Posts tagged ‘morte’

Michael Jackson está em Honduras

Luciana Gondim

zelaya
michael
E quando achamos que golpe de Estado tinha virado coisa démodé, sopraram ventos da América Central anunciando a deposição do presidente de Honduras, José Manuel Zelaya. Foi na madrugada de 28 de junho, quando muitos ainda aguardavam a ressurreição de Michael Jackson.

Zelaya foi parar na Costa Rica, por ter cometido o crime de fazer uma consulta popular sobre a possibilidade de uma Constituinte. Lá em Honduras, quem diria, ouvir o povo é ato de lesa pátria.

A novidade é que Manuel Zelaya está longe de ser um revolucionário de esquerda. Estava no poder desde 2005, pelo Partido Liberal, e ocupou importantes cargos no governo antes de assumir o posto de mandatário hondurenho. Mas em 2006 teve um arranca-rabo com o Tio Sam, quando decidiu reduzir o custo do petróleo.

Para piorar sua situação, Zelaya buscou o apoio de Hugo Chávez, e em janeiro de 2008 Honduras entrou na Petrocaribe, um acordo de cooperação energética. De quebra, Honduras se uniu à ALBA (Alternativa Bolivariana para as Américas), projeto de Chávez em contraposição à ALCA, a menina dos olhos dos Estados Unidos.

O acordo entre Venezuela e Honduras é o seguinte: Chávez prometeu vender petróleo a Honduras, com pagamento de apenas 50%. A outra metade seria paga em 25 anos, com juros muitos baixos. Com esse acordo, o Tio Sam perdeu um forte parceiro para seus lucrativos acordos de livre comércio.

De maneira que quando Zelaya resolveu consultar o povo sobre a possibilidade de uma Assembleia Nacional Constituinte, as forças armadas invadiram sua casa. Na alta cúpula do poder, não houve quem não acusasse o presidente de estar sob influência de Chávez, quando decidiu exonerar o chefe do Estado Maior, general Romeo Vásquez Velásquez, que se recusou a distribuir as cédulas para a votação popular.

Até a Corte Suprema votou contra a consulta popular e exigiu que o presidente reconduzisse o general ao seu posto. Mas ele negou. Como punição, Zelaya foi seqüestrado e lançado nos porões de Costa Rica.

Roberto Micheletti assumiu como presidente da nação hondurenha e suspendeu, logo após sua posse, os sinais de televisão e os telefones. Enquanto isso, as redes internacionais transmitiam ao vivo, para todo o planeta, o show funeral de Michael, no ginásio Staples Center, em Los Angeles.

13 - julho - 2009 at 21:28 5 comentários

Há 15 anos, o rock perdia um de seus gênios

Lucas Bandeira

Como ninguém se adiantou, publico este post, mais um da série “Há tantos anos morreu fulano de tal”. Há 15 anos, dia 5 de abril de 1994, morreu Kurt Donald Cobain, vocalista da banda Nirvana e último gênio rebelde do rock. (Depois, houve gênio e rebeldes, mas nenhuma pessoa foi as duas coisas ao mesmo tempo.)

Tive dificuldade em escolher o mais representativo, mas acabei por ficar com a última faixa do Unplugged. Não tem a força de Nevermind, mas acho que vocês vão compreender a escolha.

6 - abril - 2009 at 14:04 10 comentários

Alegria de pobre dura pouco

Leo Cosendey

Amigos leitores,

Como um dos administradores deste blog, cumpro com o difícil dever de informá-los de que ele está com seus dias contados. Eu e a Deia, minha companheira na função, recebemos, na manhã de hoje, um e-mail do WordPress (que hospeda O CAROÇO) informando que, a partir da próxima semana, o serviço deixará de ser gratuito, passando a custar US$ 29,99 por mês, mais US$ 1,99 por post publicado — já que é um blog, segundo eles, “de baixa circulação”. É claro que eles prometem mil melhoras no serviço, mas será que vale a pena? Achamos que não. Por isso, aproveitamos esta última semana grátis para anunciar a nossos leitores que, em breve, mudaremos mais uma vez de endereço. Ainda não sabemos para onde iremos, mas tenham certeza de que iremos. Não vai ser a tal crise mundial que vai nos abater.

1 - abril - 2009 at 14:38 15 comentários

Há 170 anos, nascia o maior compositor de Pskov

Mussorgsky por Ilya Repin (1881)

Lucas Bandeira

Estava na cabeça com certa citação do Nietzsche para começar este post, mas achei esta, que talvez funcione ainda melhor. Escreveu Frederico Guilherme em Ecce Homo: “Direi ainda uma palavra para os ouvidos mais atentos: o que espero realmente da música. Que seja alegre e profunda como uma tarde de outubro. Que seja singular, travessa, terna, uma doce mulherzinha de baixeza e encanto…” Acho que isso tem a ver com o sujeito de quem vou falar.

Amanhã, completam 170 anos do nascimento, em Pskov (googlem onde é isso), de Mussorgsky (Modestinho para os íntimos), que viria a ser um dos mais instigantes compositores de música erutida (ou clássica, como queiram) do século retrasado. Por algum motivo, tenho obsessão por alguns trabalhos seus. As peças de Quadros em uma exposição estão no meu panteão de obras perfeitas e concisas (ao lado do diário Incidentes, do Barthes, de alguns contos de Cortázar da fase cronópica, de fotos de Man Ray). Cada quadro proporciona no ouvinte – em mim, pelo menos – um sentimento diferente, e os “caminhos” até o quadro seguinte (pois o que ele propõe é uma caminhada por uma exposição, claro) são variações de um mesmo tema, que preparam para a passagem para outro sentimento. Muito perto daquilo que entendo por perfeição. (Baixem aqui a versão para piano, ao mesmo tempo muito mais forte e mais singela do que a orquestrada por Maurice Ravel. Para não falar do soporífero que é a adaptação para rock progressivo de Emerson, Lake & Palmer.) Há também aquela que é consederada sua obra-prima, a ópera Boris Godunov.

Se algum dia for à Rússia, lugar obrigatório de turismo

Este post não parte da importância da efeméride (para quem gosta de dados, ele morreu uma semana depois de completar 42 anos, em 28 de março de 1881, mas não creio que isso seja matéria para os jornais), e sim pela relação afetiva que tenho com Modest. E também porque ela me lembra que a intenção do autor não serve para (quase) nada quando estamos em contato com sua obra. Posteriormente, pode servir para a análise, mas só depois que entramos em contato direto com a música (ou o romance, ou o quadro, etc.).

Modest fez parte do nacionalismo musical do Grupo dos Cinco, que pretendia fazer uma música russa, a partir de elementos do folclore. Entres seus companheiros estavam Borodin e Rimsky-Korsakov. Mas a obra de Murrorgsky ultrapassa muito sua intenção nacionalista. Um exemplo: Sheherazade, de Rimsky-Korsakov, é o contrário dos Quadros. Você permanece o tempo inteiro no mesmo sentimento, até que se cansa. Já Mussorgsky podia falar da exposição de um amigo ou narrar lendas de seu país em Uma noite no Monte Calvo que obtinha aquele efeito inexplicável da música: falar sem palavras, alcançar um lugar que não conhecemos muito bem em nós mesmos.

Para completar, Mussorgsky foi um personagem interessantísimo, como dá para imaginar por esse quadro que ilustra o post. Autodidata, não dominava por completo as técnicas de composição, e apesar isso (ou por isso?) conseguia ir além das formas estabelecidas – ele se dizia contra “os sinfonistas, esses inveterados guardas de museus”. Essa liberdade seria aproveitada pelos renovadores da música francesa (Debussy, Ravel) e por compositores russos como Shostakovski. Alcóolatra, contestador embora nacionalista, muitas das composições de Mussorgsky só vieram a público depois de editadas ou orquestradas por outros compositores. Morreu na miséria, em um hospital de São Petesburgo. Para usar um lugar-comum, um personagem dostoievskiano.

Hoje e amanhã serão para mim dias Mussorgsky. Abaixo, uma amostra de como se vai do alto de uma montanha até o interior de uma sala Luís XVI em poucos compassos. E felicidade para todos, pois nesse momento é o que sinto, repetindo e repetindo a suíte no Media Player.

20 - março - 2009 at 12:10 13 comentários

Erick Lee Purkisher, 1946-2009

Leo Cosendey


Algum tempo atrás, havia falado neste mesmo blogue sobre a figura de Iggy Pop, um cara que ajudou a imagem do roque a ser o que é (na verdade, nestes tempos mercantis, o que foi). Tão louco e selvagem quanto Iggy (e com uma estética de filme de terror trash que muito me agrada, como todos sabem) era Erick Purkisher, mais conhecido como Lux Interior, líder da banda psychobilly (que aliás, deu origem a essa divisão do rock) The Cramps. Interior, que tirou seu pseudônimo, diz a lenda, de um anúncio de carro, foi se encontrar com seu grande inspirador Elvis Presley ontem, aos 62 anos, devido a uma insuficiência cardíaca. Lá se vai mais um grande performer.

Um vídeo de Lux Interior & sua gangue em ação:

6 - fevereiro - 2009 at 10:04 3 comentários

John Updike, 76 anos

Lucas Bandeira

Morreu hoje John Updike, prolífico e premiado escritor, aos 76 anos. A Folha Online já publicou um obituário (aqui, para assinantes). O do New York Times pode ser acessado aqui.

27 - janeiro - 2009 at 17:42 Deixe um comentário

Alamedas

Leo Cosendey

Uma vez por ano, sempre naquele dia, ela vinha visitá-lo. Fazia tempo que não estavam mais juntos, mas ambos sentiam dever tanto um ao outro que era necessário, nem que fosse por um dia apenas, que se reencontrassem.

Sentado, sem se importar com os outros passantes, ele a esperava chegar. Viu quando ela apareceu ao longe, vindo devagar pelas alamedas cobertas de folhas secas, trazendo flores nas mãos. Ela gostava de manter aquela formalidade, o que fazia com que ele se sentisse tanto lisonjeado quanto incomodado; jamais se lembrava de dar alguma coisa a ela.

Sorriu quando percebeu que ela continuava linda, tanto quanto na época em que se apaixonaram, mais de vinte anos antes. Ela também sorriu ao vê-lo, iluminando seu rosto antes tenso — parecia não ter se acostumado a encontrar-se com ele depois de terminado o casamento. Podia sentir o incômodo que a tomava.

Afinal, encontraram-se. Ela lhe entregou as flores e o encarou por um longo tempo. Sabiam que não havia nada a ser dito. Ela havia casado novamente, tido outra filha e arranjado um emprego melhor. Já ele permanecia na mesma situação desde a separação, tantos anos antes, mas nenhum dos dois se importava com isso. Reviam-se, e isso bastava.

Ele percebeu os olhos dela ficarem úmidos e sabia que ela pensava “e se ainda estivéssemos juntos?” Lamentava. Estava tudo acabado, não havia jeito — quantos mais anos separados seriam necessários para que ela se convencesse? Ele não conseguia entender a razão de tal apego ao passado, de pensar em como seria se tivesse sido, de entristecer-se sem motivo desejando o impossível.

Uma lufada de vento fez com que ela se lembrasse de que devia ir. Fitou-o uma última vez, enxugando os olhos com as costas das mãos, sorriu incerta e se despediu com uma tristeza resignada na voz. Ele, por sua vez, não se mexeu; apenas acompanhava-a com os olhos, vendo-a se afastar com seus passos elegantes sobre as folhas secas caídas nas estreitas alamedas. Ela voltaria, ele sabia. Estaria lá novamente no ano seguinte, no mesmo dia de Finados, trazendo-lhe suas flores. E ambos, mais uma vez, lembrariam do tempo em que haviam estado juntos — como se, por um só momento, pudessem esquecê-lo.

6 - outubro - 2008 at 15:37 6 comentários


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