Posts tagged ‘música’

We’re a Happy Family

Leo Cosendey


Semana passada, de forma completamente inesperada, trombei com um novo lançamento póstumo de uma de minhas bandas favoritas, os Ramones, que participaram do surgimento do punk e o mantiveram por 22 anos, até o fim da banda em 1996. Desde essa debandada, diversos tributos e bootlegs oportunistas foram lançados, todos (ao menos os que tive chance de ouvir) com baixa qualidade técnica e/ou artística. A maioria, portanto, um caça-níqueis justificado pela fama da banda.

Não é o caso deste lançamento. The Family Tree é um lançamento da gravadora argentina independente Music Brokers, especializada na distribuição de músicas obscuras ou não lançadas por preços populares. Com isso concordo: trata-se de um CD duplo, com estojo de papel e encarte com informações sobre datas, locais e músicos participantes das gravações — coisa fina, portanto — que me custou R$ 47,90, o que se torna ainda mais notável em tempos de crise mundial.

O cuidado com a embalagem, no entanto, não se repete na qualidade do som; muitas faixas não foram remasterizadas (não sei se por desinteresse ou impossibilidade técnica), tornando às vezes difícil diferenciar instrumentos ou mesmo entender o que está sendo cantado. Mesmo assim, o álbum vale pela proposta de criar uma “árvore genealógica” para a banda, reunindo trabalhos dos integrantes contemporâneos ou posteriores à carreira nos Ramones.

Assim, há gravações históricas (como a participação do recém-falecido Lux Interior, líder do The Cramps, no álbum solo do baixista Dee Dee Ramone, ou a participação do vocalista Joey Ramone num show do Die Toten Hosen, a mais importante banda punk alemã da história) e outras que valem pelo inusitado, como a música de inspiração tibetana cantada pelo mesmo Joey, já depois do fim dos Ramones, ou uma versão punk para “Nowhere Man”, dos Beatles.

É impossível encaixar o álbum num subgênero do rock; apesar de a maioria da músicas ter o estilo rápido e simples que caracterizou a banda, várias outras demonstram a diversidade musical de que seus integrantes eram capazes. Recomendado, portanto, não só para quem curte o que se convencionou chamar de punk, como também para ouvintes de um rock clássico num lançamento honesto — coisa rara hoje em dia.

22 - abril - 2009 at 14:52 Deixe um comentário

Spread the love II

Déia Vazquez


5 motivos pra você ouvir Bat for Lashes agora:

A Natasha Khan é gata.

A Natasha Khan é lúdica e usa cocar.

A Natasha Khan inventou um alter-ego pra compor o novo álbum “Two Suns”.

A Natasha Khan tem uma voz que derrete.

Não só eu, mas o Thom Yorke e a Bjork também pagam pau pra ela.

Recomendo ouvir na ventania com os fios de cabelo prendendo nos labios ou num dia de céu cor de rosa tomando um bloody mary.



14 - abril - 2009 at 1:48 25 comentários

Há 15 anos, o rock perdia um de seus gênios

Lucas Bandeira

Como ninguém se adiantou, publico este post, mais um da série “Há tantos anos morreu fulano de tal”. Há 15 anos, dia 5 de abril de 1994, morreu Kurt Donald Cobain, vocalista da banda Nirvana e último gênio rebelde do rock. (Depois, houve gênio e rebeldes, mas nenhuma pessoa foi as duas coisas ao mesmo tempo.)

Tive dificuldade em escolher o mais representativo, mas acabei por ficar com a última faixa do Unplugged. Não tem a força de Nevermind, mas acho que vocês vão compreender a escolha.

6 - abril - 2009 at 14:04 10 comentários

Bailão do Alemão

Leo Cosendey

Na sexta-feira passada, fui ao minifestival Just a Fest, na Praça da Apoteose, que reuniu Kraftwerk, Los Hermanos, Radiohead e uns tais DJs convidados. Por sorte, moro longe e quando cheguei o show do Los Hermanos já havia terminado, o que me poupou o incômodo de passar hora e meia procurando um lugar para dormir e ainda fez com que eu chegasse bem a tempo de ver o que realmente queria: o Kraftwerk.

Como já esperava, a apresentação deles foi extremamente burocrática, com efeitos de luz e som de 40 anos atrás — nenhum problema, afinal essa é a proposta dos caras (basta ver o site deles). Mas as músicas que eu conhecia, clássicos como Autobahn, Pocket Calculator, Radioactivity e The Robots, estiveram todas presentes.

Hütter durante apresentação na Filarmônica de BerlimDepois do show, quando uma banda mais inexpressiva tocava, fui ao bar comprar uma cerveja, que custava abusivos R$5 a lata — e estudantes não tinham direito a meia — e me surpreendi ao encontrar lá um dos integrantes fundadores do Kraftwerk, o Ralf Hütter. Ele estava tendo muita dificuldade em fazer a moça do bar entender que ele queria uma cerveja quente (os alemães e suas manias) e resolvi ajudá-lo. Ele me agradeceu e eu aproveitei para emendar numa pequena entrevista, que reproduzo abaixo:

O CAROÇO: Sr. Hütter, qual é sua sensação de tocar aqui no Rio esta noite?
Ralf Hütter: Indiferente. Já tinha vindo aqui antes. (toma um gole da cerveja — Hütter se refere ao Free Jazz de 1998 e ao Tim Festival em 2004)

OC: O que você acha de sua banda ter sido escalada para tocar entre dois conjuntos de rock?
RH: Rock? Isso é um conceito muito vago. Aqueles que tocaram antes de nós pareciam mendigos tentando ganhar uns trocados. E esses que estão aí agora (aponta para o palco, onde o líder do Radiohead, Thom Yorke, geme e pula) estão ocupados demais lançando conceitos para se preocupar com música.

OC: Mas não é exatamente isso que o Kraftwerk faz?
RH: É. (toma outro gole)

OC: Com tantos avanços na música eletrônica, por que vocês mantém os mesmos sintetizadores há décadas?
RH: Porque é nosso estilo. Se começarmos a soar como os músicos eletrônicos atuais, vamos ser convidados para tocar em raves. E nós não vamos a raves, lá tem muita droga. Drogas prejudicam nosso sistema operacional, digo, nosso organismo.

OC: Por que essa fixação com robôs?
RH: Nós somos robôs.

OC: (rindo) Não, sério.
RH: Eu estou falando sério. (dá um gole prolongado, que quase acaba com a lata)

OC: Certo. Uma última pergunta: Tendo influenciado tanta gente, quem você diria que realmente pegou o espírito da coisa?
RH: O que o povo carioca chama de funk. Esses são os que chegaram mais perto da nossa proposta. Na última vez em que estive aqui, conheci o MC Sapão. O uso dele de samplers e baterias eletrônicas é simplesmente sensacional. Já combinei com ele de fazer uma nova visita amanhã. (abre a jaqueta, mostrando uma camiseta do funkeiro)

Como a cerveja já havia acabado e o show do Radiohead continuava rolando, resolvi encerrar a entrevista. Hütter ofereceu-se para transmitir nossa entrevista para meu computador pela internet, que ele consegue acessar telepaticamente por meio de suas ondas mentais cibernéticas. “Não, obrigado”, agradeci, tímido, e voltei para a multidão.

23 - março - 2009 at 16:40 7 comentários

Há 170 anos, nascia o maior compositor de Pskov

Mussorgsky por Ilya Repin (1881)

Lucas Bandeira

Estava na cabeça com certa citação do Nietzsche para começar este post, mas achei esta, que talvez funcione ainda melhor. Escreveu Frederico Guilherme em Ecce Homo: “Direi ainda uma palavra para os ouvidos mais atentos: o que espero realmente da música. Que seja alegre e profunda como uma tarde de outubro. Que seja singular, travessa, terna, uma doce mulherzinha de baixeza e encanto…” Acho que isso tem a ver com o sujeito de quem vou falar.

Amanhã, completam 170 anos do nascimento, em Pskov (googlem onde é isso), de Mussorgsky (Modestinho para os íntimos), que viria a ser um dos mais instigantes compositores de música erutida (ou clássica, como queiram) do século retrasado. Por algum motivo, tenho obsessão por alguns trabalhos seus. As peças de Quadros em uma exposição estão no meu panteão de obras perfeitas e concisas (ao lado do diário Incidentes, do Barthes, de alguns contos de Cortázar da fase cronópica, de fotos de Man Ray). Cada quadro proporciona no ouvinte – em mim, pelo menos – um sentimento diferente, e os “caminhos” até o quadro seguinte (pois o que ele propõe é uma caminhada por uma exposição, claro) são variações de um mesmo tema, que preparam para a passagem para outro sentimento. Muito perto daquilo que entendo por perfeição. (Baixem aqui a versão para piano, ao mesmo tempo muito mais forte e mais singela do que a orquestrada por Maurice Ravel. Para não falar do soporífero que é a adaptação para rock progressivo de Emerson, Lake & Palmer.) Há também aquela que é consederada sua obra-prima, a ópera Boris Godunov.

Se algum dia for à Rússia, lugar obrigatório de turismo

Este post não parte da importância da efeméride (para quem gosta de dados, ele morreu uma semana depois de completar 42 anos, em 28 de março de 1881, mas não creio que isso seja matéria para os jornais), e sim pela relação afetiva que tenho com Modest. E também porque ela me lembra que a intenção do autor não serve para (quase) nada quando estamos em contato com sua obra. Posteriormente, pode servir para a análise, mas só depois que entramos em contato direto com a música (ou o romance, ou o quadro, etc.).

Modest fez parte do nacionalismo musical do Grupo dos Cinco, que pretendia fazer uma música russa, a partir de elementos do folclore. Entres seus companheiros estavam Borodin e Rimsky-Korsakov. Mas a obra de Murrorgsky ultrapassa muito sua intenção nacionalista. Um exemplo: Sheherazade, de Rimsky-Korsakov, é o contrário dos Quadros. Você permanece o tempo inteiro no mesmo sentimento, até que se cansa. Já Mussorgsky podia falar da exposição de um amigo ou narrar lendas de seu país em Uma noite no Monte Calvo que obtinha aquele efeito inexplicável da música: falar sem palavras, alcançar um lugar que não conhecemos muito bem em nós mesmos.

Para completar, Mussorgsky foi um personagem interessantísimo, como dá para imaginar por esse quadro que ilustra o post. Autodidata, não dominava por completo as técnicas de composição, e apesar isso (ou por isso?) conseguia ir além das formas estabelecidas – ele se dizia contra “os sinfonistas, esses inveterados guardas de museus”. Essa liberdade seria aproveitada pelos renovadores da música francesa (Debussy, Ravel) e por compositores russos como Shostakovski. Alcóolatra, contestador embora nacionalista, muitas das composições de Mussorgsky só vieram a público depois de editadas ou orquestradas por outros compositores. Morreu na miséria, em um hospital de São Petesburgo. Para usar um lugar-comum, um personagem dostoievskiano.

Hoje e amanhã serão para mim dias Mussorgsky. Abaixo, uma amostra de como se vai do alto de uma montanha até o interior de uma sala Luís XVI em poucos compassos. E felicidade para todos, pois nesse momento é o que sinto, repetindo e repetindo a suíte no Media Player.

20 - março - 2009 at 12:10 13 comentários

Duas perguntas a Felipe Schuery

Lucas Bandeira

Duas perguntinhas por email para Felipe Schuery, já que falei abaixo do álbum Data Crônica, lançado apenas na internet.

1 – Como foi a idéia do Data Crônica?

Eu comecei a entrar em parafuso com essa história de overdose de informação e tecnologia quando me toquei que meus amigos tinham parado de comprar CD, os CDs estavam caros e eu não estava familiarizado com download de música. Isso foi em 2004, acho. Fiquei congelado, não comprava mais nada, mas também não baixava. Apareciam duzentas bandas novas por semana e eu lia sobre todas mas não ouvia nenhuma. Comecei a fazer música a partir dessa angústia, mas aos poucos fui aprendendo a curtir esse excesso e a lidar com a ressaca e as sequelas dele. As 14 músicas do disco vão por aí, são croniquetas de uma época regada a informação.

2 – No Lasciva, vocês já usavam MySpace e site, mas agora você decidiu partir para as outras redes sociais (como Twitter, além do blog, que parece a versão prática do que você quis dizer no álbum). Como você vê daqui para a frente a relação entre essa “blogosfera” (na falta de uma palavra melhor) e a produção cultural? Para você, disponibilizar as músicas na internet (que é o outro lado da moeda da pirataria) atrapalha ou ajuda as pessoas que estão começando a fazer música?

É ótimo poder contar com ferramentas que te ligam diretamente ao público. O mesmo no caminho inverso: quem curte acompanha, escolhe que notícias e de quem quer receber, sem intermediários. Consumir o processo (não só o fim) já é fato na geração que nasceu teclando. Ainda não temos um modelo definido de comercialização de música na era digital, mas disponibilizar na internet é tranquilamente a melhor forma para um artista independente divulgar seu trabalho. Você tem o foco, sabe aonde ir, a quem procurar, e acaba atingindo um leque imenso e diversificado de pessoas, o que não aconteceria de forma tão prática e rápida no modelo físico de distribuição. As consequências (shows, merchandising, convite para outros projetos, etc.) da formação desse público e da exposição da obra é que me parece trazer a remuneração financeira pelo trabalho. Não a sua venda em si. Estamos na correnteza, e vamos nessa.

9 - março - 2009 at 13:39 Deixe um comentário

O excesso de informação, por Felipe Schuery

Lucas Bandeira

A egotrip na capa

A egotrip na capa

Acabo de receber pelo Twitter, no meio de dezenas de “what they are doing’s”, a informação de que, depois do fim da banda Lasciva Lula (com uma década de estrada) e de virar um estrangeiro em Londres, Felipe Schuery volta com um novo álbum, Data Crônica (as músicas estão disponíveis aqui). É um disco (será que essa palavra ainda serve?) conceitual. As letras refletem sobre algo que todos nós hoje vivemos, ainda mais nós que navegamos pela blogosfera: o excesso de informação e a necessidade de encontrar meios de filtrar tudo isso e produzir algo pessoal. Prestem atenção e com certeza vocês vão se reconhecer em muitos momentos desse personagem afogado (e apaixonado) pela informação, que diz “Por favor, encurta o romance, quero séries não quero  filmes, bastam as manchetes dos jornais” em “Pílulas, drágeas e comprimidos”. Uma egotrip como toda a net (em que até o jornalismo se tornou extremamente pessoal): a minha angústia é a angústia de todos.

Quem conhece o som do Lasciva vai notar bastante semelhança na sonoridade, mas Schuery está pegando mais leve no vocal e ele incluiu algumas influências que não cabiam na banda (como a declarada de João Bosco na primeira faixa, “Pico intranet”, com certeza o destaque do álbum, ao lado da última, “Cem/sem”, quase-libelo contra a obrigação de sempre “estar antenado”).

Data Crônica mostra os dois lados desse mundo em que a informação virou o pão nosso de cada dia: a indigestão, mas também a libertade de transitar entre Londres e Rio de Janeiro numa simples tecla de “update”.

Atualização: O MySpace do cara, em que ele colocou seis músicas: http://www.myspace.com/felipeschuery

9 - março - 2009 at 10:39 2 comentários

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