Posts tagged ‘prosa & verso’

Desemprego, jornais e telemarketing

Olívia Bandeira de Melo

images O Brasil possui cerca de 2 milhões de desempregados, segundo dados do IBGE de abril de 2009. Pesquisa realizada pelo Datafolha com jovens entre 16 e 25 anos de todo o país mostra que a principal preocupação de 33% dos pesquisados é com trabalho e realização profissional. O percentual sobre para 55% entre os jovens com 16 ou 17 anos. Ou seja, o assunto trabalho interessa a amplos setores da sociedade. Por isso, lamento que uma boa discussão sobre o tema promovida pelo jornal O Globo se limite ao seu suplemento literário Prosa & Verso, publicado no último sábado (acesso aqui, para assinantes).
O caderno traz depoimentos, entre outros, do economista Marcio Pochmann, do pensador britânico Richard Sennet, do professor do departamento de Sociologia da USP Ruy Braga, e do presidente do sindicato dos metalúrgicos do ABC, Sérgio Nobre. Os entrevistados discutem as mudanças no que se entende por trabalho diante da crise do capitalismo e das novas tecnologias de produção e de informação; falam da renovação do debate sobre proteção social e dos desafios postos ao movimento sindical que, segundo Sérgio Nobre, precisa se internacionalizar.
Não entendo por que o debate mais aprofundado se restringe a um caderno sobre livros, voltado para um público específico e de fim de semana, em vez de ser debatido nos cadernos diários, que se limitam a noticiar fatos isolados e a publicar estatísticas acompanhadas de personagens ilustrativos. Além do mais, as notícias são fragmentadas em seções que separam economia de política, o local do nacional e do mundial, a tecnologia da cultura, como se essas questões não estivessem relacionadas.
No Prosa & Verso do Globo, o professor Ruy Braga nos ajuda a refletir sobre a necessidade de fortalecimento do movimento sindical, no ano em que o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, para o qual Lula muito contribuiu, faz 50 anos: “(…) o governo petista imobilizou os movimentos sociais por meio do ‘transformismo’ de parte expressiva de suas lideranças, colaborando ativamente com o desmanche da classe mobilizada. E por isso talvez a imagem capaz de captar com nitidez o especial significado das transformações do mundo do trabalho no Brasil contemporâneo seja a da ocupação que mais cresceu em termos numéricos sob o lulismo: os operadores de telemarketing. Amalgamado pelos investimentos no setor de serviços, pelas privatizações, pelas terceirizações, pela rotatividade, pela informatização e pela financeirização das empresas, esse ‘infoproletariado’ superexplorado, carente de tradições organizativas e, portanto, despolitizado, é a verdadeira antítese da classe mobilizada das greves de 1978”.
Enquanto isso, o jornal Extra, também da Infoglobo e “o jornal mais lido do Brasil”, como anuncia a capa, aumenta suas vendagens com mais uma super promoção, anunciada em horário nobre na TV: Curso de Qualificação Profissional de Telemarkting. São 9 aulas em forma de apostila, ao preço de um jornal de domingo + R$ 5,90 cada, que, segundo o jornal “capacitam tecnicamente o aluno, e um certificado reconhecido pelo MEC com validade em todo o Brasil, que o qualifica para o mercado de trabalho”. Ah, o aluno aprovado na avaliação realizada ao final do curso, além de certificado, recebe 50% de desconto em cursos da Unicarioca, desde que passem no processo seletivo da instituição. Imperdível, não

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8 - junho - 2009 at 19:56 3 comentários

Fidelidade

Luciana Gondim

“Essa incapacidade de atingir, de entender, é que faz com que eu, por instinto de… de quê? procure um modo de falar que me leve mais depressa ao entendimento. Esse modo, esse “estilo” (!), já foi chamado de várias coisas, mas não do que realmente e apenas é: uma procura humilde”

Roubei as palavras da Clarice, a Linspector, por quem desenvolvi um amor tardio demais para a minha existência, que se prevê tão breve ainda que bem intensa. Nesses poucos anos de convivência, contudo, dois ensinamentos me foram introduzidos por ela, quase como uma ordem, e deixaram marcas tão intensas que me são quase tangíveis. O primeiro é o dom de se angustiar com o cotidiano. O segundo é cultivar o susto de encantamento que sempre sucede os momentos de profunda angústia.

Escrevi o conto “Fidelidade”, que esta semana me rendeu um prêmio do jornal O Globo e incontáveis manifestações de afeto de amigos pouco críticos, possuída pela profunda melancolia do carnaval. Depois de viver três dias entre pessoas mascaradas de felicidade, banhos de cerveja e tamborins, voltei travestida de angústia, assustada com a redescoberta dessa festa, que já nos é tão cotidiana. Escrevi para me libertar da angústia de mulheres em eterna busca por príncipes infiéis imaginários, da tristeza de bêbados lançados no asfalto, da rejeição de mil arlequins que sonham com colombinas que já não são. Mas também para me salvar, com a promessa de um novo encantamento com a velha, cotidiana, mas já esquecida forma de interação entre homem e mulher.

Sem hipócrita nem falsa modéstia, não esperava tamanho reconhecimento por este relato cotidiano. Mas gosto especialmente do resultado dessa união de angústias, porque, de alguma forma, causa o susto de encantamento pelo dogma cotidiano da fidelidade.

fidelidade1

Obrigada, caroços queridos, pela angústia nossa de cada dia.

19 - dezembro - 2008 at 10:55 4 comentários


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