Posts tagged ‘Literatura’

Um conto, um resto de grito

Maisa Eigle
Não é verdade que só fiz ter pressa de viver. Sei bem o quanto me custou tantas vezes parar no espaço e esperar meu tempo, quase sempre descompassado dos alheios. Hoje acho que mais valeria ter corrido sem pensar, esbaforida, porque talvez a exaustão me impedisse de perceber a inexistência de meus pares aonde quer que fosse – e quem sabe adiante encontrasse a companhia dos mais solitários que eu.

Quisera aprender a me dopar de medo e a me proteger de emoções estéreis, mas meu peito, afeito a pulsações irresponsáveis, gritou paixões até o último caco. Agora, essa minha providencial rouquidão: para línguas que não cansam, bendito seja o silêncio das cordas vocais inflamadas.

Quando criança, fugi de casa antes do cinco, mas nem fui longe, só o suficiente para alargar um pouco o pequeno círculo em que me obrigavam a permanecer. Briguei desde o primário, mas meu senso de justiça me fez ter o cuidado de somente esmurrar os mais fortes. Choquei aos 11, fui processada aos 12, liderei aos 13, amei aos 14, quis morrer aos 15. Aprendi a ressuscitar aos 16, fui premiada aos 17, sumi no mundo aos 18, era profissional aos 19, admirada aos 20. Com 21 entendi que as grandes aventuras por vezes são a causa da morte por enfado. E chorei em todos os anos de vida…

De repente senti necessidade de encolher até sumir e usufruir da liberdade de perambular invisível por aí, ostentando aquele velho espinho na carne que, ao provocar uma dor incômoda, me deu uma vaga noção do que é mortalidade – apenas vaga, porque a verdade é que sempre me falhou o instinto básico da autopreservação.

Disfarcei minha força ensaiando olhares cabisbaixos, mas hoje me fazem falta certos atrevimentos desaprendidos de propósito em prol do pertencimento a um mundo de assustados. Custa caro viver de gentilezas… Mas agora que sei também de paz e mansidão, talvez reaprenda a esbofetear, a ensurdecer a todos com esses ruídos que arranham minha carne já mil vezes estraçalhada – por esperanças vãs, desejos tortos, filosofias bêbadas e amores equivocados.

Com orgulho cego dessas tantas marcas, não interpretei bem aquelas rugas do espelho. Custei a entender que algumas meninices não devem se perpetuar e a perceber o quão ridículas são certas euforias fora de época. Mas basta dessa aposta, se não ganho me jogando é porque vale mais me recolher. Já passa da hora de esquecer de tudo aquilo que não vi, mas que soube muito bem sonhar. Bem-aventurados os covardes pois, por ignorarem o céu, jamais se fodem esborrachados.

Preciso inverter os papéis, agora deixo de tanto narrar para aprender a atuar e pouco importa o fato de que provavelmente nunca haja quem me conte minha história. Preciso voltar pro meu lugar (ainda que sofra de vertigem), parar de me exaurir nessa de forjar casualidades e de inventar heróis que me salvem de mim.

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5 - junho - 2009 at 2:00 3 comentários

Quando o barro não se fez carne

Gisele Maia
Deixa eu te dizer: não acredito na pré-existência do que quer que seja. Há, sim, um nada anterior a qualquer coisa, que fica na espreita, esperando que da sua condição de pó se erga uma humanidade inteira. Não me iludo com paixões por esse pó que ainda não é, mas confesso minha vaidade de ter acreditado no poder de criar o paraíso a partir de um naco do teu corpo misturado no meu. Porque não se engane, os meus amores perfeitos são sempre os extraídos da matéria-prima preexistente em mim. Contradições…

Houve um tempo em que não quis morada fixa porque na errância encontrei o substrato para muitas vidas. Também desisti de terapias porque minhas neuroses, obsessões e dramas me provocavam a dose de desespero exata para que eu não morresse de tédio. Porque a falta – de casa, de pais, de dinheiro, de juízo e de amores –, minhas ausências todas eu transformei em impulso vital, ainda que eu ignore onde isso vai dar. Mas é só com alma de renunciante, de andrajo sem-teto, órfão e pobre, que me revisto daquela força conhecida dos que não têm o que perder. E se, por acaso, eu encontrar a fonte de tudo, pode ter certeza que, na minha sede eterna, me jogo e não volto nunca mais.

Olha, já entendi que a gente não vai se encontrar nessa vida, porque um dia eu resolvi que precisava experimentar muito, eu pus o pé na estrada e quebrei a tábua, e agora eu te vejo lá longe no teu caminho que nem no infinito vai esbarrar no meu, exacerbação dos nossos paralelismos, e compreendo que não tenho o direito de querer que você venha correndo ao meu encontro, e jamais te pediria para viver às pressas e deixar incompletos pedaços de existência fundamentais só para alimentar meus caprichos de mulher.

Vá, sim, siga o rumo e perca em paz tuas botas. Eu nunca te acusei e, na verdade, é grande a minha gratidão pelo teu desejo parco e frouxo, forte o bastante para me lembrar do pó de pura ilusão que me constitui, para me dissolver e, assim, me reinventar.

26 - março - 2009 at 1:29 6 comentários

É publicado livro que Philip K. Dick escreveria se estivesse vivo

Lucas Bandeira

Parece apenas jogada de marketing, de uma maneira um pouco mórbida: Tessa B. Dick, a quinta e última mulher do escritor de ficção científica Philip K. Dick (1928-1982, autor de Blade Runner e Minority Report), acaba de publicar (self-publishing, a nova maneira dos autores recusados pelas editoras aplacarem sua ânsia de ver seus nomes estampados numa capa de livro) The Owl in Daylight. Ao que parece, é uma história baseada em um enredo imaginado pelo autor, do qual só se tem registrado um esboço em uma carta de duas páginas. Vamos ao enredo, segundo o site Self-Publishing Review, que insiste, consultando a bola de cristal, que o romance “seria aquele que Dick escreveria se tivesse tempo”:

Sob a influência de um implante [de um chip] alienígena e do computador de um parque de diversões, o protagonista aos poucos descobre que a vida é um sonho – literalmente… Essa aventura expande nossas mentes e nos leva pelo Inferno de Dante, pela Flauta mágica de Mozart, pelo Fausto de Goethe e pela prisão em que nosso mundo se transformou.

Então bate aquela sensação de “já vi isso em algum lugar”. Na verdade, em pelo menos uma dezena de romances e filmes de ficção científica, com um gostinho de O código Da Vinci em sua didática viagem pelo inferno, pela flauta e pelo fausto. E, como não foi escrito por Philip. K. Dick, é bem compreensível a resistência das editoras.

Talvez fosse mais interessante a história de um escritor que, mesmo depois de morto, continua escrevendo (“Às vezes sinto que Phil fala comigo do túmulo…  Provavelmente apenas o conhecia demais, tanto que posso pensar como ele pensava”, afirmou Tessa Dick em entrevista), seu mundo continua em um blog, quem sabe um escritor que nunca existiu e que “baixa” em várias pessoas, como aquele diretor fantasma que usam em Hollywood quando o filme é muito ruim. Se alguém quiser, pode usar esse personagem para um romance, sem creditar a mim a ideia, claro.

O escritor Philip K. Dick escrevendo seu novo romance

O escritor Philip K. Dick escrevendo seu novo romance

17 - fevereiro - 2009 at 10:58 1 comentário

Julio Cortázar, cronópio, nos deixava há 25 anos

Lucas Bandeira

Cortázar.jpgQuarta-feira completarão 25 anos que Julio Cortázar, escritor argentino nascido em Bruxelas, mas que passou grande parte da vida viajando por diversos países (principalmente França), deixou este mundo. Ao mesmo tempo, deixava para nós em seus livros outros tantos mundos, que, mesmo para um leitor reincidente como eu, parecem não se esgotar.

Lembro até hoje quando li pela primeira vez Cortázar. Octaedo, depois Bestiário, Todos os fogos o fogo, Divertimento, Os prêmios, O jogo da amarelinha. E, a cada vez, por mais que achasse que leria mais um texto “cortaziano” – fosse realismo mágico ou ficção existencialista ou simplesmente jogos literários –, o texto sempre surpreendeu. Em outras palavras, minha relação com sua literatura foi sempre aquela que mais prazer dá ao leitor: mesmo quando pensei que o texto me confortaria, ele se recusava e me trazia surpresa, espanto, dúvidas. Foi assim com os contos em que retratava um mundo mágico – desde o vampiro ultrasensual de La outra orilla –, mas também com o engajamento poético do relato sobre a chegada dos revolucionários cubanos na ilha em Todos os fogos o fogo.

Ano passado mais uma vez Cortázar estava vivo, me surpreendendo com seu texto que pulsa sangue, tesão de escrever, prazer do texto. A Civilização Brasileira publicou A volta ao dia em oitenta mundos e Último round, dois livros em que há tudo misturado: crônica, poesia, ficção, crítica. Talvez em A volta ao dia em oitenta mundos esteja a síntese (se é que isso é possível) da literatura de Cortázar: se há tantos mundos, oitenta em apenas um dia, tantas possibilidades existenciais e literárias no mundo, por que ficarmos limitados a uma?

Italo Calvino dizia em Por que ler os clássicos que clássico é aquele livro que possibilita várias leituras. Alguns livros adicionam outro efeito multiplicativo, e a literatura de Julio é assim: dá vontade de escrever, de criar outros mundos, a sensação de que cada texto é capaz de expandir o mundo até que em nosso quarto haja mais planetas que em qualquer universo.

7 - fevereiro - 2009 at 22:47 3 comentários

A vida ficcional de Roberto Bolaño

Lucas Bandeira

Roberto Bolaño, escritor chileno morto em 2003, autor de Os detetives selvagens e 2666, foi saudado pela imprensa internacional não apenas como escritor – segundo muitos, o mais importante de sua geração na América Latina -, mas também como uma espécie de “marginal” literário. Bem, agora algumas pessoas, entre elas sua ex-mulher, dizem que não era bem assim, que sua vida era muito mais comum do que parecia.

O New York Times esmiuça a controvérsia, (disponível aqui). O mais divertido de tudo é ver a reação dos críticos americanos, que gostam tanto de mitos, talvez mais que de escritores, e com certeza mais do que de obras. E parece mesmo que Bolaño gostava de jogar com esse mito, deixando pistas falsas. Afinal, não é à toa que foi considerado o grande nome da literatura latino-americana contemporânea – a mesma literatura que deu ao mundo outro escritor que adorava brincar com sua figura pública, quase como extensão de sua obra literária: Jorge Luis Borges.

28 - janeiro - 2009 at 9:21 3 comentários

John Updike, 76 anos

Lucas Bandeira

Morreu hoje John Updike, prolífico e premiado escritor, aos 76 anos. A Folha Online já publicou um obituário (aqui, para assinantes). O do New York Times pode ser acessado aqui.

27 - janeiro - 2009 at 17:42 Deixe um comentário

Todorov e o ensino de literatura

Lucas Bandeira

Sábado, o Prosa & Verso trouxe uma matéria sobre novo livro de Todorov, teórico francês autor de Introdução à literatura fantástica e Gramática do Decamerão (no site do Globo, para assinantes). Seu novo livro, A literatura em perigo, publicado aqui pela Difel, argumenta que na França professores, críticos e mesmo escritores têm afastado leitores das obras ao priorizar uma concepção da literatura como algo afastado do mundo real.

Problema interessantíssimo, mas muito francês. Pelo menos no Brasil, o problema, embora guarde semelhanças, é bem diferente e mais simples: os professores de literatura insistem em enfiar goela abaixo dos alunos obras canônicas, e com isso literatura vira sinônimo de coisa velha, sem diálogo com nossa época.

Afinal, a literatura é um processo: o que é clássico hoje pode virar ultrapassado amanhã, e um novo livro do Luis Fernando Verissimo pode mudar tudo que entendemos como humor e outro do Daniel Galera pode se mostrar como um Bildungsroman à altura de O encontro marcado. Só quando as escolas começarem a pensar em literatura como um mundo eternamente em  mudança o interesse no Brasil por essa velha senhora pode aumentar.

E ainda existem atalhos, grandes livros de apelo irresistível. Por exemplo – apesar de as escolas ensinarem apenas literatura brasileira, e não literatura -, não custaria nada indicar para os alunos um livrinho americano que não deixa nenhum leitor impune: O apanhador no campo de centeio, de Salinger. E aposto que todos nós, leitores, temos uma listinha de “livros para a juventude” que colocaríamos no lugar dos Lusíadas e das Panóplias de Bliac.

26 - janeiro - 2009 at 8:54 2 comentários

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