisso, lembrou-se de que ainda não havia encontrado nada naquele dia. Começou a andar, percorrendo os caminhos imundos que normalmente trilhava. No entanto, absorta em seus pensamentos, não percebeu o enorme buraco que se abria no caminho e caiu por ele.

A queda foi curta, ela não se feriu. “Foi só um susto”, como costumavam lhe dizer quando ainda era jovem. Pôs-se novamente sobre as pernas para sair do buraco e voltar ao caminho normal, mas desistiu quando percebeu que dele saía um túnel desconhecido. Olhou-o com atenção. Enfim uma novidade. Armada de coragem, começou a seguir pelo túnel, intrigada com a claridade difusa que se tornava mais forte conforme se aproximava.

Enfim, chegou ao fim do túnel, que terminava numa pequena abertura. Pondo a cabeça para fora, viu um lugar amplo, iluminado, limpo — e lembrou-se de imediato das lendas sobre o exterior. Só podia ser ali! Entusiasmada, passou pela abertura e começou a passear pelo local, os olhos marejados com tanta beleza e luminosidade. Finalmente! Depois de tanta angústia na escuridão, de tanto sofrimento na sujeira, o destino lhe dava a oportunidade de conhecer aquele paraíso imaculado.

Estava feliz. Sentia-se como se tivesse a vida inteira se preparado para aquele momento. E foi então, no auge de sua absoluta alegria, que ela foi esmagada por uma força além da sua compreensão, tão forte que partiu seu corpo ao meio. Tudo escurecia depressa, não havia mais o que fazer; ela apenas permanecia caída, as pernas para cima, contemplando suas vísceras à mostra. As últimas palavras que ouviu foram “Amor, vem ver a barata que matei no banheiro”.

6 - novembro - 2008 at 8:51 3 comentários

Teleatendimento Paraíso, bom dia

Leo Cosendey

Bem-vindo ao teleatendimento do Paraíso. Para comunicar perda ou roubo da sua alma, tecle dois. Para solicitar uma cura, tecle três. Para solicitar emprego, tecle quatro. Para consultar seu saldo divino, tecle cinco. E para falar com um de nossos atendentes, tecle nove.

Nove.

Uma voz disse “Aguarde” e foi seguida por outra gravação:

Sua mulher se transformou numa estátua de sal? Peça a nossos atendentes o livro “Curiosidade não é de Deus” e aprenda a não olhar para trás quando não deve. Na compra do livro, você ganha de brinde o premiado “100 receitas de pão ázimo”, que fez grande sucesso…

— Teleatendimento Paraíso, Anjo Falafel, bom dia. — era o atendente.
— Hã… bom dia. Estou ligando pra pedir paciência pra aturar o meu chefe.
— Pois não, senhor, qual o seu nome?
— Leandro Rosemberg.
— Número de registro da certidão de batismo?
— Hmmmmm… não sei.
— Desculpe senhor, para estarmos autorizando ajuda é necessário estarmos verificando seu cadastro, e para isso estaremos precisando desta informação.
— Tudo bem. Eu ligo mais tarde.
— A Corporação Paraíso agradece sua ligação, senhor.

Doze minutos depois, terminei de ligar de novo. Veio a gravação. Teclei nove antes que ela acabasse. “Aguarde”.

Um dilúvio está caindo em sua cidade? Encomende com um de nossos atendentes uma moderna arca! Temos modelos esportivos para profissionais arrojados, além do modelo standard para toda sua família e um casal de cada…

— Teleatendimento Paraíso, Anjo Carretel, bom dia.
— Bom dia, eu queria paciência pra aturar o meu chefe.
— Pois não, senhor, qual é o seu nome?
— Leandro Rosemberg.
— Número de registro da certidão de batismo?
— Três dois cinco nove barra oito, livro trinta e sete.
— Pois não, senhor, aguarde um momento enquanto estamos verificando seu cadastro… qual é o nome completo do titular?
— Leandro Muniz Rosemberg.
— Obrigado pela confirmação, senhor. É, realmente estou vendo em nosso banco de dados que seu chefe é mesmo difícil de agüentar.
— Por isso estou pedindo paciência. Não quero mandar ele tomar no cu e perder o emprego.
— Cuidado com o linguajar, senhor. O senhor acaba de perder um crédito divino.
— Ei!
— As Corporações Paraíso estão sempre atentas, senhor.
— Tá bom. Então, vocês podem me dar um pouco de paciência?
— Quanta o senhor quer?
— O suficiente pra permanecer no meu emprego até o fim do ano.
— Para isso é necessário consultar seu saldo divino. Aguarde um instante na linha enquanto estou fazendo a consulta.
— Tudo bem.

Silêncio.

— Obrigado por ter aguardado, senhor. Realmente, de acordo com o sistema, o senhor não possui créditos divinos o suficiente para estar recebendo uma carga de paciência extra nem até o fim do mês.
— Ih, que merda.
— E o senhor acaba de perder mais um.
— Não, não, desculpe. Hmmmm…. tem como recuperar meus créditos?
— Sim, senhor: orando, vigiando, jejuando…
— Não, mas eu quero uma forma rápida.
— Bom, na compra de nossos produtos o senhor pode estar recebendo um bônus de divindade que aumentará seu saldo.
— Ótimo. Como é que eu faço?
— Vou estar transferindo sua ligação para o setor de compras. O senhor deseja mais alguma informação?
— Não, obrigado.
— As Corporações Paraíso agradecem sua ligação. Tenha um bom dia.

Comprei uma Lembrança do Monte Sinai e um Barril Mágico de Água, que se transforma em vinho durante festas. Não foi muito caro e, melhor, pude pagar com cartão de crédito. De acordo com o setor de compras, minhas encomendas vão levar 40 dias e 40 noites pra chegar em casa, mas o melhor é que consegui um bônus divino pra durar até o fim do ano. Isso, claro, se eu perder essa maldita tendência de perder meus créditos.

Será que dizer “maldita” faz perder créditos?

É essa culpa que me mata.

18 - setembro - 2008 at 9:31 6 comentários

O ramo de almeirão

Leo Cosendey

Se beber não dirija, dizia a lei, e eu, como cidadão respeitável que tem medo de pau de arara, obedecia. Foi por isso que, depois daquele porre, resolvi voltar de táxi.

— Pra onde? — perguntou o taxista.
— Ah, sei lá — respondi. — Pra qualquer lugar. Nada mais me importa. Minha mulher me trocou por um ramo de almeirão, aquela vaca.
Lá estava o almeirão, nas mãos dela!— Sei bem como isso é. Aconteceu comigo também. Mas sei o que pode te deixar bem melhor.
— O quê?
— Vou te levar num lugar mágico, cheio de cor e música, onde todos voltam a ser crianças e sorriem, cheios de esperância e inocença — o taxista não se dava muito bem com sufixos.

Não respondi. O taxista tinha um brilho cativante no olhar, mas eu estava enjoado demais, então só me recostei. As casas passavam. Os postes piscavam. As putas me mostravam os peitos. Um duende apareceu do meu lado.

— E aí, campeão?
— Sai daqui, coisa do capeta.
— Epa, epa, epa! — o duende era o Juvenal Antena. — Eu justamente vim aqui te avisar de uma situação muito perigosa!
— Que que é?
— Esse lugar pra onde vocês estão indo… é melhor tomar cuidado! É um lugar do barulho, cheio de aventura e confusão, onde tem uma turminha da pesada que vai aprontar todas! — agora o duende era o Narrador da Sessão da Tarde.
— Ah, vai se foder, seu duende.

Aí ele se ofendeu. “Duende é o cacete. Sou um Leprechaun, porra. Da Irlanda. Legítimo.”Isto é um Leprechaun

— Sério mesmo? — eu perguntei.
— Com certeza. Olha aqui, ó — e ele mostrou, no braço, um autêntico selo de procedência irlandesa.

Na mesma hora, pedi para o taxista parar o carro. Meio a contragosto, já que a corrida seria menor, ele encostou no meio-fio. Paguei e descemos, eu e o duende leprechaun, e fomos para um bar beber e falar da vida. Sentamos no balcão, mas ele desistiu bem depressa, assim que viu que não serviam Guinness.

“Brahma me dá dor de cabeça”, foram suas últimas palavras antes de desaparecer numa nuvem de fumaça amarela. Merda de vida, pensei, sempre me tomando meus amigos. Então olhei pro lado e vi, no banco à direita, um saci que tomava uma dose de pinga.

Cheguei mais perto.

— E aí, amigão. Quer conversar? — perguntei.
— Minha vida é uma merda — ele disse. — Todo dia acordo com o pé esquerdo. É por isso que eu bebo.

Juntei-me a ele. Aquela noite foi folclórica.

8 - setembro - 2008 at 16:12 3 comentários

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