Posts tagged ‘sertão’

Circo Paloma 2: Luzia

Marcelo Valle

Foto:Marcelo Valle

Foto:Marcelo Valle

Luzia chorou como nunca havia chorado, chegou a molhar os pés. Sentia a falta de Juvenal, o mágico, o malandro. Aquele corpo embalsamado não lhe bastava, seco. Foi Juvenal quem encontrou Luzia, frouxa, trouxa na estrada. Ela aos tropeços, menina ainda, com seus 12 anos, sozinha. Restava ainda um resto de resto, de verde nos seus olhos. Carrega consigo impressa lá no fundo dos olhos a lembrança das cores saindo do pó. Sem forma, apenas cores se aproximando numa nuvem de poeira. Ele era a cor mais forte, vinha na frente, vermelho opaco, Juvenal. A última imagem. O que restava de verde vazou de seus olhos, misturaram-se as cores.

A seca era grande, a maior de todas. Secou esperanças, açudes e lembranças. Luzia esqueceu como se caminha. Lembrava apenas do caminho, mas faltava a luz, a cor. O Vermelho Opaco a conduzia, fora adotada como parte da trupe, das cores do circo.

Ele estendia uma corda no chão, fazia e refazia os caminhos. Luzia aos poucos reaprendera a andar sobre a corda. Somente sobre a corda. Um dia Juvenal amarrou a corda entre duas algarobas, bem esticada, longe do chão. Luzia caminhou confiante, e desde então, tornara-se a equilibrista Esperança.

A esperança na corda bamba já não é mais novidade.

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26 - março - 2009 at 12:30 8 comentários

CIRCO PALOMA 1: ALAKAZAN!

Marcelo Valle

Dizem que a magia do circo morreu. É mentira. Quem morreu foi o mágico, atropelado por um jegue que fugia do dono, que queria trocá-lo por uma moto velha. Jegue odeia moto! O mágico também fugia. Corria feito louco sem conseguir “desaparecer”, atrás dele , três jagunços mandando bala. Quem desaparecera foi o dinheiro dos jagunços, o mágico era bom. O dinheiro apareceu no dia seguinte na mão das putas. Depois de morto, um anão deu a idéia de embalsamá-lo, mas ninguém sabia fazer isso. Resolveram salgá-lo e deixá-lo ao calor do sertão, feito carne de sol. Foi defumado , enrolado em uns trapos velhos e exibido como uma legítima múmia do “Vale dos Reis”. Os mesmos jagunços pagaram pra ver a nova atração do circo Paloma. Alakazan era o nome do Jegue, o mágico era Juvenal.

O Jegue seguiu seu caminho, foi parar em Alagoas. Arrumou dono novo e uma namorada. Apaixonou-se por uma moto. Parece mágica! O trabalho dele era puxar carroça com galões de água  para abastecer um assentamento do MST.  No assentamento viviam 23 famílias, entre elas, a de João Magro, vaqueiro velho e aboiador. Numa estrada de pó João conduz uma junta de bois, arrastando lembranças e palavras :

_  A alegria do carreiro é ouvir o carro cantar…

Foto:Marcelo Valle

Circo Paloma

Circo Paloma

23 - março - 2009 at 19:12 7 comentários

Do Sertão de Alagoas

foto: Marcelo Valle Comunidade Caraíbas- Mata Grande - Alagoas

foto: Marcelo Valle Comunidade Caraíbas- Mata Grande - Alagoas

Água tem, pouca, serve ao gado apenas. Salobra feito lágrima, escorre do olho d´água. Homens e mulheres, enxadas, cabaças , carrinhos de mão. Mutirão. Limpar a fonte, dar de beber aos bois. O sol é forte, forte demais, ainda é cedo. Uma lama vai saindo, quase água, quase terra, escura. Cobre homens e pedras. Água de gente beber fica longe dali, por quê?

10 - março - 2009 at 11:19 3 comentários


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