Posts tagged ‘poesia’

Raimundo: um conto Natalino

Marcelo Valle

Salve Henfil!!!

Salve Henfil!!!

Brejo é um lugar alagadiço, cheio de lama.
Lugar onde vive o sapo.
O sapo pra quem não sabe é um bicho esquisito.
Vive meio na terra, meio na água.
Não tem pescoço nem rabo.
Sapo não fala,sapo coaxa!
Sapo não sabe fazer poesia.
Poesia é a arte do poeta.
Abstrata ou concreta.
Direta ou indireta.
Aparente ou discreta.
Pode ser presa a uma forma ou liberta.
Todo mundo é poeta!
Pra ser poeta não é preciso escrever,
basta transformar o que se sente e o que se vê em poesia.

Raimundo também vive no brejo, mas não é sapo.
Raimundo vive numa casinha cercada de sapos.
Raimundo engole sapos! Raimundo é pobre!
Pobre é quem não tem riqueza, pobre só tem pobreza.
Pobre é quem trabalha muito e pouco ganha.
Pobre é maltratado, explorado e esquecido.
Pobre não tem dinheiro.
Raimundo é pobre e , sem saber, é poeta!
É poeta porque sabe transformar tristeza em alegria.
Pobre também é gente…

Raimundo quando criança acreditava em Papai Noel!
Papai Noel sempre se esqueceu de Raimundo.
Raimundo cresceu e esqueceu de Papai Noel.

Papai Noel é rico, trabalha pouco e ganha muito.
Papai Noel é dono de uma fábrica de presentes.
É um velhinho gordo e contente.
Vive em um lugar frio, em outro continente.
É barbudo e usa roupa vermelha e quente.
Anda sempre carregando um saco de presentes.

Papai Noel caiu no brejo, lugar onde vivem os sapos e Raimundo.
Papai Noel , coitado, ficou atolado.
Papai Noel tinha muitos presentes pra entregar, ficou preocupado.
Chamou Raimundo e disse:
_Vai Raimundo, entregar os presentes.
Raimundo foi.
Papai Noel engoliu muitos sapos.
Nesse dia o pobre foi lembrado.
Raimundo girou o mundo.
E lembrou de todo mundo, não esqueceu ninguém.
Brejo,beco,mangue.
Viadutos, favelas, ruas…
Muita gente estranhou: que papai Noel diferente!
É magro, é sujo..é gente!
E naquele dia Papai Noel existiu pra todo mundo!

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14 - abril - 2009 at 12:49 7 comentários

Chamem o Affonso Romano de Santana

Lucas Bandeira


9 - março - 2009 at 9:34 Deixe um comentário

Debret e poesia em releituras animadas

Olívia Bandeira de Melo

Já foi postada neste blog a animação em 3D do quadro Guernica, de Picasso (veja aqui). No post, Lucas chama a atenção para a nova obra que surge quando a famosa pintura sobre a Guerra Civil Espanhola se transforma em Guernica 3D pelas mãos de um especialista em computação gráfica.

A releitura de obras em computação gráfica ganhou fôlego, nos últimos anos, pelas facilidades tecnológicas. Já vi inúmeros exemplos, mas publico abaixo dois que me chamaram bastante atenção. Os dois estão relacionados à introdução das novas tecnologias de forma criativa na educação.

O primeiro, Viagem Pitoresca, mistura animação e vídeo para fazer um diálogo entre a escravidão no Brasil e as políticas recentes de inclusão digital. A animação tem como base as pranchas (desenhos) feitas pelo pintor francês Debret em sua viagem ao Brasil, de 1816 a 1831, e publicadas na França, em 1834, na série de três volumes Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil. O vídeo foi dirigido por Fernando Mozart e, junto com um livro sobre o tema da escravidão no Brasil, escrito por historiadores da UFF e da UFRJ, faz parte do kit Uma viagem pitoresca – de Debret às escolas do século XXI. Produzido pela MULTIRIO – Empresa Municipal de Multimeios da prefeitura do Rio de Janeiro, o material foi distribuído para as escolas públicas da rede municipal.

Um diferencial deste vídeo é o som, como podemos ver neste link.

Já a animação Estações foi inspirada no soneto de mesmo nome, escrito pelo poeta Henrique Rodrigues e publicado no livro A musa diluída (Editora Record, 2006). Diferentemente de Guernica 3D e de Viagem pitoresca, elaborados por profissionais, o vídeo foi feito por um grupo de estudantes de segundo grau de uma escola do Rio de Janeiro, utilizando o game The Sims 2. Sobre o vídeo, publicado no Youtube e reproduzido abaixo, o poeta escreveu:

De certa forma, esses exemplos servem para calar a boca dos maniqueístas que colocam de um lado a “sociedade da imagem” e no outro extremo a que seria “letrada”, como se fossem auto-excludentes. (…) Os leitores sempre sabem o que fazer, por isso se renovam.
Coisas simples e relevantes como essa é que fazem valer a pena ser escritor – atividade muitas vezes incompreendida ou romantizada.

1 - março - 2009 at 15:42 5 comentários

A teus pés

Olívia Bandeira de Melo

Ontem já havia me lembrado dela, sem nem desconfiar que hoje é aniversário de sua morte. (Não consigo guardar datas.) Lembrei-me quando, num pequeno intervalo de 30 minutos, no meio da tarde e não sem motivo, fui tomada por sentimentos diferentes e contraditórios, de uma intensidade tão grande que precisei anotá-los no caderninho azul:

Hoje de manhã, no jornal fechado desde a véspera, me deparei com ela, em foto em que aparece, como tantas vezes, de óculos escuros. A reportagem (revista “Megazine”, O Globo, 28/10/2008) convidava para o lançamento do livro Antigos e soltos (Instituto Moreira Salles), reunindo poemas, fragmentos de diário, anotações, relatos de viagens, bilhetes e cartas inéditos. Gêneros que Ana Cristina César, uma das poetas da chamada “geração mimeógrafo” dos anos 70, brincou, com beleza e sensibilidade, de misturar. Podem ser encontrados também em livros como A teus pés, Luvas de pelica, Cenas de abril, Correspondência completa, Inéditos e dispersos, Escritos no Rio (este de artigos, textos acadêmicos e depoimentos).
A matéria da Megazine dizia que Ana C. continua por aí, influenciando novos poetas.

Vacilo da vocação

Precisaria trabalhar – afundar –
– como você – saudades loucas –
nesta arte – ininterrupta –
de pintar –

A poesia não – telegráfica – ocasional –
me deixa sola – solta –
à mercê do impossível –
– do real.

Sexta-feira da paixão

Alguns estão dormindo de tarde,
outros subiram para Petrópolis como meninos tristes.
Vou bater à porta do meu amigo,
que tem uma pequena mulher que sorri muito e fala
pouco, como uma japonesa.
Chego meio prosa, sombras no rosto.
Não tenho muitas palavras como pensei.
“Coisa ínfima, quero ficar perto de ti”.
Te levo para a avenida Atlântica beber de tarde
e digo: está lindo, mas não sei ser engraçada.
“A crueldade é seu dilema…”
O meu embaraço te deseja, quem não vê?
Consolatriz cheia de vontades.
Caixa de areia com estrelas de papel.
Balanço, muito devagar.
Olhos desencontrados: e se eu te disser, te adoro,
e te raptar não sei como dessa aflição de março,
bem que aproveitando maus bocados para sair do
esconderijo num relance?
Conheces a cabra-cega dos corações miseráveis?
Beware: esta compaixão é
é paixão.

29 - outubro - 2008 at 14:58 3 comentários

Prendam! A palavra é “flor”!

Olívia Bandeira de Melo

Estamos acostumados a comemorar as maravilhas da internet. Rede aberta, colaborativa, sem censura, na qual todos podemos falar e ouvir, ver e ser vistos, etc. Pouco discutimos ou pensamos sobre as possibilidades de censura e criminalização que já acontecem e podem aumentar caso leis como a do senador Eduardo Azeredo sejam aprovadas.
Pois ontem, lendo a revista Caros Amigos (depois de meses sem comprar um exemplar), me deparei com um interessante soneto do Glauco Mattoso – poeta, em suas próprias palavras, “cego punk” -, com o qual tenho certeza que muitos se identificarão:

Soneto detectado [721]

Poeta que conheço é redator
num órgão cujo “emeio” tem censura.
Qualquer palavra insólita ou impura
será denunciada ao Superior.

Mas é o computador que a ser censor
se arvora e escolhe a esmo o que dedura.
Um vírus desse tipo não tem cura,
e o termo interditado agora é “flor”!

Coitado do poeta! Proibido
de usar seu mais cromático instrumento
verbal! Por tal critério, não duvido

que, em vez de “passarinha”, esse luxento
programa um “passarinho” tenha lido
e o vete de voar livre no vento…

15 - outubro - 2008 at 11:40 Deixe um comentário


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